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As estrelas não se importam

Mais uma vez eu estava sentado na cadeira do escritório, cabelo penteado, todo adultinho, na segunda metade dos anos 1990. Durante as férias escolares, meu pai adorava me levar para o trabalho com ele, na Cinelândia; e eu adorava ir. Ele sempre me colocava numa mesa em L só para mim, com computador, canetas, papéis para rascunho, grampeadores, tudo, que provavelmente pertenciam a algum funcionário recém-demitido. A Mesbla havia decretado falência e, cada vez que eu voltava lá com o meu pai, havia menos gente e mais computadores órfãos espalhados pelo departamento administrativo. Eu até podia escolher onde queria ficar.
Eu ainda não tinha computador em casa naquela época e, portanto, ter um só para mim durante todo o expediente do meu pai era maravilhoso. Assim que chegávamos, meu pai me apresentava à sociedade daquela firma: uns caras maneirinhos que faziam cafuné em mim no estilo "E aí garotão, beleza, você é o famoso Renan então? Teu pai fala muito de você, bom aluno mas não jog…
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O menino que não tinha TV em casa

Samuel não é meu amigo de longa data, mas eu gostaria que fosse. Nós nos conhecemos no feriado prolongado de novembro de 2018, no Rio de Janeiro. De início, talvez ele tenha se esforçado mais do que eu para que nossa amizade sobrevivesse ao calor carioca (não consigo fazer nada direito no calor, inclusive amizades); e eu lhe agradeço por isso. Se não fosse por ele, eu jamais teria vivido os bons momentos que sua presença me proporcionou até aqui, tais quais o nosso passeio em Bonito (MS) e as incontáveis sociais em nossas casas.
Engana-se quem o vê pela primeira vez e pensa que ele é quieto. De uma hora para outra, quando eu menos espero, ele desanda a falar; geralmente, algo interessante. Mas, distraído que sou, por vezes eu me perco em suas palavras. Daí que sou devidamente repreendido. "Repita o que eu estava te dizendo agora...". Entro em desespero, e tento repetir a história com as palavras soltas que ouvi. "Não é nada disso", finaliza ele, decepcionado. Porém,…

Deixa eu dizer que te amo...

A vida oferece, a todo instante, momentos sutilmente encantadores para que possamos apreciar. Mas, às vezes, por falta de sensibilidade, pressa ou mesmo pura distração, nós não percebemos. Por sorte, quiseram as estrelas que no último dia dez de maio eu estivesse aguçado o suficiente para que não deixasse de reparar numa pequena graça em forma de coincidência.
Foi o domingo de Dia das Mães, uma das poucas vezes em que estive longe da minha mãe nessa data. Era noite, e eu já havia conversado com ela pelo telefone e renovado as declarações do amor mais sincero que possuo. Ficou feliz com as flores que eu enviei para a sua casa. Quando eu vim para São Paulo, uma das minhas maiores angústias vinha da ideia de ficar longe da minha família. Porém, hoje eu até me sinto privilegiado por morar razoavelmente próximo de todos. O Rio de Janeiro é logo ali. Se não fossem tempos de pandemia, eu teria passado esse dia, mais uma vez, ao lado de dona Rose.
Entretanto, eu me encontrava em minha casa naqu…

O canto do galo

Levantar cedo nunca foi uma de minhas virtudes, embora seja uma obrigação que cumpro. Tenho apego ao travesseiro assim como um bebê perante a sua chupeta. Quase choro todas as manhãs por deixá-lo sozinho, longe do meu calor, esfriando ao longo do dia. O que me salva são os afazeres diários, impostos por uma sociedade que preza pelos primeiros raios de sol. Não me entendam mal: eu adoro as manhãs, e contemplá-las me deixa inspirado. Mas eu realmente sinto uma dificuldade crônica em aproveitá-las nos dias em que eu posso dormir até mais tarde. Em outras palavras, uma preguiça colossal.
Não importa o quão cedo eu durma no dia anterior; levantar da cama na manhã seguinte é sempre tarefa difícil para mim. Todas as noites eu ativo o alarme do celular para me despertar quarenta e cinco minutos antes do horário real. E são esses quarenta e cinco minutos que me fazem ir aceitando, aos poucos, o fato de que preciso sair da cama e encarar a vida. Mesmo assim, espero ansioso pelo dia em que um cie…

Quarentena

Da janela no nono andar, vejo as luzes da cidade brilhando cada vez mais. Anoitece em São Paulo e o frio de maio já começa a dar as caras. Disseram que a moléstia veio lá do Oriente; não se sabe se por meio de avião, navio ou vacilo. Pedem que eu não saia de casa, pois a tosse é traiçoeira e o agravamento tem como um dos pilares uma roleta russa medonha. Além do mais, eu não me perdoaria se ajudasse a enterrar idosos e crônicos. Evito.

