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Sapatos


Essa é uma história sobre sapatos. Há uns 3 ou 4 anos, quando eu já morava em São Paulo, acordei em uma bela manhã de sábado (na verdade eu não lembro se era realmente uma manhã bela - e nem se era sábado) e constatei que eu precisava comprar sapatos novos para mim. Eu iria sair naquela noite, e os pares que eu tinha já estavam meio surrados. Eu não queria comprar um tênis, nem queria que fosse um sapato social, mas sim um sapato intermediário, que me deixasse bem arrumado, adequado a um estilo mais casual-moderninho, sem exageros.

Cheguei à loja e fui abordado por um exemplo de vendedora: uma pessoa que me recebeu simpática, me perguntou em que ela poderia me ajudar, mas que me deixou circular pela loja, afastando-se de mim para que eu ficasse à vontade. Eu nunca lidei bem com vendedores que me apresentam os produtos, por mais que eu entenda que alguma lojas os orientem assim. Tem o efeito contrário comigo: fico querendo fugir do lugar o quanto antes. Mas não foi o que aconteceu. E assim, sem a presença de um vendedor insistente me sugerindo dezenas de peças desinteressantes, caminhei livre e sem pressa pelas vitrines em busca de um par que me fizesse feliz.

Não demorou muito para que eu avistasse, numa vitrine um pouco distante de onde eu estava, o sapato perfeito. Aproximei-me do par e parecia que ele brilhava somente para mim. Era como se não houvesse mais outros sapatos em volta. E tenho certeza de que, naquele instante, os meus olhos também brilhavam somente para ele. Olhei atento cada detalhe daquela maravilha, e depois chamei a vendedora. Perguntei a ela quanto custava. Preço bom para um produto de que eu havia gostado tanto. Perguntei se tinha número 42. Felizmente sim. A vendedora me trouxe o par e eu experimentei. De início o sapato calçou um pouco desconfortável, mas a gente sabe que eles cedem com o uso. O importante era ter aquela beleza sustentando o meu corpo. Olhei os meus pés através do espelho e constatei que, de fato, não havia a menor possibilidade de que aquele par não fosse meu.

Eu já estava seguindo a vendedora até o caixa para efetuarmos a compra quando ela, repentinamente, virou-se para mim e lembrou-se que, se eu dispusesse de uma pequena quantia a mais, eu poderia levar outro par de outro sapato. Tratava-se de uma promoção da loja que valia especificamente para alguns pares. Era o meu dia de sorte. O sapato pelo qual eu havia me apaixonado me dava direito a adquirir mais um par, por uma quantia extra irrisória. Pedi que ela me mostrasse quais eram os pares pelos quais eu poderia optar, e na verdade descobri que naquele momento só havia uma opção.

Quando a vendedora me mostrou o segundo par, eu desanimei. Eu achei que ele tivesse um estilo ao menos parecido com o outro. Mas não. Não tinha absolutamente nada a ver com o sapato que eu estava levando. Era feio, esquisito. Um sapato que, creio eu, os meus falecidos avôs usariam ao jogarem baralho na praça numa monótona tarde de domingo. Vou chamar aqui de "sapato A" o sapato maravilhoso e de "sapato B" essa outra coisa. Enquanto o sapato A me fazia acreditar que, mesmo enganado, eu possuía algum requinte, o sapato B parecia não combinar com nada. Misturava linhas e cores suspeitas numa espécie de xadrez que não me soava nem ao menos vintage ou cool, mas sim cafona mesmo.

