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Cappuccino

Xícara branca de cappuccino com desenho na superfície

Gosto de muitas coisas em São Paulo. Entre elas, as belas tardes frias de sol que a cidade proporciona aos seus habitantes em muitos dias ao longo do ano. Aquele sol que, a despeito do céu azulado, não aquece o suficiente. O resultado de um dia de fim de semana assim é ver pessoas aos montes passeando nos parques em trajes elegantes, mesmo que, eventualmente, elas acabem rolando na grama com seus cachorros, crianças e outros amores, envolvidas por uma atmosfera alegre e laranja.

Foi num dia de domingo exatamente como esse que eu me encontrei, certa vez, sentado numa das inúmeras cafeterias da capital. Voltando de um passeio preguiçoso e solitário, não resisti ao charme do lugar. Entrei e logo procurei um lugar ao sol, na varanda. O espaço interno do estabelecimento era bonito e muito bem decorado, mas seria desperdício não estar do lado de fora contemplando um pouco mais aquela tarde, que logo se despediria. Olhei o menu somente por hábito, pois eu já sabia o que queria. Cappuccino. O maior, mais quente e cremoso cappuccino que pudessem me oferecer.

Não demorou muito para que o meu pedido chegasse. Sustentado por uma xícara grande que ostentava um belo monograma, o meu desejado café com leite encontrava-se provocante debaixo de camadas de chantilly, espuma e canela. E para o derradeiro deleite, um anel de chocolate fazia-se presente na borda da xícara. Eu consigo fantasiar o momento em que a xícara foi lentamente lambuzada de chocolate com uma pequena espátula, num ápice de erotismo gourmet. Naquele instante, não havia nada mais que combinasse com aquela tarde do que aquele cappuccino posto à mesa.

Mas nem todos pareciam estar satisfeitos naquele lugar. Em outra mesa, uma moça e um rapaz olhavam-se com semblantes sérios. Chamarei a moça de Letícia, pois acho que o nome combina com ela. Letícia tinha à sua frente também um cappucino, idêntico ao meu. Supus que eles fossem um casal pelo o que pude observar a partir do momento em que atentei neles. Talvez eu observe as pessoas com mais frequência do que elas possam imaginar. E os dois estavam perto o suficiente para que eu pudesse reparar nos detalhes daquela interação, mas também longe o suficiente para que eu não conseguisse ouvir o que diziam. E era melhor que fosse assim.

O rapaz segurava a mão de Letícia por cima da mesa enquanto falava algo que parecia entristecê-la profundamente. Ela tinha a outra mão ao lado da cabeça e o cotovelo apoiado na mesa, e ouvia atentamente o que ele dizia, mantendo a testa franzida, os olhos marejados e a boca apertada como se estivesse segurando um grito de desespero. Aquele olhar me chamou atenção de tal maneira que eu tive que tomar muito cuidado para não me tornar inconveniente. Letícia tinha na face uma expressão tão desolada que eu não duvidaria se as melhores atrizes do cinema julgassem-se inaptas a reproduzi-la.

Por várias vezes durante aquele longo monólogo, o rapaz balançou lentamente a cabeça em sinal de negação, como que para enfatizar da forma mais doce possível aquilo que parecia ser um pedido de desculpas por estarem tendo aquela conversa. Mas o que seriam esses "nãos"? Talvez ele tivesse aprontado alguma e pedisse perdão, ou talvez ele estivesse terminando o relacionamento com ela. Não era possível afirmar até ali.

O suposto término só se tornou a opção mais plausível para mim quando o rapaz tirou suas mãos sobre as mãos de Letícia e, arrastando-as sobre a mesa, tentou trazê-las de volta para si. Imediatamente, Letícia tentou buscar as mãos dele novamente, já com as lágrimas evidentes em seu rosto. Mas dessa vez  ele negou-lhe o gesto. Permaneceram calados durante alguns minutos. Letícia olhava fixamente para ele, que, constrangido, terminava de comer uma torta. Quando terminou, ele ainda permaneceu um tempo olhando para Letícia, em silêncio, como que para se certificar de que ela ficaria bem. Por fim, deixou uma quantia sobre a mesa, despediu-se e saiu.

Após ter sido deixada na cafeteria, Letícia levou as mãos à face, e a abaixou. Chorava. Quando tirou as mãos, Letícia pela primeira vez pareceu preocupada em estar sendo observada pelas pessoas das outras mesas. Olhou ao redor enxugando as lágrimas com a manga da blusa de frio. Nesse momento, tive que disfarçar. Notei que outras pessoas disfarçaram também. Eu estava triste por ela. Deveria ser proibido terminar o relacionamento com alguém numa tarde de domingo tão bonita como aquela, num lugar tão charmoso como aquele e diante de um cappuccino que certamente estava tão gostoso quanto o meu.

Após acalmar-se, Letícia esticou as mangas da blusa para cobrir também as mãos. O frio aumentava. Colocou dessa vez ambos os cotovelos sobre a mesa e entrelaçou as mãos, fazendo-as de base para apoiar a cabeça. Estava posicionada de forma que os últimos raios de sol iluminassem o seu rosto pálido. E assim permaneceu, parada, de olhos fechados, como se estivesse alimentando-se daquela luz terminal. Pude então notar certa serenidade em sua expressão repousada, os lábios entreabertos, quase que em meditação, num incrível contraste com os minutos anteriores. E foi assim que percebi que a atmosfera daquela bela tarde naquela cafeteria, na verdade, era perfeita também para aquela ocasião.

Letícia então abriu os olhos, lembrou-se da xícara e tomou o que restava de cappuccino, mesmo que a essa altura a bebida provavelmente estivesse fria. Segurou depois a xícara com as duas mãos e olhou para os fundos dela, como se tentasse, em vão, ver o seu futuro em borra de café. E foi aí que ela me surpreendeu de vez. A sua xícara ainda contava com a borda de chocolate. Letícia não pensou muito antes de passar o dedo ao longo de toda a borda e levá-lo à boca. E repetiu o movimento, até que não sobrasse mais chocolate.

Talvez outra pessoa não tivesse estômago para continuar degustando um cappuccino que fora interrompido por uma decepção amorosa. Algumas situações desnorteiam completamente a gente. Algumas pessoas demorariam muito tempo até retomarem a calma. Talvez esquecessem de pagar a conta. Talvez esquecessem até de onde estavam e do que as cercavam. Mas não aquela moça. Letícia enxugou as lágrimas rapidamente, contemplou os últimos minutos de sol e ainda consumiu o chocolate até que não deixasse rastro. Mantinha-se ávida por prazeres, por mais difícil que tivesse sido aquela tarde. Letícia talvez não soubesse, mas naquele momento ela já tinha dado o primeiro passo rumo à superação. Ela ficaria bem.

Olhei para o meu cappuccino, também já quase no fim. A exemplo de Letícia, passei o dedo no chocolate e lambi. E lembrei que a vida é assim mesmo. Faltam algumas coisas. E perde-se muitas também. Mas sempre há sol. E às vezes também cappuccino. E cappuccino com borda chocolate ainda por cima. Não pode haver desilusão que estrague o meu sol e o meu café.

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