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Destaque - Nova postagem

A procissão

Confesso que eu tinha grandes expectativas sexuais para aquele fim de tarde de sábado, embora o bom senso recomende não alimentá-las. Da janela do apartamento, eu podia ver uma São Paulo amarela do sol de outono. As janelas de outros prédios refletiam a luz solar em brilhos que excitavam a minha mente repleta de “más” intenções para as horas seguintes.
Um banho morno e demorado foi sucedido por um ritual caprichado de escolhas e autoprodução em frente ao espelho. A barba que ameaçava espetar foi vencida pelo aparador elétrico. O pouco de cabelo que ainda me resta da alopécia foi cuidadosamente posto em ordem por um gel fixador. Teve até espaço para um creme de rosto hidratante-multivitamínico-protetor-solar-pós-barba, que mais completo do que isso, só se fizesse o meu café—ou me devolvesse os fios de cabelos perdidos. Se eu fosse mulher, aquela certamente seria a hora do pôr um batonzinho; vermelho, talvez. Acho que eu seria dessas que usa batom vermelho de v…
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Piracema

Quando fui a Bonito (MS) com o meu amigo Samuel, eu não imaginava que, dentre as atividades que faríamos, a de que eu mais fosse gostar seria a experiência de flutuar no Rio Sucuri. Talvez eu apostasse no roteiro de trilhas ou na famosa visita à Gruta do Lago Azul, cartão postal do Mato Grosso do Sul. São todos passeios incríveis, pois Bonito oferece uma natureza tão espetacular e exótica que chega a parecer irreal para cidadãos residentes em cidade grande. É como se tudo aquilo fosse de mentira; uma realidade virtual. Mas foi no Rio Sucuri que eu me vi mais cercado de poesia.
(Evitei de perguntar o porquê do nome do rio, temendo a resposta. É provável que o guia turístico tenha explicado e eu não tenha prestado atenção. Algumas vezes a gente apenas respira fundo e entrega a Deus.)
Bonito não decepciona. Tampouco o Rio Sucuri. Suas águas cristalinas são as águas de rio mais lindas que vi até hoje. Elas deixam que o fundo do rio exponha toda a sua beleza para o visitante que, sempre admi…

O espirro nos tempos do corona

Fila do supermercado. Minha cesta de compras continha biscoitos, chocolates e refrigerantes  ̶̶  pouco adequada a um adulto que já cruzou os trinta, mas que me fez feliz. As pessoas aguardavam, cada uma, sobre uma fita adesiva que marcava o lugar no chão e que, juntas, garantiam a distância de pelo menos 1 metro e meio entre elas. Eu era o segundo da fila, sem considerar a cliente que já estava terminando de passar as compras no caixa.
Na minha frente, em primeiro, estava uma senhorinha magra, curvada, de cabelos curtos e totalmente brancos, integrante de longa data do grupo de risco da covid-19. (Não entendi por que ela não estava na fila preferencial.) Todos de máscara, sem exceção: do pessoal da limpeza aos operadores de caixa, da criança ao idoso. Não percebi São Paulo adormecendo tanto assim durante esses meses de quarentena, mas a máscara todo mundo aprendeu a usar. Por decreto.
Todos menos eu, admito. Todas as minhas máscaras vão caindo enquanto eu falo. Duas frases e já vai apar…

Balões

Não teremos festas juninas esse ano devido à pandemia. Começo esse texto logo com essa constatação desagradável; ao menos para mim, pois desde criança as festas juninas são as minhas preferidas entre as festividades anuais. Por vários motivos. O frio (mesmo que sutil) que o sudeste brasileiro permite nessa época do ano e que a gente tenta aliviar com uma fogueira aconchegante. As comidas típicas, que para mim são melhores até mesmo do que os quitutes natalinos. A fantasia caipira, a quadrilha e as músicas. Como é gostoso ouvir, cantar e deixar-se envolver por “Pagode Russo” de Luiz Gonzaga, entre tantas outras canções tão representativas.
Existe algo nas festas juninas que as diferem de todas as outras tradicionais. Ao mesmo tempo que é um evento para todas as idades, ela traz consigo um certo clima de sensualidade. Diferente do Natal, que é estritamente familiar, santificado e que portanto não promove (ou não deveria promover) condições para que você e sua prima se agarrem depois da c…

As estrelas não se importam

Mais uma vez eu estava sentado na cadeira do escritório, cabelo penteado, todo adultinho, na segunda metade dos anos 1990. Durante as férias escolares, meu pai adorava me levar para o trabalho com ele, na Cinelândia; e eu adorava ir. Ele sempre me colocava numa mesa em L só para mim, com computador, canetas, papéis para rascunho, grampeadores, tudo, que provavelmente pertenciam a algum funcionário recém-demitido. A Mesbla havia decretado falência e, cada vez que eu voltava lá com o meu pai, havia menos gente e mais computadores órfãos espalhados pelo departamento administrativo. Eu até podia escolher onde queria ficar.
Eu ainda não tinha computador em casa naquela época e, portanto, ter um só para mim durante todo o expediente do meu pai era maravilhoso. Assim que chegávamos, meu pai me apresentava à sociedade daquela firma: uns caras maneirinhos que faziam cafuné em mim no estilo "E aí garotão, beleza, você é o famoso Renan então? Teu pai fala muito de você, bom aluno mas não jog…

