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Destaque - Nova postagem

Gaveta de bilhetes

Se há pouco mais de um ano alguém tivesse me pedido para pensar em uma situação caótica capaz de cancelar o Carnaval, eu talvez pudesse mencionar uma guerra imprevista contra alguma nação implicante ou talvez citasse algum desastre natural de grande magnitude. Ou, quem sabe ainda, eu imaginasse uma mudança sócio-política-cultural drástica causada por uma revolução evangélica, onde o Estado se tornaria oficialmente cristão e a população se dobraria aos preceitos bíblicos mais autoritários (assim como aconteceu no Irã com a Revolução Islâmica). Todas essas distopias eu poderia considerar como grandes motivos para acabar com o Carnaval em nosso país. No entanto, dentro de minha visão limitada de possíveis tragédias, eu jamais incluiria o surgimento de um vírus com potencial pandêmico. Meu amigo Samuel me convidou em cima da hora para passar o feriado com ele no Rio de Janeiro. Ficamos hospedados em Copacabana e o que vimos foi uma cidade que, de
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Um tempero diferente

Minha mãe não gosta de coentro, assim como muitas pessoas. Não foram poucas as vezes que eu a ouvi dizer que esse polêmico condimento estraga a comida. Embora seja uma mulher doce e compreensiva, dona Rose costuma ser assertiva quando ela acha algo ruim. E para a comida temperada com coentro, não há salvação. O banquete pode ter sido preparado pelas mãos mais experientes, pelos chefs mais renomados da alta gastronomia, avaliado em cinco estrelas por todas as revistas de culinária francesa, mas se minha mãe percebe o coentro por ali, verdinho, picado e aparentemente inofensivo tentando se esconder, ela não valoriza o prato. Sente logo o cheiro; desiste antes de pôr na boca. “Tem coentro aqui!”, reclama fazendo cara feia, nariz torcido; empurra! Entra em saia justa e tenta ser discreta para a desfeita não ficar muito na cara.  Coentro é mau gosto do cozinheiro, diria ela. Desse jeito, sem meio-termo.  Para a minha mãe, o coentro é como

Ninja na farmácia

Eu estava na farmácia quando avistei Sônia (nome fictício). Imediatamente me escondi atrás de uma pilastra para que ela não me visse também. Sônia é uma senhora de uns sessenta anos; alguém que eu não conheço o bastante para ter assunto, mas que ao mesmo tempo eu conheço o suficiente para me sentir na obrigação de ter que falar mais do que um “oi”—situação essa que eu detesto. Sônia veio em minha direção, sem me notar. Virei de costas para ela. Não é antipatia, juro. É apenas timidez; um terrível desconforto. A simpatia (ou a falta dela) é uma característica que nos é dada, depende de interação com alguém. Eu não posso ser antipático com uma pessoa se ela não teve sequer a oportunidade de me ver e, portanto, de me considerar como tal. Logo, decidi me esquivar de qualquer interação com Sônia sem culpa. Fui para outro corredor enquanto Sônia escolhia sabonetes. Mesmo que eu já tivesse pego tudo o que queria, supus que ir para a fila do caixa naquele mo

Pole dance

Chego em casa após um dia exaustivo e ainda tenho que comer essa coisa requentada em vez de comida fresca!, foi o que Cida ouviu do marido naquela noite. Furiosa, resolveu na mesma hora meter as roupas na mala e deixar Chico, sem maiores cerimônias. Pois coma com o diabo!, saiu batendo a porta. Cida foi abrigada por Kátia, sua amiga desde os tempos de colégio e agora dona de um bordel de luxo no centro da cidade. A cafetina instalou a dona de casa no melhor quarto e pediu às prostitutas que não a incomodassem. No entanto, a amizade com as meninas foi inevitável após Cida ter flagrado uma delas ensaiando num pole dance. Encantou-se imediatamente pela arte e resolveu, assim, treinar com as garotas, dia após dia. Ao passo que perdia a timidez, ganhava novo entendimento sobre o seu próprio corpo a cada encontro com a barra brilhante. Num momento de capricho e autoconfiança, Cida pediu a Kátia para se apresentar na noite de luxúria. Era pouco mais de

Quando minha mãe vem me visitar

Quando minha mãe vem me visitar, a primeira coisa que ela faz é reclamar; a segunda é me dar amor. Anda pelos cômodos, abre gavetas, geladeira, diz que falta isso e aquilo e que eu deveria fazer tal e tal coisa. Depois ela faz café e me oferece docinho na medida dentro de uma xícara que eu nem lembrava que tinha, retirada do fundo inexplorado do meu armário de solteiro. Estava com saudade!, diz. E então logo eu começo a ouvir barulhos e a sentir cheiros sem que eu precise fazer nada. A gente que mora sozinho fica sensível a qualquer estímulo em casa que não tenha sido provocado por nós. Levo susto na sala com o chiado repentino vindo da cozinha: cebola e alho postos para refogar. Não tem jeito, costumo ter pouco sucesso em chamá-la para comer fora. No fim da tarde, é o esmalte e a acetona que se espalham no ar enquanto ela faz as unhas em frente às novelas mexicanas. Sei de longe que é novela mexicana por causa da trilha s

