Pular para o conteúdo principal

VIP


Esse mês eu fui informado pela Uber que eu me tornei temporariamente um passageiro VIP, por causa do aumento da minha nota e por ter utilizado o aplicativo determinado número de vezes no mês anterior. Isso significa que tenho direito a escolher os motoristas VIPs da plataforma, que são aqueles mais bem avaliados no aplicativo. Ou seja, muito chique (até parece).


Pedi o meu primeiro motorista VIP. Sua nota era 4.96. Comecei dando uma leve mancada que eu não costumo dar com motoristas da Uber. Eu estava na saída de um evento e tinham muitos carros chegando para buscar as pessoas. Com medo de ser assaltado, memorizei as características do veículo e a placa, e guardei o celular. Avistei um carro de longe e fui atrás achando que fosse o meu. Ao me aproximar, vi que o carro tinha placa diferente da selecionada para mim no aplicativo, e que o meu carro na verdade já estava aguardando próximo de onde eu estava antes. Tive que voltar.

Cheguei ao carro certo, acenei do lado de fora, me identifiquei, entrei e pedi desculpas ao motorista pela pequena demora, explicando o motivo. Com uma simpatia quase robótica, ele me respondeu: “Tudo bem, fique tranquilo, não precisa se chatear. Já vi coisa pior...”. Bom, meu pedido de desculpa foi sincero, mas eu não estava exatamente chateado. E eu creio que ele realmente já tenha visto coisa pior do que um passageiro fazê-lo esperar por no máximo 2 minutos.



A partir daí, ele começou a me contar casos de passageiros verdadeiramente ruins. E a dizer o que ele julgava como o certo e o errado na prestação de serviço como motorista, sobre os direitos e deveres dos passageiros etc. “Se acontecer isso, o passageiro tem que pagar”. “Se acontecer aquilo, eu vou agir assim e assado”. “Jamais uso palavras de baixo calão na conversa com o passageiro”. “É muito desagradável quando isso e aquilo acontece”. "É necessário perguntar as necessidades do passageiro". E falou sobre as mais diversas interações vividas entre ele e antigos passageiros.


Explicou ainda sobre os critérios de avaliação da Uber para ser tornar um motorista VIP (nota, experiência, muitos elogios - inclusive em outras línguas - etc) e a dedicação com a qual ele busca as cinco estrelas em todas as viagens. Suas explicações todas muito corretas, justas e coerentes, porém expostas de forma tão sistemática e tão desprovidas de carisma que logo foi me entediando ao longo do trajeto.

Eu não relaxei naquela viagem. Pouco me mexi, com receio de que algum movimento meu pudesse provocar algo que desagradasse ao motorista. Ao perceber que eu estava em silêncio, ele me avisou que havia balinhas na minha porta e tentou puxar mais assunto. Não desenvolvi. Ao final da corrida, ele me revelou o seu truque. “Sabe como eu faço para persuadir o passageiro a me dar nota cinco? Avaliando o passageiro com nota cinco na frente dele”. E então clicou nas cinco estrelas para mim. E se despediu formalmente.

Passou longe de ser umas das minhas melhores experiências com o aplicativo, apesar do motorista VIP com nota 4.96. Mas eu o avaliei depois com cinco estrelas, já que era importante para ele e a viagem correu de fato sem transtornos.

Mas aí eu me lembro de uma viagem de alguns dias antes da corrida VIP, quando eu ainda não estava como passageiro VIP e peguei um motorista com cerca de 4,7 de nota. Vou chamá-lo de Mateus para evitar expor o rapaz o mínimo que seja. Mateus me recebeu em seu carro com a cara não muito boa. Cumprimentou-me sem cerimônias. Não foi mal-educado, mas também não foi simpático. Confirmou o local de destino e iniciou a viagem.

Lembro que o carro de Mateus não estava muito limpo. Mas eu não costumo ligar para isso. Primeiro, porque o carro não é meu. Segundo, porque eu utilizo o serviço durante apenas um curto intervalo de tempo dentro das muitas horas diárias e semanais que esse motorista roda com o seu carro. E eu entendo o quanto pode ser trabalhoso e custoso manter, nessas condições, um carro limpo. Portanto, querer me deparar com carros sempre impecáveis seria de uma tremenda falta de empatia com os seus donos.

Mateus também não perguntou se eu queria que ele ligasse o ar condicionado. E também não perguntou se eu queria ouvir uma rádio específica. Não parecia estar muito interessado em me agradar. Continuou com os vidros abertos e ouvindo o seu rock clássico. Abriu a boca minutos depois para reclamar de um local onde foi buscar um passageiro anterior naquele mesmo dia. Era uma rua com muita areia e lama, e o passageiro entrou com o tênis sujo. Mesmo que a história tenha servido de justificativa parcial para o estado de higiene do carro, deu pra notar que esse não era o objetivo de Mateus. Ele apenas estava indignado com as condições de uma viagem anterior, e quem estava ali na hora para ouvi-lo reclamar era eu.

