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As estrelas não se importam


Mais uma vez eu estava sentado na cadeira do escritório, cabelo penteado, todo adultinho, na segunda metade dos anos 1990. Durante as férias escolares, meu pai adorava me levar para o trabalho com ele, na Cinelândia; e eu adorava ir. Ele sempre me colocava numa mesa em L só para mim, com computador, canetas, papéis para rascunho, grampeadores, tudo, que provavelmente pertenciam a algum funcionário recém-demitido. A Mesbla havia decretado falência e, cada vez que eu voltava lá com o meu pai, havia menos gente e mais computadores órfãos espalhados pelo departamento administrativo. Eu até podia escolher onde queria ficar.

Eu ainda não tinha computador em casa naquela época e, portanto, ter um só para mim durante todo o expediente do meu pai era maravilhoso. Assim que chegávamos, meu pai me apresentava à sociedade daquela firma: uns caras maneirinhos que faziam cafuné em mim no estilo "E aí garotão, beleza, você é o famoso Renan então? Teu pai fala muito de você, bom aluno mas não joga futebol, né? Tá certo, rarrarrá". E então eu logo corria para o computador, que é o lugar de nerds que não jogam futebol. Meu pai só voltava a falar comigo na hora do almoço (e depois, para irmos embora). Enquanto ele não me chamava, eu ficava futucando a máquina, rabiscando papéis, grampeando e colando coisas (porque eu adorava grampear e colar as coisas - inclusive o meu dedo), e futucando mais a máquina; até que descobri o Microsoft Word.

Na verdade, eu já conhecia a ferramenta das esparsas aulas de informática do colégio; mas elas eram muito restritivas quanto ao que os alunos deveriam fazer no dia. Ai de um pentelho se ele ousasse abrir um aplicativo que não seria usado naquela aula. Mas no escritório da Mesbla eu podia tudo; tinha tempo para tudo. Comecei a escrever no Word, e saiu um texto que intitulei de "Linda estrela". Eu acho que esse foi o primeiro texto que escrevi na vida sem ser tarefa da escola. Falava sobre uma estrela que eu vivia admirando do quintal de casa. Uma estrela de brilho não muito forte, mas que cintilava muito, e em várias cores; e por isso chamava a minha atenção. Eu olhava para aquela estrela e tinha bons pensamentos, bons sentimentos. Minha cabeça mergulhava nos mistérios do mundo e do futuro.

Imprimi o texto (eu também adorava imprimir!) e mostrei ao meu pai. Eu jamais seria um craque da bola, mas parecia que ele aceitava bem a ideia de que eu me fosse um menino que escrevia parágrafos sem ninguém pedir. Mostrou o meu texto para uma senhora séria e educada, aparentemente mais velha que ele, e que devia ser a referência cultural da equipe. A mulher disse que estava impressionada com a prosa (ou talvez só quisesse agradar a uma criança). De qualquer forma, o "Linda estrela" morreu no mesmo dia em que nasceu. Não lembro de ter guardado o papel e nem de ter colocado o arquivo num disquete (sim, disquete). Provavelmente fiz dele uma bola de papel, e cesta. E meu pai foi demitido da Mesbla pouco tempo depois; demissões que ocorriam aos poucos, como num Big Brother de desfortúnio, em que o finalista daquele setor, ora, foi demitido também.

É claro que hoje eu me arrependo de ter jogado a prosa fora; seria o meu texto número 1. Talvez eu o publicasse por nostalgia. E mesmo que eu não o divulgasse, ele ainda estaria aqui, comigo, registrado para sempre. Eu não lembro de absolutamente nada do que escrevi em "Linda estrela"; só lembro do título e de que ele discorria positivamente sobre a tal estrela colorida, mais nada. Adoraria ter esse texto hoje. O astro protagonista, do qual eu talvez pudesse esperar alguma consideração, não iluminou os meus pensamentos nos segundos que precederam a maldita hora em eu resolvi amassá-lo para nunca mais ler. Palavras de uma criança para sempre perdidas.

