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Amor e palavrão

Malvina era uma mulher que todos os dias passava na minha calçada, quando eu era pequeno. De meia idade, sempre embriagada e vestindo um shortinho jeans curto com o botão da frente aberto, Malvina gostava de mandar beijos desbocados para os conhecidos que encontrava pelo caminho: “Te amo, porra!”, dizia para um; “Amo você, caralho!” gritava para outro, com sua voz arranhada de cigarro e cachaça, logo após estalar o beijo na palma da mão e dar tchauzinho de longe. Perdi as contas de quantas vezes Malvina se declarou para mim. Tímido, eu morria de medo daquela mulher, mesmo sabendo que ela jamais pudesse me fazer mal. Tempos depois, correram boatos no bairro de que Malvina havia morrido por ingestão de veneno de rato. De fato, ela nunca mais foi vista. Eu nunca soube se o ocorrido foi acidente, cilada ou vontade própria. Em todo o caso, deu pena. Embora pensasse que as declarações de amor de Malvina fossem muito mais orientadas por insanidade do que por sentiment
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Entre o último afeto e o sumiço

  Dia desses, meu amigo Jonas (nome fictício) me contou que conheceu um rapaz numa festa. Encantou-se por Lucas imediatamente, conquistou o moço e os dois ficaram juntos pelo resto da noite; “casaram-se na balada”, como se diz por aí. Marcaram de sair para jantar no dia seguinte. Meu amigo, sempre muito elegante ao vestir-se e portar-se, adorou o jeito largado daquele rapaz, meio bobo, um pouco atrapalhado e que “usava um óculos nada a ver, mas que nele ficavam bem”, palavras do próprio Jonas. “O conjunto todo, a beleza do boy, ele sendo desajeitado, aquilo foi tudo pra mim”, completou o meu amigo. Durante o jantar, Jonas ouviu de Lucas vários detalhes sobre sua vida; coisas de família, histórias íntimas até. A conexão e o desejo entre os dois começaram a manifestar-se ali através de carinhos nas mãos, sobre a mesa, como se já fossem dois namorados comemorando bodas. Um motivo de força maior impediu que eles atendessem às suas vontades sexuais naquela noite, mas, pelo meno

O menino que me pediu ajuda em matemática

Pode me ajudar com matemática, Renan?, foi assim que Cauê (nome fictício) veio até mim naquela manhã em sala de aula logo após descobrir que havia ficado em recuperação na disciplina. Cauê e eu não éramos próximos, mal havíamos nos falado durante os primeiros meses do sétimo ano, embora estudássemos na mesma turma. Tal fato, somado a uma abordagem tão educada, me fez entender que ele realmente estava interessado em melhorar a nota e, mais do que isso, ele acreditava que eu pudesse mesmo ajudá-lo. Era impossível dizer não. Passamos alguns dias juntos, lado a lado, eu explicando a matéria para Cauê nos intervalos das aulas e até mesmo um pouco depois do horário. Naturalmente fomos nos aproximando ao longo desse tempo. Entre funções lineares e figuras geométricas, Cauê e eu também conversávamos coisas de adolescente e, a bem da verdade, às vezes era mais isso do que matemática. E foi assim que o peso da obrigação moral de ajudá-lo cedeu lugar ao gosto d

Gonorreia

Ontem fizeram uma socialzinha aqui em casa, coisa de Marcia, sua amiga e seu namorado. Mamãe detestava esse entra-e-sai de gente na sala dela, bastou morrer para que minha irmã transformasse isso aqui num boteco de esquina. Não, não. Pensando bem, se mamãe ainda desse o ar de sua desgraça nesse mundo, talvez ela não se importasse com essa gente de Marcia pisando em seu tapete, afinal, diferente de mim, minha irmã sempre pôde fazer tudo nessa casa. A primeira a chegar foi Claudete, a amiga. Soube que era ela assim que eu desci as escadas, por causa do cheiro de cigarro misturado com aquele perfume horroroso de flores que ela usa, essas flores típicas de coroas fúnebres para homenagear os mortos. Rosas brancas, crisântemos, lírios. Veio me cumprimentar por obrigação como sempre faz, com o seu sorriso amarelado de nicotina e aquelas mãos geladas. Praticamente uma defunta, uma defunta defumada. Claudete não gosta de mim. Certa vez negou-me um cigarro por pura implic

A travesti da padaria

Era madrugada de sábado para domingo, quase amanhecendo, e eu estava tomando café numa dessas imensas padarias paulistanas, após curtir a noite, numa época em que a pandemia ainda era algo impensável para nós. Qualquer carioca suburbano (feito eu) que nunca tenha passado tempo suficiente em São Paulo talvez não seja capaz de compreender que frequentar as padarias da maior cidade do Brasil vai muito além de simplesmente esperar numa fila para comprar pão, leite e manteiga. As padarias de São Paulo são palcos de confraternizações e do surgimento de grandes amizades e amores sob a garoa. Enquanto idosos comem brioches num canto, jovens eufóricos se reúnem noutro para aumentar os níveis de glicose após uma noite de bebedeira (ou para beberem ainda mais). Essas padarias possuem catracas nas entradas, mesas confortáveis, garçons, balcões de atendimento rápido, pratos exclusivos da casa (muitos deles até se tornam famosos na cidade toda) e estão quase sempre cheias