Em determinado momento, deparamo-nos com um trânsito intenso. Mateus soltou um “PQP” sussurrado. Mas, assim que alcançamos a primeira esquina após o início do trânsito, Mateus dobrou à direita, mudando o trajeto. Nessa hora, intervi. “Por aqui?”. “Fica tranquilo, conheço a região, vamos sair desse trânsito, tá com cara de acidente”, respondeu. O motorista não deve mudar o trajeto sem antes consultar o passageiro, mas, como eu havia dito anteriormente, Mateus não parecia interessado em me agradar.

Desconfiado, acompanhei por GPS o trajeto alternativo. Mateus tricotou pelas ruas, dirigia apressado, mas sem cometer infrações. Logo fiquei satisfeito por estar fugindo do trânsito. Ajudei Mateus a observar os vários cruzamentos e curvas pelos quais passamos naquele desvio. Pouco tempo depois, retornamos para a via principal onde estávamos, justamente logo após o que confirmamos ser um acidente. Três carros engavetados. “Não falei!?”. E sorriu pela primeira vez, triunfante. “Mandou bem!”, eu disse a ele. A atitude de Mateus de certa forma serviu para nos aproximar.

Mateus disse que tinha outro emprego, e que a Uber era só para completar renda, pois a sua filha estava para nascer. Confidenciou-me ainda que a mulher havia perdido o primeiro filho do casal, com 3 meses de gravidez. Eu percebia Mateus sorrindo ao me contar que dessa vez o sonho de ser pai estava se concretizando. Desejei uma boa hora para esposa e felicidades ao casal. Mateus agradeceu.

Paramos no semáforo. Um menino que vendia balinhas deixou um pacotinho delas em cima do retrovisor. “Vou comprar balinha porque tu é maneiro”, disse Mateus. Pegou o pacote, deu duas moedas de 1 real ao menino, ficou com a metade das balas e me deu a outra metade. Agradeci. Chegamos ao meu destino. Mateus finalizou a corrida. “Tá entregue, SENHOR Renan!”. Ele disse um “Senhor” comicamente debochado. E logo sorriu novamente e me desejou um sincero bom fim de semana.

Mateus me ofereceu, além do seu serviço como motorista, a sua verdade transparente, seja na forma de atitude ao desviar do trânsito, seja na partilha de uma dor e de uma alegria pessoais, materializadas em dois fetos, ou mesmo ainda nas balinhas compradas no sinal. Ele não tinha balinhas quando entrei no carro. Ele entendeu que era seu direito me julgar merecedor. Se, aos seus olhos, eu não tivesse sido "maneiro", não haveria balinha alguma. Mateus mostrou-se tão real e espontâneo que foi impossível não desenvolver simpatia por aquele sujeito.

Avaliei Mateus com cinco estrelas. E foram cinco estrelas dadas com muito mais gosto do que as cinco estrelas com as quais avaliei o motorista VIP. E eu sei que isso revela muito mais coisas sobre mim do que sobre os dois motoristas. Revela sobre a minha leve aversão aos processos e pessoas muito protocolares. Revela um pouco sobre as minhas ressalvas quanto ao “o certo é o certo, e o errado é o errado”. Nesse mundo tão complexo e com pessoas interagindo de formas tão complexas, acredito sim que algumas vezes o “certo” e o “errado” simplesmente se visitam, se combinam, se confundem e finalmente podem se inverter.

De acordo com os critérios objetivos do aplicativo, tão bem explicados para mim pelo motorista VIP, Mateus não merecia ser um VIP também. De fato, merecia coisa melhor.

Postagens mais visitadas deste blog

A procissão

Confesso que eu tinha grandes expectativas sexuais para aquele fim de tarde de sábado, embora o bom senso recomende não alimentá-las. Da janela do apartamento, eu podia ver uma São Paulo amarela do sol de outono. As janelas de outros prédios refletiam a luz solar em brilhos que excitavam a minha mente repleta de “más” intenções para as horas seguintes.
Um banho morno e demorado foi sucedido por um ritual caprichado de escolhas e autoprodução em frente ao espelho. A barba que ameaçava espetar foi vencida pelo aparador elétrico. O pouco de cabelo que ainda me resta da alopécia foi cuidadosamente posto em ordem por um gel fixador. Teve até espaço para um creme de rosto hidratante-multivitamínico-protetor-solar-pós-barba, que mais completo do que isso, só se fizesse o meu café—ou me devolvesse os fios de cabelos perdidos. Se eu fosse mulher, aquela certamente seria a hora do pôr um batonzinho; vermelho, talvez. Acho que eu seria dessas que usa batom vermelho de v…

