Pular para o conteúdo principal

Postagens

Destaque - Nova postagem

Planta à beira-mar

Gosto muito dessa foto; desse pequeno caule de sei lá que planta, solitário, levemente inclinado para o mar—e olhando para ele. Como se esperasse por algo que vem da linha do horizonte: um vento, um raio de sol poente, sua planta-gêmea, alguém que possa arrancá-la pela raiz. Talvez ela se pergunte o porquê de estar ali, de ter germinado ali, de ser tão diferente ao mato rasteiro em volta. Ou talvez ela já tenha entendido que sua razão de ser é simplesmente estar à beira do mar mesmo. Um pouco inclinada para ele mesmo. Mais alta do que as outras mesmo. E destacando-se, portanto, sem querer. Sem esperar por nada. O propósito dessa plantinha é estar ali, e ponto. Ela não fica ansiosa com todo esse horizonte aberto a sua frente. Isso é coisa minha. Olá! Meu nome é Renan. Se você gostou deste texto, comente e compartilhe nas opções lá embaixo. É o meu combustível para continuar escrevendo. Leia também os outros textos 😊
Postagens recentes

Terra plana

A Terra é plana. Sim, eu descobri que é. É plana porque eu tropecei na esquina do mundo e caí para fora dele. Antes disso, eu corria de braços abertos a favor do vento, gargalhava os privilégios de todas as aventuras que podia, cantava de olhos fechados ao som dos violões mais afinados... até que de repente eu caí. Caí do nada, e no nada. E cá estou, flutuando logo abaixo da grande crosta. Daqui, posso ver as raízes de todas as florestas, as relíquias enterradas de todas as culturas, as veias de todos os rios saltadas para mim. Consigo ver fósseis de seres que já não existem, tumbas de deuses e reis que um dia mandaram e desmandaram lá em cima, além de todo o lixo que pinga chorume em meu rosto e escorre boca adentro. Não consigo respirar, engasgo, sinto um nojo colossal do líquido fedido que sai das coisas que antes me faziam sorrir. Olho para os lados e vejo vários pontinhos longe de mim e afastados uns dos outros; é gente que também caiu do mundo

Sangue, lágrima e suor

Ao contrário da lágrima e do suor, o sangue não foi feito para sair de nós. Enquanto a lágrima lubrifica os olhos dos emocionados e o suor refrigera o corpo de quem luta, o sangue não possui função externa à pele. O sangue geralmente escorre de um acidente. Um tiro, uma fratura, um corte. E foi exatamente um caso de laceração profunda que interrompeu, uma vez, a minha consulta num hospital. Uma ambulância barulhenta parou em frente ao saguão, e uma enfermeira veio gritando “Emergência!”. O médico que me atendia pediu desculpas e foi acudir o socorrido. Enquanto o sujeito era levado aos prantos para a sala de emergência, o rastro de seu sangue pingado era deixado no chão dos corredores. Quando o ambiente voltou a ficar em silêncio, uma senhora apareceu com um esfregão e um balde, e começou a limpar as manchas sangue. Eu estava próximo dela. “Coitado! Ele entrou chorando tanto!”, comentei para puxar assunto. A faxineira rebateu: “É, mas todo mundo chor

Gaveta de bilhetes

Se há pouco mais de um ano alguém tivesse me pedido para pensar em uma situação caótica capaz de cancelar o Carnaval, eu talvez pudesse mencionar uma guerra imprevista contra alguma nação implicante ou talvez citasse algum desastre natural de grande magnitude. Ou, quem sabe ainda, eu imaginasse uma mudança sócio-política-cultural drástica causada por uma revolução evangélica, onde o Estado se tornaria oficialmente cristão e a população se dobraria aos preceitos bíblicos mais autoritários (assim como aconteceu no Irã com a Revolução Islâmica). Todas essas distopias eu poderia considerar como grandes motivos para acabar com o Carnaval em nosso país. No entanto, dentro de minha visão limitada de possíveis tragédias, eu jamais incluiria o surgimento de um vírus com potencial pandêmico. Meu amigo Samuel me convidou em cima da hora para passar o feriado com ele no Rio de Janeiro. Ficamos hospedados em Copacabana e o que vimos foi uma cidade que, de

Um tempero diferente

Minha mãe não gosta de coentro, assim como muitas pessoas. Não foram poucas as vezes que eu a ouvi dizer que esse polêmico condimento estraga a comida. Embora seja uma mulher doce e compreensiva, dona Rose costuma ser assertiva quando ela acha algo ruim. E para a comida temperada com coentro, não há salvação. O banquete pode ter sido preparado pelas mãos mais experientes, pelos chefs mais renomados da alta gastronomia, avaliado em cinco estrelas por todas as revistas de culinária francesa, mas se minha mãe percebe o coentro por ali, verdinho, picado e aparentemente inofensivo tentando se esconder, ela não valoriza o prato. Sente logo o cheiro; desiste antes de pôr na boca. “Tem coentro aqui!”, reclama fazendo cara feia, nariz torcido; empurra! Entra em saia justa e tenta ser discreta para a desfeita não ficar muito na cara.  Coentro é mau gosto do cozinheiro, diria ela. Desse jeito, sem meio-termo.  Para a minha mãe, o coentro é como

