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Encontros

Não existe amor à primeira vista. O que existe é conexão no primeiro encontro: são olhares e sorrisos em sincronia, beijos avassaladores, encaixe perfeito de corpos e boas ideias que batem. Em outras palavras, um pequeno pedaço do paraíso que desce angelicalmente sobre você. Mas não se iluda, isso não é amor. É entretenimento a dois, distração e fantasia compartilhada. Não que essas coisas não sejam sinceras; elas também são. Um simples encontro também é cheio de verdades, mesmo que ele seja casual. Aliás, é difícil pensar em algo mais genuíno do que os nossos desejos; todos eles, dos mais nobres aos mais carnais. Além disso, acredito que poucas pessoas sejam tão teatrais ao ponto de conseguirem simular com desenvoltura um entrosamento que não existe com alguém.  Logo, aquilo que foi bom numa noite calorosa também é  legítimo, ainda que tudo tenha se dissolvido à luz do sol na manhã seguinte.  Como no célebre soneto de Vinicius de Moraes, no “que seja infinito enquanto dure", p
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Jacaré

José Carlos Pereira tomou a vacina e virou jacaré—foi o que disseram a esposa e os filhos, moradores de um pequeno vilarejo nos arredores de Corumbá, no pantanal sul-mato-grossense. O relato dava conta de que, um dia após ter recebido a dose, Zé Carlos desapareceu e um jacaré foi encontrado no quintal da família, exatamente no canto onde o homem gostava de ficar sentado enquanto fumava. O caso atraiu a imprensa local e todo o tipo de gente curiosa. Benedita Tuiuiú, uma velha mística da região, foi visitar a esposa aflita. “Isso é feitiço!”, alegou. A curandeira tentou, então, desfazer o mal a todo o custo através de seus rituais. Sem sucesso. Padre Jorge também acompanhou o caso. “Eu não via algo parecido desde a imagem de Nossa Senhora desenhada na infiltração da parede da casa do Silveira, há mais de vinte anos!”, disse, impressionado. "Mas lá foi milagre, né", emendou ele, para o desespero

Claustrofobia

Aconteceu comigo na volta de uma viagem de férias em 2017. Eu nunca havia tido problemas dentro de um avião até aquele dia, naquele voo noturno. A primeira metade da viagem correu tão bem que eu dormi durante boa parte dela. Eu estava sentado na janela, em paz, cochilando entre uma leitura e outra para passar o tempo. Porém, minha tranquilidade terminou no momento em que eu acordei e logo embarquei numa sequência de sensações negativas. Começou quando eu olhei para o lado e tive a impressão de que o casal que ocupava os assentos do meio e do corredor pareciam estar ainda mais próximos fisicamente de mim, como se eles invadissem o meu espaço. Em seguida, olhei para o assento da frente e entendi como um incômodo insuportável o fato de eu não poder esticar bem as pernas por causa dele. A janela arredondada do avião, de repente, me pareceu menor do que é; a grossa camada de vidro entre o interior da aeronave e o céu me fizeram entender

Pipoca

Eu me lembro de uma menina da minha cidade com quem eu estava saindo quando eu tinha uns vinte anos. Vou chamá-la de Kelly. Certa vez, convidei Kelly para ir ao cinema. Aquela já era a terceira ou quarta vez que saíamos juntos e, embora mostrássemos disposição para nos vermos, os nossos encontros não estavam sendo empolgantes; acredito que tanto para mim quanto para ela. A gente tinha em mente que o outro valia a pena, no sentido de que éramos duas pessoas disponíveis e bem intencionadas, mas isso foi se mostrando como o único (e insuficiente) elemento motivador. Chegando ao cinema, compramos os ingressos e pedimos pipoca. O atendente pediu para esperarmos ele estourar mais. Enquanto o milho cozinhava, Kelly me dizia que adorava o barulho da pipoca estourando; que provocava nela uma sensação de pureza e alegria. Sorri e concordei. E ainda completei dizendo que o cheiro também contribuía para a atmosfer

Planta à beira-mar

Gosto muito dessa foto; desse pequeno caule de sei lá que planta, solitário, levemente inclinado para o mar—e olhando para ele. Como se esperasse por algo que vem da linha do horizonte: um vento, um raio de sol poente, sua planta-gêmea, alguém que possa arrancá-la pela raiz. Talvez ela se pergunte o porquê de estar ali, de ter germinado ali, de ser tão diferente ao mato rasteiro em volta. Ou talvez ela já tenha entendido que sua razão de ser é simplesmente estar à beira do mar mesmo. Um pouco inclinada para ele mesmo. Mais alta do que as outras mesmo. E destacando-se, portanto, sem querer. Sem esperar por nada. O propósito dessa plantinha é estar ali, e ponto. Ela não fica ansiosa com todo esse horizonte aberto a sua frente. Isso é coisa minha. Olá! Meu nome é Renan. Se você gostou deste texto, comente e compartilhe nas opções lá embaixo. É o meu combustível para continuar escrevendo. Leia também os outros textos 😊

