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Jenifer


Carlão chegou com 10 minutos de antecedência ao vão do Museu de Arte de São Paulo, onde havia combinado de encontrar-se com Jenifer, a sua mais nova combinação no aplicativo de relacionamentos. O rapaz não acreditava que ela fosse menos linda do que as fotos faziam crer, mesmo que por diversas vezes a internet já tivesse lhe trazido péssimas surpresas.

Ansioso, não parava de olhar o relógio. Logo decidiu que deveria escolher uma pose para quando Jenifer chegasse e o visse pela primeira vez. Apostou nos braços cruzados e no pé direito no muro para dar o ar de virilidade ao realçar os músculos treinados e ao mesmo tempo aparentar certo grau de desprendimento. Mas desfez a pose ao ver uma chupeta cair da boca de uma criança pequena que passava afoita em sua frente. Após agachar-se para pegar o objeto e entregá-lo à mãe, avistou Jenifer parada olhando para ele, com um sorriso que jamais imaginou que pudesse existir.

"Eu nem me atrasei tanto assim, mas deu tempo de você arrumar outro encontro e, de quebra, um filho?", disse a simpática jovem. Carlão ficou desconcertado. Não que fosse inseguro, mas havia praticado até mesmo a sua pose para a primeira vista, e no fim das contas foi flagrado pegando uma chupeta no chão. "Pois é...", brincou Carlão.


Carlão constatou que Jenifer não era outra propaganda enganosa debaixo de fotos bem produzidas. Ela era exatamente o deslumbre de mulher que parecia ser. E ainda melhor, por ser agradável e inteligente. Voluptuosa, Jenifer era o tipo de mulher capaz de parar o trânsito na Avenida Paulista e fazer qualquer skatista transeunte tecer-lhe elogios. 

Jenifer por vezes era verborrágica, mas as palavras não irritavam Carlão. Pelo contrário. Não foi necessário mais do que uma hora daquele primeiro encontro para que Carlão ficasse hipnotizado por aquela mulher. Ao longo do encontro, Jenifer permitiu que o rapaz fizesse carícias discretas em suas mãos e cabelo, mas negou-lhe o beijo. "Como eu disse, não posso ficar muito tempo hoje, mas gostaria muito de te ver de novo", disse a jovem. Carlão respondeu da única maneira possível. "Com certeza!".

Já em sua casa, Carlão não parava de pensar naquela tarde. Ao mesmo tempo em que se sentia um pouco frustrado por não ter acontecido nada demais, estava satisfeito por ter conhecido uma mulher tão incrível. Experiente em encontros, ele sabia que veria Jenifer novamente; sabia que ela também estava interessada. Curioso, pesquisou as redes sociais da moça.

Deparou-se com diversas fotos da jovem, não menos fascinantes do que as do aplicativo. Sempre sorridente, Jenifer posava com amigos, festas, cachorros e cachoeiras. Encantado, rolou a tela para ver fotos mais antigas. E depois, as fotos ainda mais antigas. À medida que Jenifer tornava-se mais nova com o retroceder da linha do tempo de suas fotos publicadas, Carlão atentava-se no fato de que as feições da moça iam se modificando, seu cabelo encurtando, seu rosto aos poucos deixando de lado as curvas suaves e o queixo fino e apresentando arestas um pouco mais acentuadas.

Mas foi quando chegou ao final do álbum de fotos que Carlão se apavorou. Num susto, deixou o celular cair no chão no instante em que viu que Jenifer, mesmo vestindo roupas femininas e usando maquiagem, aparecia com o rosto acinzentado de barba feita em sua foto mais antiga, de alguns anos atrás. Poderia esperar qualquer coisa dela; doença terminal, problema com drogas, espionagem, o que fosse. Mas como poderia imaginar isso de uma mulher tão linda, feminina e de voz tão doce?

Jéferson nasceu na capital paulistana em uma noite fria de agosto de 1993. Como qualquer bebê, chorava todas as noites em seu berço e os pais revezavam-se no sono para niná-lo. Amanhecia em seu quarto azul, e ficava entretido com um dinossauro de plástico pendurado sobre si e que se movimentava devido à brisa da manhã. A mãe vestia-o com roupinhas quentes, enquanto o pai preparava a mamadeira.

Aos 4 anos de idade, Jéferson costumava ouvir elogios de outros adultos quanto à sua boa educação, julgada incompatível para uma criança tão pequena. Os pais sorriam orgulhosos. Aos 8, porém, o menino começou a preocupar os pais, sobressaindo-se de outra forma. E logo os elogios declarados de outros adultos davam lugar pouco a pouco aos cochichos de pé de ouvido.

Com 12 anos de idade, Jéferson fez amizade no colégio com Téo. Jéferson não era muito de ter amigos. Não que ele dispensasse amizades, mas percebia que os demais colegas de classe se afastavam quando ele tentava se aproximar. Mas Téo parecia não se importar se Jéferson era diferente. Téo sentava-se na carteira ao lado de Jéferson, Téo fazia dupla com ele nos trabalhos e até merendavam juntos. Téo só não jogava futebol com ele nas aulas de educação física porque Jéferson era péssimo jogando bola. Preferia então escolher sempre o Felipe e o Pedro para o seu time, que eram bem melhores.

Téo só começou a se importar com sua proximidade com Jéferson quando viu que estava sendo prejudicado pelos outros meninos. Percebeu que ser amigo de Jéferson tirava dele a amizade e o respeito dos demais. "Nada a ver você ser amigo dele. Você é igual a ele? Hein?". Assim, os ataques foram ficando mais intensos, até que num episódio de ofensas verbais, onde todos os envolvidos foram parar na diretoria, Téo saiu em defesa de Jéferson, mas depois passou a sentar-se do outro lado da sala. E aos poucos eles foram deixando de estar juntos, e depois nem mais se falavam, até que o ano letivo terminou e Jéferson, apaixonado, confuso e entristecido, pediu aos pais para que fosse mudado de colégio.

