Pular para o conteúdo principal

Batizado


Inácio acendeu uma vela diante da imagem de São José. Pediu ao santo, chefe da Sagrada Família, que o ajudasse a enfrentar aquela situação. Madalena, sua nova namorava, estava grávida. O aborto era uma medida impensável para um sujeito maduro e religioso. Mas precisava digerir a ideia de assumir uma criança junto com uma mulher que, de certa forma, pouco conhecia. E São José entendia bem disso.

Inácio conheceu Madalena dentro da igreja, na Pastoral do Dízimo. A moça, uns 20 anos mais jovem, era habilidosa com os números e, por isso, havia decidido voluntariar-se como tesoureira dentro da Paróquia do padre Romão. Um dia, Inácio apareceu e disse que desejava contribuir com o dízimo. “Preciso dar 10% do meu salário?”. “Você dá quanto você quiser, o que o seu coração pedir”, respondeu a jovem sorrindo. A partir daí, os encontros e sorrisos foram ficando mais frequentes. E Inácio doava o que o coração pedia. Até que, em pouco tempo, doou também o próprio coração. E logo recebeu a bênção de se relacionar com a moça.

Inácio merecia esse relacionamento. Havia sofrido muito com a perda recente de sua esposa, Lourdes. Os dois iam juntos à missa todos os domingos. Tornaram-se uma referência de casal religioso. Eram discretos. Não tiveram filhos. Ninguém conseguia saber muito da vida dos dois fora do templo. Mas formavam um casal simpático. Eram queridos por todos. Padre Romão adorava vê-los nas celebrações sentados no banco da frente. Pouco depois, Lourdes foi diagnosticada com leucemia, e veio a falecer rapidamente.

Não demorou muito para que a gravidez de Madalena viesse à tona. A fofoca dentro da igreja costuma se espalhar na mesma velocidade que a Palavra de Deus. Às vezes até mais rápida. O fato de todos ali dentro terem conhecido Lourdes, o fato de Madalena ser significativamente mais nova e o fato de ela e Inácio terem um relacionamento de pouco mais de um mês e desprovido de laço matrimonial tornava a gravidez da moça um assunto muito interessante nos cochichos que aconteciam entre um Pai Nosso e uma Ave Maria.

Mas as coisas não ficaram só nas fofocas sussurradas. Dona Gertrudes, uma senhora beata e sisuda de uns 80 e poucos anos, havia dito para Inácio que o filho que a jovem Madalena esperava era do padre Romão. Assim, sem mais nem menos. Inácio não se espantou tanto com o conteúdo da revelação, mas ficou pasmo pensando no que levava uma senhora católica a dizer esse tipo de coisa do padre de cujas mãos recebia a Eucaristia. Preferia não entender. Existe muita fé dentro de uma igreja, inclusive a má. Encarou a revelação com descrédito, assim como todos na igreja encaravam tudo o que aquela senhora dizia.

A tranquilidade de Inácio não vinha da confiança em Madalena, mas sim no padre. Não só na batina, mas principalmente na pessoa. Ele e Romão se conheciam desde garotos. Eram amigos de infância, muito antes de Romão cogitar seguir a vida religiosa. Em uma das muitas vezes que passaram o tempo brincando juntos, uma ficou marcada em suas memórias.

O caso é que a mãe de Inácio não deixava nunca o filho entrar no rio que havia perto da vila. Era um rio caudaloso e profundo, e a mulher tinha medo que seu filho pudesse se afogar. Inácio tinha um grande temor pela mãe, sempre muito rígida e punitiva, e portanto era um filho impecável na frente dela. Mas, numa de suas brincadeiras com Romão, decidiu que queria sentir como era nadar no rio. O problema é que ele não sabia nadar muito bem e, atrapalhado por um tronco seco de árvore que descia pela correnteza e que bateu nele, começou a se afogar. Seus gritos foram logo ouvidos por Romão, que rapidamente entrou no rio e conseguiu resgatar o amigo.