Terra plana

A Terra é plana. Sim, eu descobri que é. É plana porque eu tropecei na esquina do mundo e caí para fora dele. Antes disso, eu corria de braços abertos a favor do vento, gargalhava os privilégios de todas as aventuras que podia, cantava de olhos fechados ao som dos violões mais afinados... até que de repente eu caí. Caí do nada, e no nada. E cá estou, flutuando logo abaixo da grande crosta. Daqui, posso ver as raízes de todas as florestas, as relíquias enterradas de todas as culturas, as veias de todos os rios saltadas para mim. Consigo ver fósseis de seres que já não existem, tumbas de deuses e reis que um dia mandaram e desmandaram lá em cima, além de todo o lixo que pinga chorume em meu rosto e escorre boca adentro. Não consigo respirar, engasgo, sinto um nojo colossal do líquido fedido que sai das coisas que antes me faziam sorrir. Olho para os lados e vejo vários pontinhos longe de mim e afastados uns dos outros; é gente que também caiu do mundo

Sangue, lágrima e suor

Ao contrário da lágrima e do suor, o sangue não foi feito para sair de nós. Enquanto a lágrima lubrifica os olhos dos emocionados e o suor refrigera o corpo de quem luta, o sangue não possui função externa à pele. O sangue geralmente escorre de um acidente. Um tiro, uma fratura, um corte. E foi exatamente um caso de laceração profunda que interrompeu, uma vez, a minha consulta num hospital. Uma ambulância barulhenta parou em frente ao saguão, e uma enfermeira veio gritando “Emergência!”. O médico que me atendia pediu desculpas e foi acudir o socorrido. Enquanto o sujeito era levado aos prantos para a sala de emergência, o rastro de seu sangue pingado era deixado no chão dos corredores. Quando o ambiente voltou a ficar em silêncio, uma senhora apareceu com um esfregão e um balde, e começou a limpar as manchas sangue. Eu estava próximo dela. “Coitado! Ele entrou chorando tanto!”, comentei para puxar assunto. A faxineira rebateu: “É, mas todo mundo chor

Gaveta de bilhetes

Se há pouco mais de um ano alguém tivesse me pedido para pensar em uma situação caótica capaz de cancelar o Carnaval, eu talvez pudesse mencionar uma guerra imprevista contra alguma nação implicante ou talvez citasse algum desastre natural de grande magnitude. Ou, quem sabe ainda, eu imaginasse uma mudança sócio-política-cultural drástica causada por uma revolução evangélica, onde o Estado se tornaria oficialmente cristão e a população se dobraria aos preceitos bíblicos mais autoritários (assim como aconteceu no Irã com a Revolução Islâmica). Todas essas distopias eu poderia considerar como grandes motivos para acabar com o Carnaval em nosso país. No entanto, dentro de minha visão limitada de possíveis tragédias, eu jamais incluiria o surgimento de um vírus com potencial pandêmico. Meu amigo Samuel me convidou em cima da hora para passar o feriado com ele no Rio de Janeiro. Ficamos hospedados em Copacabana e o que vimos foi uma cidade que, de

Um tempero diferente

Minha mãe não gosta de coentro, assim como muitas pessoas. Não foram poucas as vezes que eu a ouvi dizer que esse polêmico condimento estraga a comida. Embora seja uma mulher doce e compreensiva, dona Rose costuma ser assertiva quando ela acha algo ruim. E para a comida temperada com coentro, não há salvação. O banquete pode ter sido preparado pelas mãos mais experientes, pelos chefs mais renomados da alta gastronomia, avaliado em cinco estrelas por todas as revistas de culinária francesa, mas se minha mãe percebe o coentro por ali, verdinho, picado e aparentemente inofensivo tentando se esconder, ela não valoriza o prato. Sente logo o cheiro; desiste antes de pôr na boca. “Tem coentro aqui!”, reclama fazendo cara feia, nariz torcido; empurra! Entra em saia justa e tenta ser discreta para a desfeita não ficar muito na cara.  Coentro é mau gosto do cozinheiro, diria ela. Desse jeito, sem meio-termo.  Para a minha mãe, o coentro é como

Ninja na farmácia

Eu estava na farmácia quando avistei Sônia (nome fictício). Imediatamente me escondi atrás de uma pilastra para que ela não me visse também. Sônia é uma senhora de uns sessenta anos; alguém que eu não conheço o bastante para ter assunto, mas que ao mesmo tempo eu conheço o suficiente para me sentir na obrigação de ter que falar mais do que um “oi”—situação essa que eu detesto. Sônia veio em minha direção, sem me notar. Virei de costas para ela. Não é antipatia, juro. É apenas timidez; um terrível desconforto. A simpatia (ou a falta dela) é uma característica que nos é dada, depende de interação com alguém. Eu não posso ser antipático com uma pessoa se ela não teve sequer a oportunidade de me ver e, portanto, de me considerar como tal. Logo, decidi me esquivar de qualquer interação com Sônia sem culpa. Fui para outro corredor enquanto Sônia escolhia sabonetes. Mesmo que eu já tivesse pego tudo o que queria, supus que ir para a fila do caixa naquele mo