Mesmo sendo diferente e desde tão jovem sendo atacado por isso, Jéferson não foi carente do amor dos pais. A mãe guardava o choro para quando deitasse na cama, à noite. O pai fingia que não via. Não tocavam no assunto, mas sacrificavam-se ao máximo para transformar toda a preocupação e agonia no maior amor e compreensão possíveis, mesmo que parecesse impossível em alguns momentos.

Tudo teria sido mais fácil se os pais de Jéferson não tivessem falecido em um desastre aéreo quando o rapaz contava com 15 anos de idade. Não bastasse o desespero da inadequação ao corpo cada vez mais frequente, Jéferson teve que lidar também com o desespero de uma tragédia tão dilacerante. Profundamente deprimido, ele passou a ser cuidado pela madrinha.

Muito afetuosa, a madrinha ofereceu tudo o que Jéferson precisava. Deu-lhe todo o suporte necessário, tranquilidade, acompanhamento psicológico profissional e a sua paciência. Cristã, deu-lhe orações também. E Jéferson orou. Orou pelos pais, orou por si. Entretanto, conforme percebia a recuperação do jovem, a madrinha passou a cobrar-lhe também uma postura melhor, uma postura de homem. Jéferson gostava de orar, mas questionava sobre o porquê de ter que fazer isso vestindo jeans largos.

Ao atingir a maioridade, após muitos desentendimentos, pediu que a madrinha lhe desse todo o dinheiro que pertencia a ele, dinheiro esse oriundo da indenização da empresa aérea. Inicialmente relutante, a madrinha tentou argumentar e mantê-lo sob seus cuidados para que pudesse salvá-lo aos olhos de Cristo. Mas vendo que não tinha mais nada que pudesse fazer, acatou o pedido. "Cuide-se!".

Jéferson alugou um apartamento com o dinheiro que era seu por direito. Aplicou uma parte da quantia e passou a trabalhar para manter-se. Voltou a estudar. Conquistou amigos esclarecidos e também alguns desafetos. Sofreu assédio por parte de colegas da faculdade e de alguns professores. Constantemente abalado, olhava-se no espelho todos os dias, o que só lhe dava a certeza de quem, do que era. Aceitou-se definitivamente como mulher. Cansada dos assédios e decidida a completar a transformação, iniciou o tratamento hormonal e tempos depois decolou de São Paulo para a Tailândia. De uma vez por todas, Jéferson havia morrido em cima da mesa de cirurgia em Bangkok. Nascia Jenifer.

Carlão pegou o celular do chão e, trêmulo de ódio, olhou para a tela trincada que revelou quem Jenifer de fato era! Recebeu uma mensagem dela segundos depois, mas não respondeu. Precisava fazer alguma coisa. Sentia-se enganado, tolo, estúpido! Queria humilhá-la pessoalmente. Queria espancá-la! Marcaria novamente com ela, como se nada tivesse acontecido. E agiria assim, até que tivesse a oportunidade de atacá-la. Respondeu a mensagem e combinaram no mesmo local no dia seguinte.

Dessa vez, Jenifer havia sido a primeira a chegar ao vão do Museu de Arte de São Paulo. Carlão, ao avistá-la de longe à sua espera, parou por alguns instantes, repassou na cabeça tudo o que deveria fazer passo a passo para não correr o risco de prejudicar-se judicialmente. Tão logo se aproximou, percebeu que Jenifer estava aflita. "Tenho algo pra te contar", disse a jovem. Carlão aguardou. "Sou uma mulher transsexual".

Carlão ficou inerte, não esperava pela confissão. "Por isso recusei o beijo, não era justo", completou ela. Carlão não conseguia dizer nada. "Desculpe, não quis te enganar, mas...", continuou. "Mas o quê?", disse Carlão pela primeira vez. "Quando eu vi no aplicativo que você era o Téo e que você também tinha me curtido, eu fiquei tão...". Carlão no mesmo instante levou as mãos até a cabeça! Com os olhos arregalados, ele não podia acreditar no que tinha acabado de ouvir! Como era possível? Ela o conhecia?

Há muitos anos Carlão não era mais chamado de Téo. Para ser mais exato, desde a escola, quando uma professora carinhosamente apelidou de Téo o menino que atendia por Carlos Teotônio, como uma forma de diferenciá-lo de outros tantos alunos chamados Carlos e ao mesmo tempo de suavizar um nome composto tão pesado, que fora herdado do bisavô. A redução do nome pegou no colégio inteiro, mas não sobreviveu após o menino ter completado o ensino fundamental. Téo voltou a ser somente Carlos, e após alguns anos de ganho de massa muscular, os amigos recentes passaram a chamá-lo de Carlão.

Jenifer revelou quem era. Resumiu toda a sua história para o indignado, porém mais calmo, ex-colega de turma. Jenifer e Carlão não eram pessoas ruins; eram apenas pessoas. "Sinto muito, mas eu não posso...", disse ele. Jenifer respirou profundamente e limitou-se na resposta. "Tudo bem". Despediu-se de Carlão e seguiu, caminhando pela calçada.

Carlão ficou parado enquanto pensava sobre tudo aquilo. Em seguida pegou o celular, desbloqueou a tela trincada, abriu o aplicativo de relacionamento e sobrevoou com o dedo o botão de desfazer a combinação com Jenifer. Pensou por alguns segundos, mas não clicou. Guardou o celular e olhou para a moça que, já distante, com uma silhueta escura e cada vez menor, parecia pôr-se junto com o sol ao longo da Avenida Paulista.

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