O espirro nos tempos do corona

Fila do supermercado. Minha cesta de compras continha biscoitos, chocolates e refrigerantes  ̶̶  pouco adequada a um adulto que já cruzou os trinta, mas que me fez feliz. As pessoas aguardavam, cada uma, sobre uma fita adesiva que marcava o lugar no chão e que, juntas, garantiam a distância de pelo menos 1 metro e meio entre elas. Eu era o segundo da fila, sem considerar a cliente que já estava terminando de passar as compras no caixa.
Na minha frente, em primeiro, estava uma senhorinha magra, curvada, de cabelos curtos e totalmente brancos, integrante de longa data do grupo de risco da covid-19. (Não entendi por que ela não estava na fila preferencial.) Todos de máscara, sem exceção: do pessoal da limpeza aos operadores de caixa, da criança ao idoso. Não percebi São Paulo adormecendo tanto assim durante esses meses de quarentena, mas a máscara todo mundo aprendeu a usar. Por decreto.
Todos menos eu, admito. Todas as minhas máscaras vão caindo enquanto eu falo. Duas frases e já vai apar…

Piracema

Quando fui a Bonito (MS) com o meu amigo Samuel, eu não imaginava que, dentre as atividades que faríamos, a de que eu mais fosse gostar seria a experiência de flutuar no Rio Sucuri. Talvez eu apostasse no roteiro de trilhas ou na famosa visita à Gruta do Lago Azul, cartão postal do Mato Grosso do Sul. São todos passeios incríveis, pois Bonito oferece uma natureza tão espetacular e exótica que chega a parecer irreal para cidadãos residentes em cidade grande. É como se tudo aquilo fosse de mentira; uma realidade virtual. Mas foi no Rio Sucuri que eu me vi mais cercado de poesia.
(Evitei de perguntar o porquê do nome do rio, temendo a resposta. É provável que o guia turístico tenha explicado e eu não tenha prestado atenção. Algumas vezes a gente apenas respira fundo e entrega a Deus.)
Bonito não decepciona. Tampouco o Rio Sucuri. Suas águas cristalinas são as águas de rio mais lindas que vi até hoje. Elas deixam que o fundo do rio exponha toda a sua beleza para o visitante que, sempre admi…

Deixa eu dizer que te amo...

A vida oferece, a todo instante, momentos sutilmente encantadores para que possamos apreciar. Mas, às vezes, por falta de sensibilidade, pressa ou mesmo pura distração, nós não percebemos. Por sorte, quiseram as estrelas que no último dia dez de maio eu estivesse aguçado o suficiente para que não deixasse de reparar numa pequena graça em forma de coincidência.
Foi o domingo de Dia das Mães, uma das poucas vezes em que estive longe da minha mãe nessa data. Era noite, e eu já havia conversado com ela pelo telefone e renovado as declarações do amor mais sincero que possuo. Ficou feliz com as flores que eu enviei para a sua casa. Quando eu vim para São Paulo, uma das minhas maiores angústias vinha da ideia de ficar longe da minha família. Porém, hoje eu até me sinto privilegiado por morar razoavelmente próximo de todos. O Rio de Janeiro é logo ali. Se não fossem tempos de pandemia, eu teria passado esse dia, mais uma vez, ao lado de dona Rose.
Entretanto, eu me encontrava em minha casa naqu…

Quarentena

Da janela no nono andar, vejo as luzes da cidade brilhando cada vez mais. Anoitece em São Paulo e o frio de maio já começa a dar as caras. Disseram que a moléstia veio lá do Oriente; não se sabe se por meio de avião, navio ou vacilo. Pedem que eu não saia de casa, pois a tosse é traiçoeira e o agravamento tem como um dos pilares uma roleta russa medonha. Além do mais, eu não me perdoaria se ajudasse a enterrar idosos e crônicos. Evito.

Sugerem que é a oportunidade de nos conhecermos melhor, isolados. Não deveria ser necessária uma pandemia para isso. Mas como o ser humano não é o ser mais trivial da Terra, as ocasiões vivem colocando em xeque a noção que temos de nós mesmos. Vale a sugestão. Estou me conhecendo sim, e, confesso, me reconhecendo insuportável às vezes. Olho-me através espelho e dou broncas sérias no reflexo. Dedo em riste (às vezes o médio). Faço as pazes comigo para depois me aborrecer novamente. Sou daqueles casais que muito brigam e nunca se separam. Mas não poderia…