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Penitência

                                       

Eu nasci em uma família cristã católica e, portanto, tive acesso a todas as tradições, costumes e eventos inerentes a uma vida devota. Participei de batizados, casamentos, novenas, festa de pentecostes, via sacra. Já fui responsável pelo som da igreja e já carreguei as imagens de Cristo e de Nossa Senhora em meus ombros nas procissões. Fiz coro aos mais belos cantos, junto de pessoas humildes que apenas agradeciam as bênçãos da vida ou que ainda buscavam a cura, o perdão e o consolo.

Daquela época de participação ativa na comunidade cristã, restou-me o profundo respeito pela igreja enquanto arquitetura e lugar de contemplação. E isso se reflete no meu hábito de visitá-las aonde quer que eu vá. Não existe um lugar sequer para onde eu tenha viajado em que eu não tenha entrado em pelo menos uma igreja católica local. Subo as escadarias, paro em frente ao enorme par simétrico de portas de madeira centenárias, e olho para o alto a fim de me dar conta de como eu sou pequeno. Caminho a passos lentos por todo o interior da igreja, admirando as obras de arte, pinturas, quadros, imagens, e deixando-me levar pela música que eventualmente toca baixinho. Por fim, sento em um banco e fico em estado de contemplação por alguns minutos, mesmo que não necessariamente em oração.

Quando eu visitei a Catedral de Petrópolis (RJ) pela primeira vez há alguns anos, o ritual que segui e a sensação não foram diferentes. Andei devagar por todo o interior da igreja, observando os detalhes de sua arte e, aos poucos, inebriando-me de paz. Uma das coisas mais fantásticas que eu considero nas igrejas são os vitrais e seus desenhos que, ao deixarem passar a luz do sol, iluminam parte do piso da igreja em cores que revelam, entre os feixes, a poeira suspensa e sagrada do local. Mesmo que muita coisa tenha mudado em mim, seria um grande equívoco afirmar que Deus não está presente num lugar como esse.

Entretanto, o que mais me chama a atenção na Catedral de Petrópolis são os seus confessionários. Existem alguns lá dentro. Todos feitos de madeira escura, da qual ignoro o nome, mas que combina com a arquitetura gótica do templo. São confessionários imponentes e de certa forma assustadores, cujas laterais contêm pequenos apoios de madeira para ajoelhar e assim colocar o pecador diante da antepara com furos que o separa do sacerdote. Ao lembrar-me dos confessionários, logo me vêm também à memória as duas vezes em que me confessei com padres durante a minha vida cristã.

A primeira vez foi na catequese, aos doze anos de idade, como pré-requisito para que eu recebesse a Primeira Comunhão. Minha confissão aconteceu no retiro final de preparação para o sacramento. Foram três dias de retiro em um sítio isolado da cidade. No último dia, o padre chegou para ouvir as confissões. Eu estava tenso, pois conhecia histórias de penitências severas (provavelmente mentirosas)  aplicadas por padres, e fiquei transtornado ao ver que o dia da minha confissão havia chegado. Mesmo com pecadinhos pífios de criança, o meu nervosismo aumentou quando me contaram que não haveria confessionário e que, portanto, a confissão seria cara a cara com o pároco.

O padre sentou-se numa cadeira posta sobre um chão de terra batida, afastado dos catequistas e das crianças, em meio às árvores e envolvido pelo som dos pássaros. Creio que a ambientação era para ser propositalmente serena. As crianças foram sendo chamadas pelos catequistas uma de cada vez, em ordem alfabética, e convidadas a irem conversar com o padre. Eu, carregando o "R" como inicial do meu nome, tive que ver os meus amiguinhos, um por um, indo em direção ao limbo, enquanto experimentava um sofrimento que parecia não ter fim. Até que chegou a minha vez.

Caminhei tímido pelo chão de terra até o padre. Ao lado dele, e virada para ele, havia outra cadeira para que a criança se sentasse. Eu gostei da disposição das cadeiras, porque dessa maneira eu estava sentado de frente para ele, mas ele não estava de frente para mim. Ele me via através da sua visão periférica. Não havia um confessionário de madeira ali, mas estávamos dispostos como se estivéssemos em um. O padre estava sentado na posição mais humilde que eu poderia descrever. A cabeça baixa, curvando um pouco a coluna, as mãos entrelaçadas sobre os joelhos ligeiramente afastados e o olhar doce de quem está disposto a ouvir e interceder pelo perdão das maiores barbaridades. Aquele homem parecia o próprio Cristo.

Sem olhar diretamente para mim e com muita doçura nas palavras, o padre perguntou: “Renan, você quer me dizer alguma coisa?”. O pecado que eu lembrava na época era um só. “Eu, às vezes, não gosto de obedecer aos meus pais”. Ora, não era um pecado que valesse a pena contar! Hoje eu vejo que pecado foi ter sido a criança boba que eu era. Não havia nenhuma malcriação, nenhuma briga com outras crianças, nenhum bicho de estimação maltratado, nenhuma fugida de casa. Nada disso. O meu maior pecado era às vezes não gostar de obedecer aos meus pais. Sendo que não gostar não significa não obedecer. Na maioria das vezes eu obedecia; puto, mas obedecia. E o bom padre me isentou de penitência.

Minha segunda confissão com padre aconteceu quando eu tinha dezesseis anos, dessa vez como pré-requisito para receber o sacramento do Crisma. Não aconteceu em retiro de sítio, como a primeira. Foi na própria igreja, com um padre diferente e também sem o tal confessionário. Chamaram o meu nome, e eu fui ao encontro do padre em sua salinha. Ele me recebeu como um psicoterapeuta. O cotovelo apoiado no braço da cadeira, o dedo indicador na testa e as pernas cruzadas. O olhar do padre dessa vez era mais altivo e intimidador.