Sugerem que é a oportunidade de nos conhecermos melhor, isolados. Não deveria ser necessária uma pandemia para isso. Mas como o ser humano não é o ser mais trivial da Terra, as ocasiões vivem colocando em xeque a noção que temos de nós mesmos. Vale a sugestão. Estou me conhecendo sim, e, confesso, me reconhecendo insuportável às vezes. Olho-me através espelho e dou broncas sérias no reflexo. Dedo em riste (às vezes o médio). Faço as pazes comigo para depois me aborrecer novamente. Sou daqueles casais que muito brigam e nunca se separam. Mas não poderia…

Fantasia

Conheço a Marcela "de outros Carnavais", como dizem por aí. Mas foi no último baile à fantasia, em que eu estava acompanhado dos meus amigos atuais, que me lembrei novamente dela, depois de tanto tempo do nosso breve encontro na vida. Éramos dois estudantes em 2005, e nos conhecemos em um projeto de estudos para vestibulandos da área de exatas que se reuniam à tarde com o objetivo de resolver questões de provas de vestibulares anteriores. Os encontros estavam previstos para durarem apenas duas semanas.
Sentei-me ao lado dela no primeiro dia de grupo. Assim como eu, Marcela estava deslocada dos demais e parecia não conhecer ninguém. Não notou a minha aproximação, mesmo com o barulho vergonhoso que fiz quando apliquei uma força mal dimensionada em minha mochila, que colidiu brutalmente com as costas da cadeira onde eu escolhi sentar. Permaneceu atenta a uma folha de papel rabiscada com números e equações.

O monitor da turma apossou-se do quadro negro e começou a corrigir a qu…

Sapatos

Essa é uma história sobre sapatos. Há uns 3 ou 4 anos, quando eu já morava em São Paulo, acordei em uma bela manhã de sábado (na verdade eu não lembro se era realmente uma manhã bela - e nem se era sábado) e constatei que eu precisava comprar sapatos novos para mim. Eu iria sair naquela noite, e os pares que eu tinha já estavam meio surrados. Eu não queria comprar um tênis, nem queria que fosse um sapato social, mas sim um sapato intermediário, que me deixasse bem arrumado, adequado a um estilo mais casual-moderninho, sem exageros.
Cheguei à loja e fui abordado por um exemplo de vendedora: uma pessoa que me recebeu simpática, me perguntou em que ela poderia me ajudar, mas que me deixou circular pela loja, afastando-se de mim para que eu ficasse à vontade. Eu nunca lidei bem com vendedores que me apresentam os produtos, por mais que eu entenda que alguma lojas os orientem assim. Tem o efeito contrário comigo: fico querendo fugir do lugar o quanto antes. Mas não foi o que aconteceu. E …

Desmonte

Numa manhã de dia útil no escritório, já no final de novembro, uma moça que trabalha no mesmo prédio que eu comentou que ainda não havia enfeites de Natal por ali. Questionava a ausência das cores e luzes de fim de ano para alegrar os tons frios das mesas, cadeiras e gaveteiros. O alerta não passou despercebido. Imediatamente parei de olhar para a tela do computador e me peguei por alguns segundos com o cotovelo apoiado na mesa, a mão segurando o queixo e o olhar distante. Depois olhei ao redor. De fato, ainda não havia árvore de Natal, guirlanda, ou boneco de Papai Noel.
No dia seguinte, cheguei ao trabalho com alguns enfeites para adornar a palmeirinha que possuo em minha mesa. "Gostei do seu mato de Natal", comentou um dos colegas, em tom de deboche. De fato, a palmeirinha mais parece mato que cresce do nada em qualquer terra de beira de estrada. Mas era o único ser vivo por ali que poderia servir de árvore de Natal. Eu até poderia pendurar uma guirlanda em meu pescoço, ma…

Penitência

Eu nasci em uma família cristã católica e, portanto, tive acesso a todas as tradições, costumes e eventos inerentes a uma vida devota. Participei de batizados, casamentos, novenas, festa de pentecostes, via sacra. Já fui responsável pelo som da igreja e já carreguei as imagens de Cristo e de Nossa Senhora em meus ombros nas procissões. Fiz coro aos mais belos cantos, junto de pessoas humildes que apenas agradeciam as bênçãos da vida ou que ainda buscavam a cura, o perdão e o consolo.