As estrelas não se importam, é isso. Com nada. Ficam lá, a centenas, milhares de anos-luz distantes, liberando energia através de fusão nuclear, cheias de autoridade. Estão mal-acostumadas com outros corpos celestes girando ao redor, dependentes. Nosso astro-rei é o exemplo mais palpável de soberba: mais de 4 bilhões de anos liberando uma energia que incentivou um punhado de moléculas bobas a se aglutinarem, permitindo que estas realizassem tarefas cada vez mais complexas, até que o ser evoluído aqui se encontrasse com capacidade cognitiva suficiente ao ponto de tomar decisões tolas, como a de escrever textos. E o Sol? Nem aí. Continua nem aí. Bilhões de anos nem aí. Cheio de futuro ainda, enquanto eu, se tiver muita sorte, chegarei somente aos cem.

Eu posso escrever sobre as estrelas, mas estrelas não podem escrever sobre mim. E não escreveriam mesmo se pudessem. O Sol não me conhece, assim como eu não conheço as bactérias que se abrigam em meu corpo. E eu dependo do Sol, assim como as bactérias dependem de mim. Mas eu reconheço as bactérias! Posso não saber quantas milhões estão espalhadas, parasitas, ao longo da minha pele, mas eu sei que elas existem por aqui. E sei que elas podem me fazer mal caso consigam penetrar meu corpo através de um arranhão de amor ou de ódio. Já o Sol não sabe da minha existência e nem sabe que favorece a vida na Terra. E eu nada posso fazer de bom ou de ruim para ele. Eu tomo cuidado com as minhas bactérias, enquanto o Sol não se importa comigo. E veja só, as bactérias nem me escrevem poesias de agradecimento pelo usufruto. Já eu, ingênuo, escrevo-as para o Sol.

Não escrevo, aliás; não me atreveria hoje em dia. É óbvio demais. Alguma criança prodígio asiática já deve ter composto uma sinfonia de quarenta e cinco minutos originalíssima sobre o Sol, que de tão incrível deve ter feito com que Ludwig van Beethoven incorporasse no médium mais próximo só para apertar a mão do pequeno gênio. Talvez Beethoven não seja o melhor exemplo, pois eu não sei se o compositor se inspirou no Sol alguma vez (na lua, sim - que também não se importa). E morreu surdo; é possível que, do Além, não ouvisse a sinfonia fresca. Não sei se os espíritos carregam consigo as deficiências da carne. Mas o Sol não se importa com as deficiências, mesmo a de Beethoven, e mesmo que ele a tenha superado ao compor clássicos usando apenas memória auditiva. Pois é, componha o que quiser sobre o nosso Sol, meu camarada... Tudo em vão. Voltemos às estrelas distantes, então?

Não. Basta imaginar alienígenas escrevendo sobre o nosso Sol, que é uma estrela que brilha apenas mirradinha para eles. Soa ridiculamente inapropriado. Se escrever sobre a estrela que nos proporciona vida já é problemático, imagine escrever sobre as estrelas dos outros! Não é o meu lugar de fala. "Alienado" é a palavra mais correta para adjetivar alguém que tece poemas sobre estrelas distantes. Talvez a estrela colorida que eu amava seja de suma importância para uma civilização extraterrestre, muito mais do que é para mim. Quem sou eu para me meter a dizer que ela pisca bonitinha aqui na Terra? Talvez ela seja o diabo por lá, vai saber. Cada qual com suas próprias estrelas; a nossa já nos lambe bem as costas ao ponto de criar bolhas ardidas. E isso sem querer, pois, de todo modo, nenhuma delas se importa. Para o bem ou para o mal.

Caetano Veloso disse que a feia fumaça de Sampa sobe apagando as estrelas. Coitado, estava acostumado ao céu de Santo Amaro. Demorou tanto para se adaptar que poetizou, doído. Demorou mais do que eu, que não tenho um centésimo de sua capacidade elástica-inventiva. Mas compreendo; saiu do mitológico território do Recôncavo para ver toneladas de concreto enterrando toneladas de belas poesias. No entanto, as estrelas não se importam com a feia fumaça que sobe. E também não se importam com as vinte milhões de pessoas acendendo suas luzinhas prepotentes e impedindo umas às outras de contemplarem o céu noturno metropolitano. O céu da cidade quase não tem estrelas. Mas as estrelas não pedem para serem contempladas, mesmo.