Beijo no semáforo

Já passava da meia-noite quando eu estava em meu carro voltando para casa após um encontro com amigos. Próximo ao cruzamento com uma avenida, o carro na minha frente foi reduzindo a velocidade assim que o semáforo ficou amarelo. Acredito que ninguém se sinta confortável em parar tarde da noite nos semáforos de cidades grandes, mas aquele era um cruzamento com uma avenida importante, onde o fluxo de carros se mantinha razoável mesmo durante a madrugada. Não tinha como avançar. Através do vidro traseiro do carro da frente, eu pude notar que dentro dele havia um casal, e que o homem era o motorista. Aquele semáforo já era um velho conhecido meu; eu sabia que ele demoraria no vermelho. E parecia que o casal também sabia disso, pois assim que pararam o carro, observei que o homem puxou o freio de mão. Em seguida, ambos se olharam. A penumbra causada pela luz dos postes era suficiente para que eu conseguisse enxergar o contorno iluminado daqueles dois rost

Garotinha do papai

    - Alô! - Alô, pai? - Oi, minha princesa! Diga. - Chegou bem no trabalho? - Sim, já estou no escritório. - Que horas você volta hoje? - Por volta das sete, por quê? - Preciso de um favor seu… - Fale, meu amor. - Poderia passar na farmácia e comprar um pacote de camisinhas pra mim? - Oi? - Passar na farmácia e comprar camisinhas pra mim… - Como assim, Luana? - É que hoje eu vou transar com o meu namorado pela primeira vez. Ele é meio distraído, não sei se vai se lembrar de levar... - Luana, você está doida? Como é que você me pede uma coisa dessas? - Ué, algum problema? - Luana, você tem apenas dezesseis anos! - Eu sei. E todas as minhas amigas já transaram, só eu é que… - Luana, isso não é justificativa! Eu não estou acreditando que você está me pedindo isso! - Pai, você não vive me dizendo que eu posso contar com o senhor pra qualquer coisa? - Mas não pra isso! Onde já se viu? - Mas eu pensei que… - Pensou errado! Cale essa sua boca! Não quero mais saber disso! Aliás, desde quando

Caixa de papelão

Ontem à noite eu me vi diante de uma caixa de papelão, dessas que guardam o passado e se amontoam no cantinho das memórias. De trás dela saiu uma borboleta azul, que veio pousar em meu dedo. Revelou-se tão rapidamente que me pareceu enfurecida a princípio. Entretanto, frágil e inocente, a borboleta tinha numa das asas o desenho de um sorriso. Em seguida, abri a caixa e logo ouvi a melodia de um hit  de verão que vinha lá do fundo. Todas as caixas de memórias são também caixas de músicas, e das boas. O volume da canção aumentava à medida que se intensificava no ar a maresia carioca: quente, úmida, descompromissada e irremediavelmente passional. Foi quando um filete d'água espirrou da caixa, direto em meu olho. Ao tentar bloqueá-lo com a palma da mão, o filete se tornou mais espesso, transformou-se num jato forte e não demorou muito para que uma onda quebrasse sobre minha cabeça. Cambalhotas mil, encontrei-me estirado nas areias de Copacabana, e você  em cima de mim.

O porquinho

A velha Teresa somava oitenta anos de idade nas costas e ainda possuía carinho de sobra para preparar o café com leite de seu esposo. A tranquilidade dava o tom daquela manhã, que se descortinava sem pressa, como manda a boa cartilha dos domingos. Um pequeno beija-flor desconfiado se aproximava do basculante da cozinha, onde um bebedouro encoberto por coloridas pétalas de plástico chamava a sua atenção. No canto da pia, um radinho de pilha engordurado resistia ao tempo, valente, permitindo que Roberto Carlos cantasse. Nosso amor é demais E quando o amor se faz Tudo é bem mais bonito Nele a gente se dá Muito mais do que está E o que não está escrito   Enquanto o café ia perfumando a casa ao coar num pano encardido do pó de outras manhãs, Teresa se atentava no beija-flor. O pássaro bicou duas vezes a água misturada com açúcar antes de ser tomado por uma ousadia que fez com que ele entrasse pelo basculante e batesse as asas, imóvel, diante da idosa. Nesse i

Chuva em São Paulo

Chove em São Paulo, e sei que não há novidade nisso. Nem na chuva, nem em tudo o que ela traz. É apenas o mesmo céu vestindo o mesmo cinza, como se quisesse imitar o concreto do qual essa selva é feita. São as mesmas poças d'água, que se espalham feito minas pelo chão, onde os mais desatentos pisam na ilusão da caminhada segura; até que eles explodem, molhados e cheios de raiva. É a conhecida garoa em sua terra natal, dizendo baixinho para mim que não vai me molhar—e me engana. É tão somente a brisa de agosto, que sopra gelada a pouco mais de setecentos metros acima do nível do mar, e se transforma em vento; às vezes vendaval. Este, por sua vez, cospe chuva através de janelas entreabertas, de onde brotam filetes que escorrem paredes abaixo desbotando tudo. É como se as janelas vertessem lágrimas. E talvez elas chorem mesmo. É possível que tudo chore: os prédios, as casas, a tinta e o asfalto. São Paulo não é das cidades mais fáceis. Quando chove,