Pular para o conteúdo principal

Uma velhinha no trem



Há alguns anos, dentro do trem indo para a faculdade como de costume, eu sentei ao lado de uma idosa. Ela estava acompanhada de sua filha e ambas estavam a caminho da casa de um parente. Sei disso porque comecei a conversar com a velha senhora. Ou melhor, ela começou a conversar comigo.

Naquela época eu tinha por volta dos 20 anos de idade e era alvo fácil dos idosos para puxar papo. Nunca soube exatamente o porquê disso. Não sei se era o cheiro do sabonete Phebo que a minha mãe de vez em quando comprava lá para casa, ou alguma essência de alfazema que eu despejava no pescoço, atrasado, sem nem olhar direito o que era. Ou ainda se era a minha cara bobo completamente inofensiva mesmo. Só sei que, de alguma forma, parecia que os idosos (principalmente as idosas) olhavam para mim e pensavam "hum, esse menino tá com cara de quem quer um assunto!".


E acertavam. Eu gosto mesmo de um assunto. E, particularmente, eu sempre gostei de conversar com idosos. Pessoas mais velhas são fontes vivas das memórias de épocas que a gente às vezes têm dificuldade de imaginar que pudessem ter existido. Eu me divirto, além de ser um exercício maravilhoso relacionar o que a gente aprende sobre história e cultura na nossa educação formal com as experiências vividas no âmbito individual de uma simples velhinha que pega o trem. E tudo isso misturado com a típica doçura senil.

Num dado momento, a velha senhora começou a me contar sobre quando conheceu o seu marido, já falecido há muitos anos. Ela se casou virgem com ele, que foi o primeiro namorado. Antes do casamento, os dois mal podiam dar as mãos na frente dos familiares. Beijos, eles deram apenas alguns escondidos. "Mas a noite de núpcias não deixou a desejar", disse ela. Que bom!

Seguindo a cronologia do seu casamento, ela me contou que o falecido teve alguns relacionamentos extraconjugais que deram origem a dois filhos bastardos. Um deles ela ajudou a criar, depois que a amante chegou com a criança embalada no colo, pedindo reconhecimento paterno. "Eu fiquei muito triste na época, mas depois entendi que era coisa de homem mesmo". Quando ouvi isso, naquela ocasião, eu achei engraçadinho. Se fosse hoje, eu provavelmente lhe ofereceria um sorriso bem amarelo.

Quem sou eu para julgar os longos anos de casamento e principalmente os sentimentos de uma velhinha que eu não conheço. Mas é impossível não traçar um paralelo com o que eu ouço muito por aí hoje em dia, relativo à necessidade de resgatarmos antigos valores esquecidos. E daí eu me pergunto: de que valores estamos falando exatamente?

Existe um pensamento que eu li na internet uma vez que diz que a geração de hoje é a geração que descarta tudo. Que joga fora em vez de consertar. Que os relacionamentos antigamente duravam porque as pessoas eram ensinadas a resolver os problemas conjugais, e que hoje em dia ninguém se suporta por muito tempo. Mas será que os casamentos duravam por que as pessoas de fato eram melhores e procuravam se entender, ou por que elas achavam normal aceitar absurdos de raízes machistas e patriarcais que hoje em dia muitas pessoas não toleram mais (e com toda a razão)?

A nossa sociedade atual tem realmente sérios problemas com o descarte. Temos muitos contatos no celular e pouco comprometimento. Em tempos de Whatsapp, as pessoas costumam ficar constrangidas quando alguém resolve ligar em vez de mandar uma mensagem. Isso não é estranho? Já não se pode nem mesmo criar a simples expectativa de que haja um encontro que foi marcado para o dia seguinte, porque o dia amanhece e a pessoa que marcou contigo toda empolgada na noite anterior inventa uma desculpa qualquer para não comparecer. E nunca mais fala contigo, e tá tudo bem (?). Afinal, todo mundo é muito ocupado em São Paulo. Fora que a região metropolitana tem 20 milhões de pessoas. Portanto, quem é você na fila do pão? Abre-se o Tinder e consegue-se 3 matches em 1 minuto. É complicado.

Mesmo assim, não somos piores do que as gerações anteriores. Pelo contrário. Somos muito mais bem informados, e a informação talvez seja o mais inestimável dos tesouros. O que falta mesmo é capacidade de interpretação e um pouco de bom senso ao processar a informação. Mas é ela que faz cair mitos idiotas que há algum tempo nos assombravam, e muitas vezes é a informação que inicia um processo dentro de nós que nos estimula a não mais tolerar situações que nos machucam.

Se nada trágico acontecer no nosso caminho, a gente vai ficar velho. A coluna vai entortar (mais do que ela já entorta com o uso do smartphone) e a pele vai enrugar. E a gente esperaria que, em troca de um corpo sadio, nos fosse dada a recompensa de sermos sábios incontestáveis. Porém não é o acontece exatamente. E por isso não é fácil admitirmos que um idoso não necessariamente se torna uma fonte de boa sabedoria. A gente precisa parar de romantizar sabedoria de gente mais velha, por mais bonito e cheio de significados que isso pareça ser para a humanidade.

Em termos de ensinamentos sobre a vida e principalmente sobre a moralidade, alguns idosos infelizmente não têm muito mais a nos oferecer além de (pré)conceitos e pensamentos de uma época que não merecemos viver novamente (mesmo que para fins de curiosidade, passatempo ou - mais ainda - de vivência do amor parental, o papo possa ser útil e divertido).