O menino que não tinha TV em casa

Samuel não é meu amigo de longa data, mas eu gostaria que fosse. Nós nos conhecemos no feriado prolongado de novembro de 2018, no Rio de Janeiro. De início, talvez ele tenha se esforçado mais do que eu para que nossa amizade sobrevivesse ao calor carioca (não consigo fazer nada direito no calor, inclusive amizades); e eu lhe agradeço por isso. Se não fosse por ele, eu jamais teria vivido os bons momentos que sua presença me proporcionou até aqui, tais quais o nosso passeio em Bonito (MS) e as incontáveis sociais em nossas casas.
Engana-se quem o vê pela primeira vez e pensa que ele é quieto. De uma hora para outra, quando eu menos espero, ele desanda a falar; geralmente, algo interessante. Mas, distraído que sou, por vezes eu me perco em suas palavras. Daí que sou devidamente repreendido. "Repita o que eu estava te dizendo agora...". Entro em desespero, e tento repetir a história com as palavras soltas que ouvi. "Não é nada disso", finaliza ele, decepcionado. Porém,…

Deixa eu dizer que te amo...

A vida oferece, a todo instante, momentos sutilmente encantadores para que possamos apreciar. Mas, às vezes, por falta de sensibilidade, pressa ou mesmo pura distração, nós não percebemos. Por sorte, quiseram as estrelas que no último dia dez de maio eu estivesse aguçado o suficiente para que não deixasse de reparar numa pequena graça em forma de coincidência.
Foi o domingo de Dia das Mães, uma das poucas vezes em que estive longe da minha mãe nessa data. Era noite, e eu já havia conversado com ela pelo telefone e renovado as declarações do amor mais sincero que possuo. Ficou feliz com as flores que eu enviei para a sua casa. Quando eu vim para São Paulo, uma das minhas maiores angústias vinha da ideia de ficar longe da minha família. Porém, hoje eu até me sinto privilegiado por morar razoavelmente próximo de todos. O Rio de Janeiro é logo ali. Se não fossem tempos de pandemia, eu teria passado esse dia, mais uma vez, ao lado de dona Rose.
Entretanto, eu me encontrava em minha casa naqu…

O canto do galo

Levantar cedo nunca foi uma de minhas virtudes, embora seja uma obrigação que cumpro. Tenho apego ao travesseiro assim como um bebê perante a sua chupeta. Quase choro todas as manhãs por deixá-lo sozinho, longe do meu calor, esfriando ao longo do dia. O que me salva são os afazeres diários, impostos por uma sociedade que preza pelos primeiros raios de sol. Não me entendam mal: eu adoro as manhãs, e contemplá-las me deixa inspirado. Mas eu realmente sinto uma dificuldade crônica em aproveitá-las nos dias em que eu posso dormir até mais tarde. Em outras palavras, uma preguiça colossal.
Não importa o quão cedo eu durma no dia anterior; levantar da cama na manhã seguinte é sempre tarefa difícil para mim. Todas as noites eu ativo o alarme do celular para me despertar quarenta e cinco minutos antes do horário real. E são esses quarenta e cinco minutos que me fazem ir aceitando, aos poucos, o fato de que preciso sair da cama e encarar a vida. Mesmo assim, espero ansioso pelo dia em que um cie…

Quarentena

Da janela no nono andar, vejo as luzes da cidade brilhando cada vez mais. Anoitece em São Paulo e o frio de maio já começa a dar as caras. Disseram que a moléstia veio lá do Oriente; não se sabe se por meio de avião, navio ou vacilo. Pedem que eu não saia de casa, pois a tosse é traiçoeira e o agravamento tem como um dos pilares uma roleta russa medonha. Além do mais, eu não me perdoaria se ajudasse a enterrar idosos e crônicos. Evito.

Sugerem que é a oportunidade de nos conhecermos melhor, isolados. Não deveria ser necessária uma pandemia para isso. Mas como o ser humano não é o ser mais trivial da Terra, as ocasiões vivem colocando em xeque a noção que temos de nós mesmos. Vale a sugestão. Estou me conhecendo sim, e, confesso, me reconhecendo insuportável às vezes. Olho-me através espelho e dou broncas sérias no reflexo. Dedo em riste (às vezes o médio). Faço as pazes comigo para depois me aborrecer novamente. Sou daqueles casais que muito brigam e nunca se separam. Mas não poderia…