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Fantasia


Conheço a Marcela "de outros Carnavais", como dizem por aí. Mas foi no último baile à fantasia, em que eu estava acompanhado dos meus amigos atuais, que me lembrei novamente dela, depois de tanto tempo do nosso breve encontro na vida. Éramos dois estudantes em 2005, e nos conhecemos em um projeto de estudos para vestibulandos da área de exatas que se reuniam à tarde com o objetivo de resolver questões de provas de vestibulares anteriores. Os encontros estavam previstos para durarem apenas duas semanas.

Sentei-me ao lado dela no primeiro dia de grupo. Assim como eu, Marcela estava deslocada dos demais e parecia não conhecer ninguém. Não notou a minha aproximação, mesmo com o barulho vergonhoso que fiz quando apliquei uma força mal dimensionada em minha mochila, que colidiu brutalmente com as costas da cadeira onde eu escolhi sentar. Permaneceu atenta numa folha de papel rabiscada com números e equações.

O monitor da turma se apossou do quadro negro e começou a corrigir a questão proposta. Foi Marcela quem primeiro me dirigiu a palavra, ao perguntar se eu tinha resolvido a questão daquela maneira. Eu disse que não, mas que o resultado que obtive havia sido o mesmo. Marcela também havia resolvido da mesma forma que eu e chegado ao mesmo resultado, mas não pareceu satisfeita. Voltou a olhar para os rabiscos, franzindo a testa e não falando mais comigo naquele momento. Mesmo assim, essa rápida interação inicial serviu para quebrar o gelo e, a partir daí, passamos a conversar mais.

Marcela queria cursar engenharia, assim como eu. Estava em dúvida entre Química ou Produção, se não me engano. Faria todos os vestibulares do Rio de Janeiro e mantinha uma pasta volumosa contendo dúzias de papéis, com todas as informações sobre cursos, editais, datas, além de apostilas e inúmeras provas antigas rabiscadas com canetas de tudo quanto era cor. Tinha uma lista de prioridades das universidades nas quais gostaria de entrar, e procurava atender às especificidades de cada uma, numa época em que o vestibular ainda não era unificado.

Marcela era séria, introspectiva, com movimentos lentos e o olhar sempre repousado em algo, concentrando-se em uma coisa de cada vez. Era o oposto de mim, garoto acostumado a dar risadinhas em sala de aula, estabanado e que tentava, em vão, ser multitarefa. Além disso, Marcela parecia blindada ao humor. Enquanto todos riam de alguma eventual piada que surgia, Marcela permanecia calada. Não achava graça de nada. Não sorria nunca. Quando percebia que o grupo se distraía, mesmo durante pouquíssimos minutos, ela se voltava para a sua pasta e ficava, sozinha, lendo ou refletindo sobre suas anotações. Não se permita relaxar por um segundo sequer junto ao grupo, ainda que soubesse que os demais integrantes eram estudantes igualmente comprometidos.

Eu era a pessoa com quem ela mais conversava, talvez por ter sido o primeiro com quem ela tivesse se arriscado. Acredito que seria um desgaste muito grande para ela ter que interagir com outras pessoas do mesmo jeito que interagia comigo. De alguma forma, eu fazia a ponte entre ela e o grupo, e talvez isso bastasse para ela. Marcela não estava ali para fazer amigos; seu único objetivo naquelas duas semanas era se preparar para as provas que estavam por vir. Mesmo assim, ela me irritava às vezes. Era uma criatura desprovida de cor e brilho. Fisicamente pálida; fria no trato. Beirava o indigesto. Soava grosseira muitas vezes quando discutíamos problemas de matemática e física. Eu fazia esforço para entender que aquele comportamento era muito mais uma preocupação com a qualidade de sua preparação do que algum real problema comigo.