Ninja na farmácia

Eu estava na farmácia quando avistei Sônia (nome fictício). Imediatamente me escondi atrás de uma pilastra para que ela não me visse também. Sônia é uma senhora de uns sessenta anos; alguém que eu não conheço o bastante para ter assunto, mas que ao mesmo tempo eu conheço o suficiente para me sentir na obrigação de ter que falar mais do que um “oi”—situação essa que eu detesto. Sônia veio em minha direção, sem me notar. Virei de costas para ela. Não é antipatia, juro. É apenas timidez; um terrível desconforto. A simpatia (ou a falta dela) é uma característica que nos é dada, depende de interação com alguém. Eu não posso ser antipático com uma pessoa se ela não teve sequer a oportunidade de me ver e, portanto, de me considerar como tal. Logo, decidi me esquivar de qualquer interação com Sônia sem culpa. Fui para outro corredor enquanto Sônia escolhia sabonetes. Mesmo que eu já tivesse pego tudo o que queria, supus que ir para a fila do caixa naquele mo

Pole dance

Chego em casa após um dia exaustivo e ainda tenho que comer essa coisa requentada em vez de comida fresca!, foi o que Cida ouviu do marido naquela noite. Furiosa, resolveu na mesma hora meter as roupas na mala e deixar Chico, sem maiores cerimônias. Pois coma com o diabo!, saiu batendo a porta. Cida foi abrigada por Kátia, sua amiga desde os tempos de colégio e agora dona de um bordel de luxo no centro da cidade. A cafetina instalou a dona de casa no melhor quarto e pediu às prostitutas que não a incomodassem. No entanto, a amizade com as meninas foi inevitável após Cida ter flagrado uma delas ensaiando num pole dance. Encantou-se imediatamente pela arte e resolveu, assim, treinar com as garotas, dia após dia. Ao passo que perdia a timidez, ganhava novo entendimento sobre o seu próprio corpo a cada encontro com a barra brilhante. Num momento de capricho e autoconfiança, Cida pediu a Kátia para se apresentar na noite de luxúria. Era pouco mais de

Quando minha mãe vem me visitar

Quando minha mãe vem me visitar, a primeira coisa que ela faz é reclamar; a segunda é me dar amor. Anda pelos cômodos, abre gavetas, geladeira, diz que falta isso e aquilo e que eu deveria fazer tal e tal coisa. Depois ela faz café e me oferece docinho na medida dentro de uma xícara que eu nem lembrava que tinha, retirada do fundo inexplorado do meu armário de solteiro. Estava com saudade!, diz. E então logo eu começo a ouvir barulhos e a sentir cheiros sem que eu precise fazer nada. A gente que mora sozinho fica sensível a qualquer estímulo em casa que não tenha sido provocado por nós. Levo susto na sala com o chiado repentino vindo da cozinha: cebola e alho postos para refogar. Não tem jeito, costumo ter pouco sucesso em chamá-la para comer fora. No fim da tarde, é o esmalte e a acetona que se espalham no ar enquanto ela faz as unhas em frente às novelas mexicanas. Sei de longe que é novela mexicana por causa da trilha s

Beijo no semáforo

Já passava da meia-noite quando eu estava em meu carro voltando para casa após um encontro com amigos. Próximo ao cruzamento com uma avenida, o carro na minha frente foi reduzindo a velocidade assim que o semáforo ficou amarelo. Acredito que ninguém se sinta confortável em parar tarde da noite nos semáforos de cidades grandes, mas aquele era um cruzamento com uma avenida importante, onde o fluxo de carros se mantinha razoável mesmo durante a madrugada. Não tinha como avançar. Através do vidro traseiro do carro da frente, eu pude notar que dentro dele havia um casal, e que o homem era o motorista. Aquele semáforo já era um velho conhecido meu; eu sabia que ele demoraria no vermelho. E parecia que o casal também sabia disso, pois assim que pararam o carro, observei que o homem puxou o freio de mão. Em seguida, ambos se olharam. A penumbra causada pela luz dos postes era suficiente para que eu conseguisse enxergar o contorno iluminado daqueles dois rost

Garotinha do papai

    - Alô! - Alô, pai? - Oi, minha princesa! Diga. - Chegou bem no trabalho? - Sim, já estou no escritório. - Que horas você volta hoje? - Por volta das sete, por quê? - Preciso de um favor seu… - Fale, meu amor. - Poderia passar na farmácia e comprar um pacote de camisinhas pra mim? - Oi? - Passar na farmácia e comprar camisinhas pra mim… - Como assim, Luana? - É que hoje eu vou transar com o meu namorado pela primeira vez. Ele é meio distraído, não sei se vai se lembrar de levar... - Luana, você está doida? Como é que você me pede uma coisa dessas? - Ué, algum problema? - Luana, você tem apenas dezesseis anos! - Eu sei. E todas as minhas amigas já transaram, só eu é que… - Luana, isso não é justificativa! Eu não estou acreditando que você está me pedindo isso! - Pai, você não vive me dizendo que eu posso contar com o senhor pra qualquer coisa? - Mas não pra isso! Onde já se viu? - Mas eu pensei que… - Pensou errado! Cale essa sua boca! Não quero mais saber disso! Aliás, desde quando