Não que fosse totalmente o caso da senhorinha do trem, coitada. E nem que seja o caso de muitos outros avós. Principalmente quando eles não se consideram fortalezas de verdades absolutas. Porque mudanças são necessárias, e ocorrem constantemente. E talvez a maior sabedoria seja entender isso, admitindo-se aprendiz até o fim da vida.

Postagens mais visitadas deste blog

Gonorreia

Ontem fizeram uma socialzinha aqui em casa, coisa de Marcia, sua amiga e seu namorado. Mamãe detestava esse entra-e-sai de gente na sala dela, bastou morrer para que minha irmã transformasse isso aqui num boteco de esquina. Não, não. Pensando bem, se mamãe ainda desse o ar de sua desgraça nesse mundo, talvez ela não se importasse com essa gente de Marcia pisando em seu tapete, afinal, diferente de mim, minha irmã sempre pôde fazer tudo nessa casa. A primeira a chegar foi Claudete, a amiga. Soube que era ela assim que eu desci as escadas, por causa do cheiro de cigarro misturado com aquele perfume horroroso de flores que ela usa, essas flores típicas de coroas fúnebres para homenagear os mortos. Rosas brancas, crisântemos, lírios. Veio me cumprimentar por obrigação como sempre faz, com o seu sorriso amarelado de nicotina e aquelas mãos geladas. Praticamente uma defunta, uma defunta defumada. Claudete não gosta de mim. Certa vez negou-me um cigarro por pura implic

Deixa eu dizer que te amo...

A vida oferece, a todo instante, momentos sutilmente encantadores para que possamos apreciar. Mas, às vezes, por falta de sensibilidade, pressa ou mesmo pura distração, nós não percebemos. Por sorte, quiseram as estrelas que no último dia dez de maio eu estivesse aguçado o suficiente para que não deixasse de reparar numa pequena graça em forma de coincidência. Foi o domingo de Dia das Mães, uma das poucas vezes em que estive longe da minha mãe nessa data. Era noite, e eu já havia conversado com ela pelo telefone e renovado as declarações do amor mais sincero que possuo. Ficou feliz com as flores que eu enviei para a sua casa. Quando eu vim para São Paulo, uma das minhas maiores angústias vinha da ideia de ficar longe da minha família. Porém, hoje eu até me sinto privilegiado por morar razoavelmente próximo de todos. O Rio de Janeiro é logo ali. Se não fossem tempos de pandemia, eu teria passado esse dia, mais uma vez, ao lado de dona Rose. Entretanto, eu me encontrava em minha casa naq

Quarentena

Da janela no nono andar, vejo as luzes da cidade brilhando cada vez mais. Anoitece em São Paulo e o frio de maio já começa a dar as caras. Disseram que a moléstia veio lá do Oriente; não se sabe se por meio de avião, navio ou vacilo. Pedem que eu não saia de casa, pois a tosse é traiçoeira e o agravamento tem como um dos pilares uma roleta russa medonha. Além do mais, eu não me perdoaria se ajudasse a enterrar idosos e crônicos. Evito. Sugerem que é a oportunidade de nos conhecermos melhor, isolados. Não deveria ser necessária uma pandemia para isso. Mas como o ser humano não é o ser mais trivial da Terra, as ocasiões vivem colocando em xeque a noção que temos de nós mesmos. Vale a sugestão. Estou me conhecendo sim, e, confesso, me reconhecendo insuportável às vezes. Olho-me através espelho e dou broncas sérias no reflexo. Dedo em riste (às vezes o médio). Faço as pazes comigo para depois me aborrecer novamente. Sou daqueles casais que muito brigam e nunca se separam. Mas

O menino que me pediu ajuda em matemática

Pode me ajudar com matemática, Renan?, foi assim que Cauê (nome fictício) veio até mim naquela manhã em sala de aula logo após descobrir que havia ficado em recuperação na disciplina. Cauê e eu não éramos próximos, mal havíamos nos falado durante os primeiros meses do sétimo ano, embora estudássemos na mesma turma. Tal fato, somado a uma abordagem tão educada, me fez entender que ele realmente estava interessado em melhorar a nota e, mais do que isso, ele acreditava que eu pudesse mesmo ajudá-lo. Era impossível dizer não. Passamos alguns dias juntos, lado a lado, eu explicando a matéria para Cauê nos intervalos das aulas e até mesmo um pouco depois do horário. Naturalmente fomos nos aproximando ao longo desse tempo. Entre funções lineares e figuras geométricas, Cauê e eu também conversávamos coisas de adolescente e, a bem da verdade, às vezes era mais isso do que matemática. E foi assim que o peso da obrigação moral de ajudá-lo cedeu lugar ao gosto d

O canto do galo

Levantar cedo nunca foi uma de minhas virtudes, embora seja uma obrigação que cumpro. Tenho apego ao travesseiro assim como um bebê perante a sua chupeta. Quase choro todas as manhãs por deixá-lo sozinho, longe do meu calor, esfriando ao longo do dia. O que me salva são os afazeres diários, impostos por uma sociedade que preza pelos primeiros raios de sol. Não me entendam mal: eu adoro as manhãs, e contemplá-las me deixa inspirado. Mas eu realmente sinto uma dificuldade crônica em aproveitá-las nos dias em que eu posso dormir até mais tarde. Em outras palavras, uma preguiça colossal. Não importa o quão cedo eu durma no dia anterior; levantar da cama na manhã seguinte é sempre tarefa difícil para mim. Todas as noites eu ativo o alarme do celular para me despertar quarenta e cinco minutos antes do horário real. E são esses quarenta e cinco minutos que me fazem ir aceitando, aos poucos, o fato de que preciso sair da cama e encarar a vida. Mesmo assim, e