Estivemos longe de sentirmos interesse sexual um no outro. Nossa relação era estritamente simbiótica, como eu mesmo havia concluído, após ler sobre as diferentes formas de relações entre os seres vivos na apostila de Biologia. Mesmo assim, eu tentava lhe fazer graça, tentava de alguma maneira estabelecer certa leveza em nossa relação. Apelava para as piadas nerds. Quando estudamos juntos a Tabela Periódica, sugeri para ela que montar frases com os símbolos dos elementos químicos era a melhor forma de decorar as posições deles na tabela. Algumas frases são famosas entre os vestibulandos até hoje; outras eu mesmo tinha inventado. Ela não pareceu interessada. Mesmo assim, para a série dos Halogênios, eu disse que ela poderia usar "Fluminense (Fl) Clube (Cl) Brasileiro (Br) de Invictos (I) Atletas (At)". Detestou; ela era flamenguista. Alertei que funcionava com Flamengo também. Mas ela se calou; não reagiu. Parecia impossível arrancar dela algum sinal de descontração.

Não posso negar que Marcela, ao lidar comigo de forma sempre tão objetiva, ajudou a manter a minha concentração em níveis elevados durante aqueles dias, naquele grupo. Muitas dúvidas foram esclarecidas e muitos macetes para resolver questões foram aprendidos. Os encontros foram produtivos e eu me sentia, de fato, mais preparado. Até que aquele grupo de estudos terminou, e nós mal nos despedimos no último dia. Era como se fôssemos voltar na tarde seguinte. Era como se ainda fôssemos nos falar por telefone ou internet, discutindo novas questões. Mas não haveria mais nada disso. Não houve rito de despedida, não houve comemoração, não houve nada além de um "boa sorte" pouco afetuoso que recebi de alguém com quem estudei lado a lado ao longo daqueles dias, e que eu talvez nunca mais pudesse encontrar.

As semanas seguintes se sucederam com muitos estudos, dessa vez junto aos meus amigos no curso da manhã. Tive o privilégio de poder estudar sem precisar trabalhar. Chegava em casa na hora do almoço e, após o descanso da refeição, entrava em meu quarto e abria os livros e apostilas, estudando até o final da tarde. Era assim quase todos dos dias. Mas eu me permitia descansar em todos os finais de semana e me sentia à vontade para, de vez em quando, quebrar a rotina de estudos em dias úteis. Não me lembro de me sentir isolado do mundo durante a minha fase de vestibulando.

Os meses foram passando até que, num sábado, recebi o convite de um amigo para irmos a uma festa de Carnaval fora de época, que começaria no fim daquela tarde. Seria uma festa à fantasia. Eu não estava muito animado, pois eu não tinha a menor ideia do que eu poderia usar. Mas o insistente amigo não sossegou enquanto eu não topasse acompanhá-lo. Eu não tinha uma fantasia e não tinha criatividade para esse tipo de coisa. Por sorte, encontrei um colar havaiano amassado no fundo do meu guarda-roupa, que eu já havia usado numa outra festa. Separei uma camisa estampada, uma sandália confortável, um boné e resolvi repetir uma sem graça fantasia de turista. Era o máximo que eu poderia fazer em tão pouco tempo.

Cheguei à festa com o meu amigo, e de cara me arrependi. O lugar era estranho, a música estava desinteressante, e eu pude notar tribos de jovens espalhados pelos cantos que não conversavam entre si. Além do mais, naquela época, eu ainda não era muito fã de baladinhas (percebam o "ainda") e costumava não ter muita afinidade com aqueles gostavam. Mesmo assim resolvi encarar aquilo, afinal eu não queria fazer desfeita ao meu amigo, e eu merecia ao menos tentar me divertir.

Felizmente, não demorou muito para que aquela festa tomasse um rumo muito mais interessante. No meio daquela gente que começava a se misturar, avistei uma menina fantasiada de fada. Era uma fada completa, com um vestido azul claro cintilante, um par de sapatilhas, uma tiara, asas brancas e, na mão, uma varinha de condão com uma estrela na ponta. Eu não podia acreditar; era Marcela! Tive vontade de rir, pois aquilo tudo, o ambiente, as pessoas, e aquela fantasia definitivamente não combinavam com ela.