Apesar de ter sobrevivido, Inácio não escapou da surra da mãe ao aparecer molhado e machucado diante dela. Passou semanas de castigo preso em casa. Romão perguntava sobre o amigo e era sempre enxotado pela mãe do menino. Até que um dia ele reapareceu na rua. Romão foi abraçá-lo. Inácio retribuiu e reproduziu o que sua mãe havia repetido para ele durante todo o tempo em que ficara de castigo: “somos escravos das nossas escolhas…”.

Portanto, em nome de uma amizade sólida, Inácio não acreditou no que a velha Gertrudes disse. E assim os meses se passaram. Até que a criança nasceu, um menino. Resolveram chamá-lo de Miguel. Marcaram o batizado e o padre Romão fez questão de celebrar.

Inácio e Madalena seguravam, cada um, uma vela acesa. Entre os dois, padre Romão segurava o bebê, dizendo belas palavras e passagens bíblicas que soavam como brisa leve entre todos os presentes naquela manhã. O padre olhava fixamente para Miguel. Encostou-o em seu peito e, por um instante, esfregou delicadamente seu rosto no rosto da criança, fechou os olhos e sorriu, como que deleitando-se num momento único.

Inácio viu aquela cena e de repente percebeu uma ternura diferente por parte de Romão junto ao bebê. Um olhar de felicidade e de extremo amor, mas misturado com certa angústia a frustração. Olhou para Madalena e viu uma jovem trêmula segurando uma vela trêmula e olhando para o padre e a criança com os olhos trêmulos, como se fossem duas barragens prestes a se romperem e despejarem dois rios de lágrimas, num tipo de emoção que ela precisava conter.

Inácio abaixou a cabeça. Por um instante quis sair dali. Olhou ao redor. A igreja estava bonita e um raio de luz entrava por um vitral e se espalhava em cores do arco-íris no altar. Respirou fundo. Olhou para o padre, seu velho amigo, que agora lançava-lhe um olhar de amizade e culpa, quase que suplicante. Inácio lembrou-se de Lourdes, sua falecida esposa, e do tratamento para engravidar que ela vinha fazendo antes de descobrir a leucemia. E sentiu-se culpado, pois se não haviam tido filhos, era porque ele era estéril, e só soube disso pouco antes de sua esposa morrer. Nunca contou sobre isso para ninguém, exceto para Romão. Tinha vergonha. Sonhava profundamente em ser pai. Mas sempre soube que jamais poderia ser o pai do filho de Madalena, e nem de ninguém.

Romão colocou Miguel no colo de Inácio, repousou a mão no rosto do amigo e, olhando-o fixamente, disse baixinho: “somos escravos das nossas escolhas…”. Inácio aproximou-se, abraçou Romão e tentou enxugar discretamente uma lágrima que escorria no rosto do sacerdote. Romão pegou a água benta e então continuou: “Eu te batizo, Miguel, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo…”. E todos responderam “Amém!”, enquanto Inácio beijava o filho.

Postagens mais visitadas deste blog

A procissão

Confesso que eu tinha grandes expectativas sexuais para aquele fim de tarde de sábado, embora o bom senso recomende não alimentá-las. Da janela do apartamento, eu podia ver uma São Paulo amarela do sol de outono. As janelas de outros prédios refletiam a luz solar em brilhos que excitavam a minha mente repleta de “más” intenções para as horas seguintes.
Um banho morno e demorado foi sucedido por um ritual caprichado de escolhas e autoprodução em frente ao espelho. A barba que ameaçava espetar foi vencida pelo aparador elétrico. O pouco de cabelo que ainda me resta da alopécia foi cuidadosamente posto em ordem por um gel fixador. Teve até espaço para um creme de rosto hidratante-multivitamínico-protetor-solar-pós-barba, que mais completo do que isso, só se fizesse o meu café—ou me devolvesse os fios de cabelos perdidos. Se eu fosse mulher, aquela certamente seria a hora do pôr um batonzinho; vermelho, talvez. Acho que eu seria dessas que usa batom vermelho de v…