Mesmo assim, julguei que valeria a pena adquirir a peça por aquele valor a mais tão baixo. Afinal, eu poderia usá-lo para ir ao mercado, à farmácia etc, ou seja, locais do dia-a-dia aos quais a gente vai porque precisa ir, sem a intenção de se encontrar com alguém ou de ficar muito tempo. E mesmo assim, pensei que eu pudesse sentir vergonha ao sair de casa com aquele sapato. E foi por isso que eu deixei o sapato B num cantinho que eu costumava não acessar no local do guarda-roupa onde eu guardava os calçados. Enquanto isso, o sapato A ganhou o lugar mais privilegiado. Eu parecia o Andy ganhando o Buzz Lightyear de presente de aniversário no primeiro "Toy Story", reservando o melhor local dos calçados para o sapato A e mostrando aos tênis, sandálias, chinelos e demais sapatos quem era o meu favorito por ali a partir daquele momento.

Fiz uso da prerrogativa do meu relacionamento com o sapato A naquele mesmo dia. Calcei o meu mais novo amor para ir a uma festa à noite. É incrível o acréscimo de autoestima que experimentamos ao simplesmente usarmos uma peça de roupa ou um calçado pela primeira vez. É a prova de que é necessária pouca coisa para que possamos sentir-nos melhor conosco. E é curioso que, dentre tantas outras coisas que podemos fazer para elevarmos o nosso bem-estar, a gente não faz nada porque simplesmente não vislumbra essas coisas. Ou pior: às vezes a gente até sabe, mas não opta por elas.

Recebi elogios na festa quanto ao meu sapato novo. Modéstia à parte, eu poderia esperar por isso. Naquela noite eu conversei, comi e dancei. Sentia-me leve e feliz por estar rodeado de amigos que me notavam e me queriam bem. Caminhei de um lado para o outro, interagindo com as pessoas, sorrindo, me sentindo bonito, mesmo que por vezes eu lembrasse que o sapato A ainda me incomodava um pouco. Ao chegar em casa, após a festa, notei o meu calcanhar dolorido devido ao atrito do sapato naquela área. Não que eu precisasse de um número maior; os meus dedos estavam folgados, as laterais também não me apertavam. Era somente alguma inadaptação entre a parte de trás do sapato e o meu calcanhar; nada que um band-aid não resolvesse.

Usei o sapato B pela primeira vez somente depois de muitas vezes ter usado o sapato A. E não me senti bem. Era realmente um sapato de muito mau gosto. Enquanto isso, o sapato A figurava em meus pés em quase todos os melhores eventos e encontros de que participei desde que o adquiri. E praticamente em todos eles, sempre havia uma pessoa que comentava como o sapato era bonito e ficava bem em mim. Eu só me atrevia a usar o sapato B pouquíssimas vezes, quando precisava sair para comprar alguma coisa na rua, de carro, e logo voltar para a casa.

O meu amor e insistência no uso sapato A agravou o problema do atrito com o meu calcanhar. Chegou um momento em que uma ferida bastante dolorosa apareceu no local. Contrariado, tive que parar de usá-lo por algum tempo. Quanto ao sapato B, apesar de julgá-lo esquisito, percebi era prático calçá-lo nas poucas vezes que o coloquei nos pés, pois não havia cadarço que precisasse ser amarrado. Além do mais, ele não me machucava. Seu grande problema para mim era estético, mas mesmo assim, na ausência do sapato A, optei por dar-lhe mais chances.

Não demorou muito para que eu me acostumasse com o sapato B. Nunca tive um sapato tão confortável. Eram nítidas as suas vantagens. Ele pouco sujava; bastava passar um pano úmido de vez em quando e ele estava pronto para uso. Quando percebi, eu estava usando o sapato B mais do que os demais calçados. Inclusive comecei a considerá-lo bonito. E percebi que algumas pessoas também gostavam dele. E mesmo se não gostassem, eu passei a defender o meu sapato azarão.

