Pular para o conteúdo principal

Mesa para dois



Gosto quando nos sentamos lado a lado. A mesa é muito grande e atrapalha a nossa intimidade. Além disso, acho que fica mais bonito para quem vê de fora. Você sabe que eu sou um pouco exibido. Algum jovem com o talento de Da Vinci pode passar na nossa frente e resolver nos pintar como em A Última Ceia. Pois tudo isso que nós temos é uma obra de arte e merece ser eternizado à base de aquarela.

Jantar contigo é quase como casar contigo. O restaurante é a igreja, bem decorado e aconchegante, pronto para receber os mais apaixonados. A mesa é o altar, diante da qual nos colocamos, numa proposta espontânea e conjunta. O garçom é o padre, que nos orienta e nos convida a dividir um prato para dois. E logo você me olha e diz "aceito", e espera que eu aceite de volta. E o nosso desejo é, então, prontamente atendido.

A comida é o próprio casório. Feita para nós. Temperada conforme a nossa decisão de como degustar aquele momento. Eu posso até dizer que não me importaria estar em um restaurante ou em um boteco, desde que eu estivesse contigo. E isso não seria exatamente uma mentira. Mas eu desenvolvi uma certa atração pelo o que é sofisticado, de forma que não posso ignorar a influência externa na minha inspiração.

A sobremesa partilhada é a nossa festa de casamento, onde nos divertimos com uma dança de colheres, e nos derramamos em calda quente no meio da pista, inebriados pela música ambiente. A gente se esbalda e eventualmente se suja, e sorrimos, e fotografamos, em pleno deleite pelo doce sabor daquele momento.

Talvez eu seja um pouco intenso. Brinco dizendo que é porque eu sou de Áries. Mas confesso que só acredito em signos quando preciso de algo para colocar a culpa pelos meus defeitos, já que no fundo eu ainda não atingi a virtude de assumir todos eles. Para a minha sorte, você gosta disso.

E assim, sacramentados, saímos do restaurante. Ainda insaciados, partimos para a nossa noite de núpcias. Que, convenhamos, não precisa de analogia com nada.

Postagens mais visitadas deste blog

Jenifer

Carlão chegou com 10 minutos de antecedência ao vão do Museu de Arte de São Paulo, onde havia combinado de encontrar-se com Jenifer, a sua mais nova combinação no aplicativo de relacionamentos. O rapaz não acreditava que ela fosse menos linda do que as fotos faziam crer, mesmo que por diversas vezes a internet já tivesse lhe trazido péssimas surpresas.

Ansioso, não parava de olhar o relógio. Logo decidiu que deveria escolher uma pose para quando Jenifer chegasse e o visse pela primeira vez. Apostou nos braços cruzados e no pé direito no muro para dar o ar de virilidade ao realçar os músculos treinados e ao mesmo tempo aparentar certo grau de desprendimento. Mas desfez a pose ao ver uma chupeta cair da boca de uma criança pequena que passava afoita em sua frente. Após agachar-se para pegar o objeto e entregá-lo à mãe, avistou Jenifer parada olhando para ele, com um sorriso que jamais imaginou que pudesse existir.

"Eu nem me atrasei tanto assim, mas deu tempo de você arrumar outro en…

Pipoca

Lembro-me de uma menina legal com quem eu estava saindo há alguns anos atrás. Convidei-a para ir ao cinema. Aquele já era o nosso terceiro ou quarto encontro. E embora tivéssemos disposição para nos vermos, os encontros não estavam sendo empolgantes. Para nenhum dos dois. A gente até tinha em mente que o outro valia a pena, no sentido de que éramos duas pessoas disponíveis e bem intencionadas, mas esse era o único e insuficiente elemento motivador.

Uma velhinha no trem

Há alguns anos, dentro do trem indo para a faculdade como de costume, eu sentei ao lado de uma idosa. Ela estava acompanhada de sua filha e ambas estavam a caminho da casa de um parente. Sei disso porque comecei a conversar com a velha senhora. Ou melhor, ela começou a conversar comigo.
Naquela época eu tinha por volta dos 20 anos de idade e era alvo fácil dos idosos para puxar papo. Nunca soube exatamente o porquê disso. Não sei se era o cheiro do sabonete Phebo que a minha mãe de vez em quando comprava lá para casa, ou alguma essência de alfazema que eu despejava no pescoço, atrasado, sem nem olhar direito o que era. Ou ainda se era a minha cara bobo completamente inofensiva mesmo. Só sei que, de alguma forma, parecia que os idosos (principalmente as idosas) olhavam para mim e pensavam "hum, esse menino tá com cara de quem quer um assunto!".
E acertavam. Eu gosto mesmo de um assunto. E, particularmente, eu sempre gostei de conversar com idosos. Pessoas mais velhas são font…