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Mostrando postagens de Abril, 2011

Delírio?

A única bisavó com quem convivi morreu há alguns anos, aos 90, em decorrência de falência múltipla dos órgãos. Velhice mesmo. Seu nome era Orcina. Eu a adorava. Nos momentos de sanidade, ela me contava fatos do seu passado e cantarolava com sua voz rouca e cansada. Nos de insanidade, gritava.
Extremamente católica, a bisa costumava benzer tudo o que comia. Partia o biscoito Maisena, fazia o sinal da cruz no pedaço, e só então colocava-o na boca. Em outras ocasiões, segurava um objeto pequeno e ficava brincando com ele, movimentando-o pelo ar. Várias vezes ela me recitou cantigas de sua época; uma delas eu aprendi a cantar.
Frequentemente ela se esquecia quem eu era. Uma dessas vezes, a mais engraçada, foi quando fui visitá-la após ela ter retornado do hospital devido a algum mal estar. Eu, todo amoroso, a abracei com um caloroso e sorridente "bisa!". Ela, com um olhar de desprezo, respondeu um "eu não me lembro de você", balançando a cabeça com sinal negativo. Perdo…

Felizes para sempre

No dia 29 de abril, o Príncipe William se casará com a plebeia Kate Middleton. Um verdadeiro conto de fadas moderno: a menina que não nasceu em berço de ouro, tornou-se rica e conquistou o coração do jovem príncipe. Em pleno ano de 2011 parece ser difícil compreender porque esse tipo de história ainda fascina tanto. Mas na verdade é muito simples.



Os contos de fada simbolizam a perfeição da vida e das relações humanas. Mesmo havendo alguns bilhões de pessoas no mundo, todas guardando diferenças entre si, o que todas querem é ser felizes. E mesmo que a nossa felicidade deva partir de nós mesmos, é importante termos aqueles com quem dividi-la. E daí surgem os príncipes e princesas, figuras bonitas, ricas, educadas e perfeitas, que representam o ideal do que se busca em outra pessoa, seja para um romance ou apenas uma amizade. Sendo o ideal do imaginário comum humano algo inatingível, não é de se espantar que o casamento de um príncipe legítimo cause tanto alvoroço.
Mas apesar de ser prínc…

Lucas

Hoje é aniversário do meu irmão, Lucas, que completa 16 anos. E por isso o texto de hoje é dedicado a ele.

Eu e Lucas somos filhos do mesmo pai e da mesma mãe, mas as nossas semelhanças terminam aí. Enquanto eu sou moreno tipo indiano com beleza exótica (aff!), Lucas tem um tom de pele bem mais claro, olhos mais claros, cabelos mais claros; um "quê" de loiro playboy.

Lucas é tudo o que eu não sou. E eu sou tudo o que ele não é. Eu era o típico nerd do colégio, sem jeito com as meninas. Lucas é popular e fica com todas. Poemas e recados no Orkut, ligações no meio da madrugada; todas se apaixonam por ele. Lucas é praticamente o Justin Bieber da sala dele. Enquanto eu sempre sofria de amor, Lucas faz sofrerem de amor.

Eu não sou vidrado em futebol. Apenas acompanho meu fluminense de maneira superficial. Jogo futebol da mesma forma que esquio em montanhas geladas, ou seja, não sei, não jogo. Já Lucas faz parte do time juvenil de um clube e já conquistou vários campeonatos.

Eu fui …

Beleza exótica

Já ouvi dizerem algumas vezes que eu tenho uma beleza exótica. Não me lembro de quem. No início, achava o elogio muito interessante, afinal ser exótico é ser diferente, é ter uma beleza fora do comum, fora dos padrões; beleza única. Até que um dia eu me despertei para o real significado da palavra "exótico" ao consultá-la em dicionário:
Exótico: Esquisito, extravagante, estranho.
Tudo veio por água abaixo. Minha beleza é esquisita, extravagante e estranha! Depois disso, passei a me sentir um retrato cubista de Picasso, com um olho em cima, outro embaixo, nariz fora do lugar. Valioso, porém com uma imagem toda desmontada, desengonçada. Ou então um mico selvagem raro e colorido. Ou ainda integrante da banda Restart ou a própria Lady Gaga. Eles são exóticos!


Quadro de Picasso. Exótico!