Sempre achei a rotina matinal de dia útil muita chata. Acordar, tomar banho, escovar os dentes, fazer a barba. E, por isso, considero uma pequena alegria diária estar pronto para sair de casa e poder desfrutar da praticidade que é calçar o sapato B em frente à porta de casa, sem esforço, sem precisar me abaixar para amarrar cadarços e nem mesmo para ajustá-lo aos meus pés. Descobri um ângulo de inserção, em que coloco os meus pés no sapato sem que nenhum tipo de ajuste seja necessário. Eu só calço, permanecendo em postura ereta, e pronto. É o sapato mais prático que já tive. É gostoso poder calçá-lo. Ele é perfeito para mim, mesmo que eu tenha demorado para perceber isso.

Costumamos ouvir por aí que devemos estar abertos a novas experiências. Viajar, conhecer gente nova, fazer novos amigos. Agregar coisas diferentes a nossa vida. É sempre um exercício incrível olharmos para trás e notarmos que hoje muita coisa mudou. Mas poucos mencionam a maravilha que é ressignificar aquilo que já faz parte de nossas vidas, aquilo que já nos cerca, aquilo que a gente já possui e vivencia.

Geralmente conservamos um olhar tortuoso e enraizado sobre algumas das nossas questões atuais, de forma que julgamos impossível que seja modificada a maneira como pensamos sobre elas. E de fato, não é tarefa fácil. Eu mesmo não sei como fazer isso. Mas o meu par de sapatos de gosto questionável me ensinou que eu posso, sim, atribuir um novo olhar e um novo significado a algumas coisas. Aquilo que antes me descontentava pode vir a tornar-se uma nova fonte de alegrias diárias, de bem-estar e de paz.

Talvez o primeiro passo a ser dado seja justamente o que eu fiz com o sapato B: oferecer uma nova chance. Mesmo que incomode, mesmo que seja constrangedor, mesmo que não pareça boa ideia. Dar uma nova chance. Se nós refletirmos sobre as coisas que nos incomodam no dia-a-dia, desde coisas bobas, como sapatos esquisitos que nos desagradam, até coisas mais complexas, como o nosso relacionamento com outras pessoas, nosso trabalho e nossos hábitos, podemos acabar com uma lista contendo vários tópicos. Não seria vantajoso encaramos de vez alguns desses tópicos? É possível que nem tudo mude para melhor; muitas coisas podem se confirmar da forma ruim que são. Mas ainda assim, o esforço seria útil ao nos mostrar que para algumas coisas realmente não há remédio. Vale a pena despender algum tempo em prol de tentar sanar um incômodo sem fim.

Há meses eu não vejo o sapato A. Está no fundo do meu guarda-roupa, provavelmente sujo e empoeirado. O que me faz lembrar que preciso doá-lo. Enquanto isso, o sapato B não sai de perto da porta de casa. Sempre por ali, quentinho e macio, praticamente um amigo me esperando para me sustentar ao longo dos dias em que eu escolho calçá-lo. Inevitavelmente, alguns dias são mais difíceis do que outros, e é bom saber que sapato B está longe de torná-los ainda piores. Pelo contrário, funciona como uma brisa fresca durante a corrida diária, oferecendo-me praticidade e conforto. Além do mais, serviria para eu jogar baralho com meus falecidos avôs.

Escrevo esse texto depois de ter percebido que o sapato B está com a sola descolando. É curioso perceber que hoje eu estaria disposto a pagar somente no sapato B um valor maior do que paguei na dupla de pares naquele dia. Que a loja não leia isso! Nunca levei sapato nenhum para o conserto. Sempre utilizei por bastante tempo os meus calçados e me desfazia deles não era mais possível utilizá-los ou quando enjoava e decidia doá-los. Mas talvez eu tente consertar o sapato B, pois acredito que será difícil encontrar outro como ele. 

É necessário aprendermos a enxergar nesse mar de possibilidades no qual já estamos mergulhados, que existem por ali potenciais alegrias sendo desperdiçadas. Assim como agora, em que eu experimento mais essa alegria que o sapato B me proporcionou, que é fazer com que eu me sente em frente ao computador e termine um texto de metáforas sobre ele.

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