Bluetooth

Hoje eu me lembrei daquelas noites no carro, quando eu ia te buscar e ficávamos durante algum tempo estacionados ouvindo nossas músicas. Elas se tornavam “nossas” músicas a partir do momento que tocavam ali, em meio ao nosso cenário de carinho e entrega. Celulares emparelhados, o meu ou o teu, deixávamos tocar o que viesse. E assim, sem querer, montávamos a playlist de uma história. Você deitava no meu ombro e me contava sobre o seu dia e também sobre o seu passado; coisas bobas quaisquer que a minha mente inquieta se esforçava para assimilar, palavra por palavra (eu, que não sou de perguntar muito, ficava todo curioso), tudo para que eu pudesse saber o máximo sobre você. Vez ou outra você se lembrava de alguma música e insistia para que a ouvíssemos juntos. Quando era o meu celular que estava conectado, você pedia gentilmente para mudar para o teu. Mas não ficávamos numa só das tuas canções. L

Encontros

Não existe amor à primeira vista. O que existe é conexão no primeiro encontro: são olhares e sorrisos em sincronia, beijos avassaladores, encaixe perfeito de corpos e boas ideias que batem. Em outras palavras, um pequeno pedaço do paraíso que desce angelicalmente sobre você. Mas não se iluda, isso não é amor. É entretenimento a dois, distração e fantasia compartilhada. Não que essas coisas não sejam sinceras; elas também são. Um simples encontro também é cheio de verdades, mesmo que ele seja casual. Aliás, é difícil pensar em algo mais genuíno do que os nossos desejos; todos eles, dos mais nobres aos mais carnais. Além disso, acredito que poucas pessoas sejam tão teatrais ao ponto de conseguirem simular com desenvoltura um entrosamento que não existe com alguém.  Logo, aquilo que foi bom numa noite calorosa também é  legítimo, ainda que tudo tenha se dissolvido à luz do sol na manhã seguinte.  Como no célebre soneto de Vinicius de Moraes, no “que seja infinito enquanto dure", p

Jacaré

José Carlos Pereira tomou a vacina e virou jacaré—foi o que disseram a esposa e os filhos, moradores de um pequeno vilarejo nos arredores de Corumbá, no pantanal sul-mato-grossense. O relato dava conta de que, um dia após ter recebido a dose, Zé Carlos desapareceu e um jacaré foi encontrado no quintal da família, exatamente no canto onde o homem gostava de ficar sentado enquanto fumava. O caso atraiu a imprensa local e todo o tipo de gente curiosa. Benedita Tuiuiú, uma velha mística da região, foi visitar a esposa aflita. “Isso é feitiço!”, alegou. A curandeira tentou, então, desfazer o mal a todo o custo através de seus rituais. Sem sucesso. Padre Jorge também acompanhou o caso. “Eu não via algo parecido desde a imagem de Nossa Senhora desenhada na infiltração da parede da casa do Silveira, há mais de vinte anos!”, disse, impressionado. "Mas lá foi milagre, né", emendou ele, para o desespero

Claustrofobia

Aconteceu comigo na volta de uma viagem de férias em 2017. Eu nunca havia tido problemas dentro de um avião até aquele dia, naquele voo noturno. A primeira metade da viagem correu tão bem que eu dormi durante boa parte dela. Eu estava sentado na janela, em paz, cochilando entre uma leitura e outra para passar o tempo. Porém, minha tranquilidade terminou no momento em que eu acordei e logo embarquei numa sequência de sensações negativas. Começou quando eu olhei para o lado e tive a impressão de que o casal que ocupava os assentos do meio e do corredor pareciam estar ainda mais próximos fisicamente de mim, como se eles invadissem o meu espaço. Em seguida, olhei para o assento da frente e entendi como um incômodo insuportável o fato de eu não poder esticar bem as pernas por causa dele. A janela arredondada do avião, de repente, me pareceu menor do que é; a grossa camada de vidro entre o interior da aeronave e o céu me fizeram entender

Pipoca

Eu me lembro de uma menina da minha cidade com quem eu estava saindo quando eu tinha uns vinte anos. Vou chamá-la de Kelly. Certa vez, convidei Kelly para ir ao cinema. Aquela já era a terceira ou quarta vez que saíamos juntos e, embora mostrássemos disposição para nos vermos, os nossos encontros não estavam sendo empolgantes; acredito que tanto para mim quanto para ela. A gente tinha em mente que o outro valia a pena, no sentido de que éramos duas pessoas disponíveis e bem intencionadas, mas isso foi se mostrando como o único (e insuficiente) elemento motivador. Chegando ao cinema, compramos os ingressos e pedimos pipoca. O atendente pediu para esperarmos ele estourar mais. Enquanto o milho cozinhava, Kelly me dizia que adorava o barulho da pipoca estourando; que provocava nela uma sensação de pureza e alegria. Sorri e concordei. E ainda completei dizendo que o cheiro também contribuía para a atmosfer