Ainda assim, finalmente eu encontrei a paz. E foi na própria família de Caetano. Volta e meia, nessa vida, eu ouço Maria Bethânia interpretando "As canções que você fez pra mim". Um amor desgostoso também não deveria merecer uma canção, eu diria. Mas elas existem, aos montes; o que não falta são canções sobre amores falidos feito a Mesbla, que demitem os mais dedicados sem pena. Todavia, ao ver Bethânia no palco, eu me dou conta de que ela é o astro máximo, não importa o que ou a quem ela exalte, ou pelo que ou por quem ela sofra. O vigor de sua voz extraordinária e a sua postura impecável diante do público é muito mais uma expressão de si do que um carinho no outro. As canções de amor são dissimuladas. Elas versam sobre os objetos das paixões, mas é tudo fachada.

O seresteiro apaixonado que, ao dedilhar a sua viola, corteja sob o luar a moça da sacada, o faz porque precisa, antes que padeça de uma agonia que retalha o seu peito. Talvez a moça também não se importe, assim como a lua, e talvez ela jogue um balde de água fria lá de cima. Mas a canção já foi feita; ela é eterna. Eterniza a humilhação, mas tira o homem da dúvida acerca da correspondência amorosa. Porém, a dúvida volta a cada olhar cruzado com outras moças enigmáticas que façam esse homem suspirar. E lá vêm outras canções. Talvez ele recicle a mesma, destemido. O seresteiro não percebe, mas ele é sua própria musa. O poema de amor é, na realidade, para o poeta que o compôs.

Eu, garotinho, não escrevi exatamente para uma estrela que pisca colorida. Escrevi para mim. Inspirado por ela, sim, mas tomado por sentimentalidades de criança que usufruía o privilégio de poder pensar no futuro com esperança enquanto descobria na calmaria de colos aconchegantes as nuances sobre si e sobre a vida. A tal estrela bonita não se importa comigo, mas tudo bem. Se as crianças se impressionam com o cintilar de uma estrela, é porque, na verdade, existe dentro delas algo tão bonito quanto; alguma coisa que vale a pena cultivar e deixar florescer, ainda que os adultos que as sucedem tragam consigo afazeres diários lógicos julgados mais urgentes e sem um pingo de poesia.

Moro em São Paulo há seis anos, e o céu daqui, de fato, não possui muitas estrelas. Entretanto, estou morando em outro apartamento há menos de um ano e confesso que mal havia observado o céu da janela da sala. A gente vai perdendo essas doçurinhas ao longo dos anos; não pode. Olhei mais atento para o céu numa noite fria em meado de maio. Não custava nada tentar. Procurei pela estrela que reluz colorida. Demorou um pouco, mas encontrei, era ela! Num cantinho, quase escondida por outro prédio! Estava ali, um pouco encoberta pela fumaça de Caetano e apagadinha pelas luzes prepotentes das vinte milhões de almas, mas era ela; era sim!

Hoje eu sei que o piscar de uma estrela é uma ilusão de ótica, causada pela atmosfera terrestre, que distorce um pouco o pontinho de luz que chega até os nossos olhos. Logo, sua luz talvez não seja tão bonita quanto parece. Sem problemas, fiz as pazes mesmo assim. Aliás, eu até prefiro pensar que a estrela seja exatamente como eu a vejo. Mesmo que ela não se importe, eu me importo. Os alienígenas que me desculpem, peço permissão para admirá-la; licença poética. Eu sorri para a estrela mesmo sabendo que não ela retribuiu o sorriso. Ela não sente, tampouco me vê, não me conhece. Mas eu a conheço, vejo-a e sinto. E como sinto... Seja experimentando o momento num silêncio de Beethoven, seja embalado por Bethânia.

É linda mesmo, a danada.

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Comentários

  1. Oi primo, gostei do texto! Realmente as estrelas não se importam mas sera que nós relamente nos importamos com os detalhes?! o legal desse texto é ver que vc resgatou detalhes da sua vivência na infância/ adolescência, que nostram a pureza do REnan. Continue na busca de si, para sentir-se mais íntimo consigo e tbm escrever textos maravilhosos, porque nao?! Bj Marília

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