Mesmo assim, dessa vez eu não estava nervoso; apenas um pouco envergonhado, pois o meu pecado do momento tinha cunho sexual. Ao confessar-me, pensei logo que eu seria severamente repreendido. Mas na verdade o sacerdote foi maravilhoso. De forma sensata e inesperadamente moderna, ele disse que aquilo tudo era normal na minha idade. Apenas recomendou que eu tomasse cuidado para não deixar de fazer coisas mais importantes por conta de distrações sexuais. Como penitência, pediu para eu rezar três Pai Nossos e três Ave Marias.

Dirigi-me logo em seguida à sacristia para pagar a penitência diante do Cristo ostentado em hóstia. Levei um terço fosforescente que ganhei de presente da minha mãe para reforçar minha penitência, mesmo que eu não precisasse rezar ele todo. Apertava bem a conta de cada oração, quase arrancando as bolinhas. Ao sair dali, já  supostamente livre do pecado, cruzei com um colega crismando que me revelou que o padre havia pedido para ele rezar dez Pai Nossos e dez Ave Marias. Não respondi nada e ainda tive que colocar a mão na testa para cobrir o rosto e disfarçar a sorriso. Nunca vou saber o que aquele menino aprontou.

Mas eu não posso debochar do meu antigo colega. Afinal, qual seria a penitência para os meus pecados atuais? Quantos Pai Nossos e quantas Ave Marias me seriam indicadas para oração? Não sei, e não me importa saber. Estar numa igreja hoje em dia para mim é quase como estar na presença de uma avó. É uma figura de autoridade e ao mesmo tempo de extremo afeto, que me conta histórias anteriores à minha existência e me oferece aconchego. É como se toda aquela arte em concreto santificado me fosse familiar. Eu me sinto seguro e amado dentro de uma igreja.

Entretanto, sabemos que nem tudo o que uma avó cristã clássica nos diz é plausível de ser levado como ensinamento. Provavelmente ela reproduz pensamentos e até mesmo preconceitos de uma época que vão contra ao que nossa sociedade atual realmente precisa. Dizem por aí que a gente possui duas orelhas e uma boca para ouvir mais e falar menos. Eu faço um ajuste nessa ideia, mesmo que ela não se adeque bem ao correto funcionamento do corpo humano. Eu diria que temos duas orelhas para que com uma possamos ouvir, e pela outra joguemos fora tudo o que foi ouvido e que não nos cabe. E a boca, essa sim, que fale pouco. 

Não há conflito de convicções que supere o carinho e a ternura de uma avó, e todo o acalento que sua casa oferece. Posto-me humilde diante de sua imagem senil e me deixo ser abençoado por ela que, carregando o seu crucifixo velho, só deseja o meu bem, ainda que não entenda nada sobre o que é verdadeiramente bom para mim e para muitas outras pessoas. Abro a boca somente para aproveitar o bolo e o suco que ela me oferece, preparados com afeto, e para revelar-lhe o meu amor. Uma avó é um templo santo, digna de honra, de respeito, do pão e do vinho consagrados, mas com a qual eu não preciso comungar ideias e nem atitudes.

No último passeio a Petrópolis que fiz, entrei novamente na Catedral e observei mais uma vez um dos confessionários. Fiquei alguns segundos de pé, parado, até que não resisti e me ajoelhei ao lado dele. Olhei pelos furos da antepara e, naquele horário, não havia ali dentro sacerdote disponível para salvar almas. Mesmo assim, fechei os olhos e me imaginei numa nova confissão, quase que numa brincadeira. Mas a brincadeira tomou ares de reflexão, e não demorou muito para que eu me desse conta de que aquilo não mais fazia sentido para mim. Já faz algum tempo que desconsiderei algumas verdades escritas, que deixei de estar sob costumes arcaicos e que desvencilhei-me de dogmas. Caso hoje eu seja um grande pecador aos olhos católicos, não existe a menor vontade de reconhecer alguns dos meus supostos pecados. Mais do que isso; não há necessidade.

Saí da Catedral de Petrópolis, assim como hoje saio de qualquer outra igreja, carregando numa mão os Pai Nossos que devo, e na outra as Ave Marias. Parece um fardo, mas o peso das orações não me dói nos punhos. Despeço-me lentamente de minha penitência, largando no chão os Pai Nossos e as Ave Marias enquanto sigo em frente. Como na história de João e Maria, deixo para trás migalhas de orações, na esperança de que eu consiga retornar caso eu me sinta perdido pelo caminho. Mas eu bem sei que os pássaros se encarregarão de comer muitas migalhas e que o vento espalhará outras tantas. Não há volta. E nem deveria haver. Algumas pontes precisam ser destruídas ao longo da jornada de autoconhecimento.

Com o tempo, os padres, os catequistas, as avós beatas, todos eles passam. A terra cuida de engolir tanto os bons quanto os maus, enquanto o vento cuida de dispersar a culpa e a necessidade de penitência para muitas coisas que deveriam ser melhor encaradas. Fica o maior ensinamento de Cristo, aquele sobre amar-nos uns aos outros incondicionalmente, e o desafio imenso de colocá-lo em prática. É um desafio tão grande que supera em muito o homem e suas atitudes, sejam elas tidas como nobres ou baixas. Assim, nesse contexto, praticamente igualam-se o justo e o perverso. E o mais curioso é observar que, muitas vezes, o primeiro torna-se o segundo.

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