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Amaciante


Certa vez, há muitos anos, perguntei a minha mãe sobre o porquê de ela lavar as roupas com amaciante. E ela, com uma das sobrancelhas levantadas dando a entender que eu tinha feito uma pergunta óbvia, me respondeu: "O nome do produto já diz, meu filho. É para deixar as roupas macias, oras!".

Minha mãe me deixou frustrado com a resposta. Não é difícil entender para que serve um amaciante de roupas. Mas o que eu queria mesmo era saber porque deixar as roupas macias parecia importante. "Ah, o amaciante também deixa as roupas mais perfumadas", ela completou. Mas não me convenceu.

Se o sabão é o que de fato lava a roupa e o alvejante tem a nobre função de tirar as manchas mais difíceis (ficou parecendo texto de propaganda), os dois juntos já não seriam suficientes para garantir uma boa lavagem? Para que usar amaciante? Deixar as roupas macias e com mais perfume do que o cheiro de limpo que o sabão sozinho proporciona me parecia desnecessário. De qualquer forma, fiquei com a minha resposta frustrante e deixei minha mãe em paz naquele dia. 

Esse era apenas um dos questionamentos que eu tinha. Por que arrumar a cama depois de levantar, já que à noite eu vou deitar e desarrumar tudo novamente? Não seria melhor deixar para arrumá-la somente quando fosse necessário trocar os lençóis?
 
Isso sem falar no hábito de cuidar de plantas que toda mãe ou pai parece ter. Se ao menos nós tivéssemos um jardim com flores diversificadas e coloridas lá em casa. Mas não. Era sempre uma samambaia! Por que se importar com uma samambaia? E ainda tinha que tirar a água dos pratos dos vasos todos os dias para não criar foco do mosquito da dengue. Se a ideia era cuidar de planta, que fosse uma planta que tivesse mais graça.

A verdade é que eu não entendia uma porção de coisas naquela época, e que, somente hoje, posso dizer que compreendo. Numa sociedade competitiva e de aparências como a nossa, a gente pode acabar assimilando que somente aquilo que julgam como belo, grandioso ou que pode nos levar à grandiosidade—e aos aplausos calorosos dos outros—merece a nossa atenção.

Talvez a minha concepção do que é importante fosse limitada. Minha mãe não precisava ter no quintal um jardim botânico com flores lindas e raras para estar satisfeita. Talvez ela só precisasse mesmo cuidar de uma simples samambaia. E de ver a samambaia crescer à luz do carinho diário que lhe era oferecido. E de ficar grata por ouvir das visitas "nossa, como essa samambaia está bonita!", mesmo que samambaia não seja a mais deslumbrante das plantas. 
 
Talvez seja o ato de cuidar, de se dedicar a algo, a alguém ou a si mesmoincluindo todos os pequenos detalhes e mimos que poucos enxergamo objetivo mais significativo da nossa vida, ainda que ninguém mais seja alcançado por esse carinho ou dê algum valor a isso. 

Deitar à noite numa cama arrumada pode não ser fundamental para o sucesso na carreira de alguém, mas se jogar sobre um lençol esticado e descarregar toda a tensão de um dia cheio sobre um travesseiro que te aguardava ali já na posição certinha é, sem dúvidas, extremamente acolhedor. Uma cama desfeita encontrada por quem teve um dia estressante certamente não ajuda a melhorar a dureza de sua rotina.

Quando eu vestia meu uniforme de colégio lavado pela minha mãe, eu não vestia somente uma camisa e uma calça limpas. Eu vestia todo o amor dela na forma de um uniforme macio e perfumado que, mesmo sem eu perceber, acariciava o meu corpo e aquecia a minha alma, fazendo com que eu me sentisse alguém importante e que, nos dias mais difíceis, era como se me dissesse também "vai lá garoto, você consegue!".

Hoje em dia, quase sempre quando eu volto do Rio, minha mãe faz questão que eu traga comigo as roupas que usei por lá, já lavadas e passadas por ela. Ao chegar em casa e guardá-las, é impossível deixar de sentir o cheiro do amaciante perfumado. Daí, tenho duas constatações: a alegria por ter aprendido a dar valor a isso, e um pouquinho de tristeza em perceber que até hoje eu não consegui com que a roupa que eu lavo fique dessa forma. Coisa que, na minha idade, minha mãe já tirava de letra.

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