Lady Gaga. Exótica!
Eu tenho a impressão de que quando alguém diz que você tem uma beleza exótica, não significa que você seja necessariamente bonito, mas sim que você consegue ser um tantinho atraent…

Pessoas e dores

Há cerca de dois ou três anos atrás encontrei uma conhecida, mulher em torno dos cinquenta anos, na condução, enquanto eu voltava da faculdade. É aquele tipo de pessoa que a gente vê uma vez na vida outra na morte. Simples, humilde, simpática e alegre, é uma mulher fácil de se conversar, e, entre algumas gargalhadas, ficamos papeando durante o trajeto inteiro.
Em certo momento, já depois de deixarmos a condução, ela mencionou sobre o seu filho. O rapaz, aos vinte e poucos anos, havia sido assassinado por bandidos. Ele também era um. A tragédia havia acontecido poucos anos antes daquele dia em que nos vimos. Para o coração de uma mãe, era recente. Aliás, creio que para o coração de uma mãe, um acontecimento como esse jamais deixaria de ser recente.
O que me chamou a atenção foi a naturalidade com que a mulher me contou essa história. Sem choro, sem raiva, mas com um certo ar de conformismo, de superação, apesar do seu olhar vago e da saudade que eu percebi sendo imprimida em sua voz.
Uma …

A vida perfeita

Esposa sugere ménage foi ótimo.

Casinha de bomba

Até uns 10 anos atrás era muito comum, pelo menos aqui nas minhas bandas, jovens (na maioria, adolescentes) venderem artefatos pirotécnicos de festa junina/julina. Estou falando de estalinhos, cobrinhas, bombinhas, cabeções de negro, morteiros, lasers, buscapés, etc. Eu fui um desses adolescentes. Por uns dois anos consecutivos, tive a minha casinha de bomba, sendo portanto um “empresário” do ramo.A infraestrutura ficou por conta do meu falecido e saudoso avô. Ele, muito habilidoso com madeira, fez uma casinha de bomba para mim, parecida com a da foto abaixo.Não encontrei foto melhor, mas serve. Os compartimentos serviam para organizar os tipos de explosivos. Bombinhas de um lado, estalinhos do outro, e por aí vai. A minha casinha também tinha um lampião como esse para iluminá-la.O patrocínio ficou por conta do meu pai. Ele comprou todos os artefatos em grande quantidade em uma loja especializada para que eu pudesse revendê-los e obter lucro. Com a casinha pronta e a mercadoria compra…

Sensação de cemitério

Desde que eu me entendo por gente, trago comigo uma sensação que eu apelidei hoje de “sensação de cemitério”. O que sentimos quando vamos ao cemitério? Tristeza profunda, caso estejamos sepultando alguém a quem amamos. Mas não estou me referindo a este caso. Falo da sensação de apenas visita ao cemitério; visita ao túmulo de alguém querido que já morreu há anos, cuja realidade não nos causa mais dor, apenas saudade. Um cemitério. O que você sente?Quando vamos ao cemitério neste caso, podemos não sentir exatamente tristeza, nem alegria. Mas o lugar nos desperta uma reflexão sobre a vida, sobre o fato de ela ser passageira, sobre o fato de que nada levamos dela. Juntamente com o silêncio e a calma do local, essa reflexão resulta em uma sensação de paz incômoda, de conformismo nostálgico, de alegria melancólica, se é que essas dualidades possam existir.Visitar um cemitério é uma verdadeira jornada do “eu”, das nossas rotinas e dos nossos costumes, aceitos e enraizados, rumo a algo muito …

Se eu morrer antes de você...

Se eu morrer antes de você, faça-me um favor: Chore o
quanto quiser, mas não brigue com Deus por Ele haver me
levado. Se não quiser chorar, não chore. Se não
conseguir chorar, não se preocupe. Se tiver vontade de
rir, ria. Se alguns amigos contarem algum fato a meu
respeito, ouça e acrescente sua versão. Se me elogiarem
demais, corrija o exagero. Se me criticarem demais,
defenda-me. Se me quiserem fazer um santo, só porque
morri, mostre que eu tinha um pouco de santo, mas
estava longe de ser o santo que me pintam…

Confessando-me

Como bom cristão católico que eu sou (?), possuo alguns dos sacramentos do catolicismo. Fiz Primeira Comunhão e Crisma. Para quem não sabe, Primeira Comunhão é quando você recebe o corpo de Cristo (a hóstia consagrada) pela primeira vez. Crisma nada mais é do que uma confirmação do batismo, em que o bispo besunta a sua testa com o óleo do Divino Espírito Santo. Antes desses sacramentos, é obrigatório que os católicos recebam um sacramento prévio, chamado de Penitência. A penitência é mais ou menos o que todo mundo conhece como confissão com o padre. E aí que eu queria chegar.A confissão com o padre ocorre de forma individual. Minha primeira confissão, para que eu pudesse ter a Primeira Comunhão, aconteceu quando eu tinha 12 anos. Antes, eu ouvia histórias de penitências severas aplicadas pelo padre (provavelmente mentirosas), e eu, criança, me apavorava só em pensar que o dia da minha confissão individual com o padre estava para chegar. O que me deixava mais tranquilo era o fato de qu…