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Amaciante


Certa vez, há muitos anos, perguntei a minha mãe sobre o porquê de ela lavar as roupas com amaciante. E ela, com uma das sobrancelhas levantadas dando a entender que eu tinha feito uma pergunta idiota, me respondeu: "O nome do produto já diz... é para deixar as roupas macias, oras!".


Minha mãe me deixou frustrado com a resposta. Não é difícil entender para que serve um amaciante de roupas, mas o que eu queria mesmo era saber porque deixar as roupas macias parecia importante. "Ah, amaciante também deixa as roupas mais perfumadas...", ela completou. Mas não me convenceu. Segue a lógica. O sabão de fato lava a roupa. Perfeito. O alvejante pode ser necessário para tirar as manchas mais difíceis. Tudo bem. Mas e o amaciante? Deixar as roupas macias e com mais perfume do que o cheiro de limpo que o sabão sozinho proporciona me parecia desnecessário. De qualquer forma, fiquei com a minha resposta frustrante e deixei minha mãe em paz naquele dia. 

Esse era apenas um dos questionamentos que eu tinha. Por que arrumar a cama depois de levantar, já que à noite eu vou deitar e desarrumar tudo novamente? Não seria melhor deixar para arrumar a cama somente quando fosse necessário trocar os lençóis? Sem falar no hábito de cuidar de plantas que toda mãe ou pai parece ter. Ao menos se nós tivéssemos um jardim com flores diversificadas e coloridas lá em casa... Mas que nada! Era sempre uma tremenda d'uma samambaia! Por que se importar com uma samambaia, gente? E ainda tinha que tirar a água dos pratos dos vasos todo dia para não criar foco do mosquito da dengue. Flor bonita que era bom, quando tinha, morria rápido.

O fato é que eu não entendia uma porção de coisas com 15 anos de idade e que, somente hoje, aos 30, posso dizer que compreendo. A gente tem mania de grandeza, de achar que somente aquilo que dizem ser grandioso ou que pode nos levar à grandiosidade (e aos aplausos calorosos dos outros) merece nossa atenção.

Talvez o meu conceito de grandiosidade na época estivesse... eu não diria equivocado, mas um pouco cego. Minha mãe não precisava ter no quintal um jardim botânico com flores lindas e raras para ser feliz. Talvez ela só precisasse mesmo cuidar de uma simples samambaia. E de ver a samambaia crescer devido ao carinho diário oferecido. E de ficar grata por ouvir das visitas "nossa, essa samambaia está bonita!", mesmo que samambaia não seja a mais deslumbrante das plantas. Talvez seja o ato de cuidar, de se dedicar com amor a algo ou alguém, incluindo todos os pequenos detalhes, o nosso objetivo mais importante em vida, ainda que ninguém mais seja afetado ou dê muito valor a isso.

Deitar à noite em cima de uma cama arrumada pode não ser fundamental para o sucesso na carreira de ninguém, mas pensa só no alívio que é se jogar sobre um lençol esticado e descarregar toda a tensão de um dia cheio sobre um travesseiro que te aguardava ali já na posição certinha. É extremamente acolhedor. Uma cama desfeita encontrada por alguém que teve um dia estressante certamente não ajuda.


Quando eu vestia um uniforme de colégio lavado pela minha mãe, eu não vestia somente uma camisa e uma calça limpas. Eu vestia todo o amor dela na forma de um uniforme macio e perfumado que, mesmo sem eu perceber, acariciava o meu corpo e inebriava a minha alma, fazendo com que eu me sentisse alguém importante e que, nos dias mais difíceis, parecia me dizer "vai lá garoto, você consegue!".

Enfim. Hoje eu pus no meu guardarroupa uma pequena pilha de camisas que minha mãe fez questão que eu trouxesse lavadas e passadas do Rio. Ao guardá-las, não pude deixar de sentir o cheiro do amaciante perfumado. Tive duas constatações: a alegria por ter aprendido a dar valor a isso, e a tristeza em perceber que até hoje não consegui com que a roupa que eu lavo fique dessa forma. Coisa que, na minha idade, mamãe já tirava de letra.

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