Mas tive que controlar o deboche, pois logo Marcela me avistou também. E eu jamais poderia imaginar que ela pudesse ter a reação que teve ao me ver. Correu até mim com uma empolgação que eu não tinha visto durante aquelas tardes de estudo, e me cumprimentou com um abraço e um beijo no rosto que me deixaram perplexo. Olhei para ela duvidando de que pudesse ser ela mesma. Mas era. Inclusive elogiou a minha fantasia após deslizar a mão ao longo do meu colar havaiano. Achei estranho.

Um novo DJ assumiu o comando das músicas, e eu descobri que a festa havia começado naquele instante. As luzes contínuas foram apagadas e os spots de luzes coloridas se evidenciaram no ambiente. Marcela juntou-se às amigas, mas ainda permaneceu por perto. Foi a primeira das amigas a começar a dançar. Eu cheguei a pensar que ela pudesse ter tomado alguma coisa antes daquela matinê e que talvez estivesse levemente embriagada. Mas logo eu me dei conta de que ela tinha apenas 17 anos e beber ainda não me parecia algo que lhe convinha. Ainda assim, fui surpreendido por movimentos rítmicos dos quais achei que ela não fosse capaz.

E a música foi crescendo de tal maneira em sua alma que, em dado momento, as coisas se inverteram e Marcela não mais dançava; tornava-se a regente daquela festa. Tomou para si a responsabilidade absoluta de cada melodia, de cada partitura, de cada instrumento. Seus movimentos ora suaves ora abruptos orquestravam o que aquela gente ouvia no salão. O bater de suas asas de fada modulava a música. Sacudia o vestido encantado nas pernas, e dele jorravam notas musicais em suas representações gráficas que, por serem mais leves que o ar, ascendiam e turbilhavam em som, e eram levados por correntes de ar difusas e agitadas que envolviam o público, tal qual o céu estrelado de Van Gogh.

Parecia que a gravidade se rendia à Marcela e, com humildade, despia-se de sua fama de lei física implacável ao abrir exceção para os movimentos quase flutuantes daquela menina. Não havia timidez, não havia influência externa que pudesse neutralizar aquilo que ela parecia sentir. Marcela girava em torno do próprio eixo, e olhava para tudo e ao mesmo tempo para nada. Estava em perfeita ressonância com o ambiente, com a fantasia e consigo mesma. Oferecia o seu sorriso mais bonito, e encantava as pessoas ao redor ao interagir com elas entre toques e coros.

E assim a multidão abria espaço para Marcela, e muitos olhavam admirados para ela, ofuscados pelo espetáculo da fada, que pulava e movimentava a mãos com a varinha como se ordenasse um feitiço atrás do outro. Até que o DJ parou a música e eu pude observá-la em repouso depois de muito tempo ziguezagueando o meu olhar para tentar acompanhá-la. Marcela parou e abriu os braços em toda a sua amplitude, inclinando a cabeça para o alto como se estivesse recarregando-se de energia para a próxima sequência de hits. Mas não; era mais provável que estivesse ela oferecendo algo ao universo. Abriu a boca em estado de puro deleite, no ápice de seu êxtase, e eu não duvidava de que o brilho de sua fantasia era alimentado pela energia poderosa que emanava dela.

Marcela acordou do transe assim que o DJ recomeçou. Mas antes que retornasse à dança, a fada olhou diretamente para mim e apontou a varinha em minha direção como se fosse a minha vez de ser enfeitiçado. Caminhou até mim com a varinha apontada e lançando um sorriso de purpurina que se revelava entre as piscadas das luzes estroboscópicas, enquanto se entregava em remelexos à introdução vagarosa daquela música.

Ao aproximar-se, perguntei o que a fazia sorrir. Achou graça da minha curiosidade, tocou-me nos ombros, repousou sua face vermelha e suada na minha barba escassa adolescente, e confidenciou-me em pé de ouvido o motivo de todo aquele espetáculo solo. A resposta veio num sussuro que, de tanto significado e regozijo que carregava, pareceu ecoar pelo ambiente e ter sido ouvido por todos. Tudo aquilo, o fato de ter ido à festa, a fantasia, a dança, eram não menos do que o transbordar da imensa alegria que havia tomado conta de sua alma por um motivo do qual eu já deveria ter desconfiado, e que me fez sorrir junto com ela.

Marcela havia sido aprovada no vestibular.

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