O espirro nos tempos do corona

Fila do supermercado. Minha cesta de compras continha biscoitos, chocolates e refrigerantes  ̶̶  pouco adequada a um adulto que já cruzou os trinta, mas que me fez feliz. As pessoas aguardavam, cada uma, sobre uma fita adesiva que marcava o lugar no chão e que, juntas, garantiam a distância de pelo menos 1 metro e meio entre elas. Eu era o segundo da fila, sem considerar a cliente que já estava terminando de passar as compras no caixa.
Na minha frente, em primeiro, estava uma senhorinha magra, curvada, de cabelos curtos e totalmente brancos, integrante de longa data do grupo de risco da covid-19. (Não entendi por que ela não estava na fila preferencial.) Todos de máscara, sem exceção: do pessoal da limpeza aos operadores de caixa, da criança ao idoso. Não percebi São Paulo adormecendo tanto assim durante esses meses de quarentena, mas a máscara todo mundo aprendeu a usar. Por decreto.
Todos menos eu, admito. Todas as minhas máscaras vão caindo enquanto eu falo. Duas frases e já vai apar…

Piracema

Quando fui a Bonito (MS) com o meu amigo Samuel, eu não imaginava que, dentre as atividades que faríamos, a de que eu mais fosse gostar seria a experiência de flutuar no Rio Sucuri. Talvez eu apostasse no roteiro de trilhas ou na famosa visita à Gruta do Lago Azul, cartão postal do Mato Grosso do Sul. São todos passeios incríveis, pois Bonito oferece uma natureza tão espetacular e exótica que chega a parecer irreal para cidadãos residentes em cidade grande. É como se tudo aquilo fosse de mentira; uma realidade virtual. Mas foi no Rio Sucuri que eu me vi mais cercado de poesia.
(Evitei de perguntar o porquê do nome do rio, temendo a resposta. É provável que o guia turístico tenha explicado e eu não tenha prestado atenção. Algumas vezes a gente apenas respira fundo e entrega a Deus.)
Bonito não decepciona. Tampouco o Rio Sucuri. Suas águas cristalinas são as águas de rio mais lindas que vi até hoje. Elas deixam que o fundo do rio exponha toda a sua beleza para o visitante que, sempre admi…

Deixa eu dizer que te amo...

A vida oferece, a todo instante, momentos sutilmente encantadores para que possamos apreciar. Mas, às vezes, por falta de sensibilidade, pressa ou mesmo pura distração, nós não percebemos. Por sorte, quiseram as estrelas que no último dia dez de maio eu estivesse aguçado o suficiente para que não deixasse de reparar numa pequena graça em forma de coincidência.
Foi o domingo de Dia das Mães, uma das poucas vezes em que estive longe da minha mãe nessa data. Era noite, e eu já havia conversado com ela pelo telefone e renovado as declarações do amor mais sincero que possuo. Ficou feliz com as flores que eu enviei para a sua casa. Quando eu vim para São Paulo, uma das minhas maiores angústias vinha da ideia de ficar longe da minha família. Porém, hoje eu até me sinto privilegiado por morar razoavelmente próximo de todos. O Rio de Janeiro é logo ali. Se não fossem tempos de pandemia, eu teria passado esse dia, mais uma vez, ao lado de dona Rose.
Entretanto, eu me encontrava em minha casa naqu…

Quarentena

Da janela no nono andar, vejo as luzes da cidade brilhando cada vez mais. Anoitece em São Paulo e o frio de maio já começa a dar as caras. Disseram que a moléstia veio lá do Oriente; não se sabe se por meio de avião, navio ou vacilo. Pedem que eu não saia de casa, pois a tosse é traiçoeira e o agravamento tem como um dos pilares uma roleta russa medonha. Além do mais, eu não me perdoaria se ajudasse a enterrar idosos e crônicos. Evito.

Sugerem que é a oportunidade de nos conhecermos melhor, isolados. Não deveria ser necessária uma pandemia para isso. Mas como o ser humano não é o ser mais trivial da Terra, as ocasiões vivem colocando em xeque a noção que temos de nós mesmos. Vale a sugestão. Estou me conhecendo sim, e, confesso, me reconhecendo insuportável às vezes. Olho-me através espelho e dou broncas sérias no reflexo. Dedo em riste (às vezes o médio). Faço as pazes comigo para depois me aborrecer novamente. Sou daqueles casais que muito brigam e nunca se separam. Mas não poderia…