Pular para o conteúdo principal

O canto do galo


Levantar cedo nunca foi uma de minhas virtudes, embora seja uma obrigação que cumpro. Tenho apego ao travesseiro assim como um bebê perante a sua chupeta. Quase choro todas as manhãs por deixá-lo sozinho, longe do meu calor, esfriando ao longo do dia. O que me salva são os afazeres diários, impostos por uma sociedade que preza pelos primeiros raios de sol. Não me entendam mal: eu adoro as manhãs, e contemplá-las me deixa inspirado. Mas eu realmente sinto uma dificuldade crônica em aproveitá-las nos dias em que eu posso dormir até mais tarde. Em outras palavras, uma preguiça colossal.

Não importa o quão cedo eu durma no dia anterior; levantar da cama na manhã seguinte é sempre tarefa difícil para mim. Todas as noites eu ativo o alarme do celular para me despertar quarenta e cinco minutos antes do horário real. E são esses quarenta e cinco minutos que me fazem ir aceitando, aos poucos, o fato de que preciso sair da cama e encarar a vida. Mesmo assim, espero ansioso pelo dia em que um cientista inventará uma pílula que faça com que os que padecem do mesmo mal que eu acordem extremamente bem dispostos, todos os dias, às seis da manhã.

E talvez eu até possa ajudar esse gênio de causa nobre. Tenho certeza de que o meu pai é o material de estudo perfeito para que desenvolvam essa receita milagrosa. Isso porque o velho tem uma aptidão heroica para levantar cedo; eu diria que é um superpoder. Abre o olho e levanta; assim, simples. E deixa o quarto abruptamente, com o vigor de um cuco de relógio barulhento saindo de uma casinha pendurada na parede. É como se não tivesse dormido por horas e não precisasse de um tempo para assimilar o novo dia. E é bem isso mesmo; ele não precisa. Não existe para ele a necessidade de longos minutos de transição prostrado sobre cama. Ele não precisa aceitar que acordou e nem precisa retomar a consciência sobre o seu corpo. Meu pai já acorda pronto.

E dorme também exatamente com a mesma facilidade. Por isso, eu posso dizer que o meu pai assume idealmente os dois estados básicos de atividade: deitado dormindo ou acordado de pé. Não se dá ao luxo de estados inúteis entre um e outro. Não se permite (ou não se entrega) ao chamado da preguiça. Monteiro Lobato já dizia em seu livro "Memórias de Emília" que a vida é um pisca-pisca, onde "cada pisco é um dia". O autor explica lindamente num trecho em diálogo que "piscar é abrir e fechar os olhos (...) um dorme e acorda, dorme e acorda". Pois, se fossem contemporâneos, eu diria que o pai de Emília se inspirou em meu pai para escrever esse trecho. Meu pai é um pisca-pisca ideal, sem defeitos em suas piscadas.

Assim, era de se esperar que essa diferença gritante entre mim e meu pai ao lidar com o sono tenha nos causado incontáveis atritos ao longo dos vinte e cinco anos em que dividimos o mesmo teto. Sendo, até hoje, uma pessoa excepcionalmente bem-disposta enquanto uma cidade inteira ainda se coça ao despertar, ele se aborrecia frequentemente ao ver o filho saindo do quarto e dando as caras pela primeira vez várias horas depois, como se estivesse sob o fuso-horário de um país distante.

Mas, talvez para a minha própria defesa, é preciso dizer o quão exagerado ele é. É impressionante como o meu pai levanta cedo... Eu não estou falando de sete ou seis da manhã, mas sim de cinco, quatro e meia ou até quatro da manhã, sem precisar! Mesmo estando aposentado e mesmo aos domingos. Meu pai está além da expressão em que se diz que fulano "acorda com as galinhas". Ele não acorda com as galinhas; ele acorda as galinhas!

Tal expressão me remete ao galo que tive como animal de estimação quando eu tinha uns doze anos. O bicho teve uma infância de pinto marcada. Literalmente, por tinta. Fora comprado na feira, de um andarilho que se aproveitou do movimento dos fregueses no local e estacionou uma velha carroça sobre a qual trazia uma caixa de papelão que abrigava diversos pintinhos coloridos e amontoados. As crianças corriam desesperadas, inúmeras, ao encontro da caixa, pedindo incessantemente aos seus pais para que pudessem levar algum pintinho para casa. Eu consegui escolher dois; um para mim e outro para o meu irmão. Um roxo e outro verde.

Os dois pintos, coitados, sobreviveram às desventuras da vida. Retirados debaixo das asas da mãe (de novo, literalmente), foram traficados e expostos à toxicidade de uma tinta que, com certeza, era imprópria para suas penugens. Seus destinos trágicos estariam precocemente selados nas mãos de crianças catarrentas e despudoradas se não fosse eu, já maiorzinho, para oferecer-lhes amor. Mas, em nossa casa, devo admitir que eles passavam os dias fugindo dos cães ao longo de um quintal quase sem minhocas com as quais pudessem se divertir. Não demorou muito para que eu me apegasse mais ao roxo, ficando decretado que ele pertencia a mim; e o pinto verde ao meu irmão.

Contra todas as expectativas (achávamos que eles morreriam logo por causa da tinta e dos cães), os pintinhos foram crescendo e se tornaram galos num ciscar de terra. Reconheceram-se como sendo da mesma espécie quando, já descoloridos, perceberam que suas penas brancas eram iguais. Mas o meu irmão, desapegado, sádico, além de ser uma criança com uma interessante capacidade de fazer amizades com adultos, logo ofereceu o seu jovem galo crescido ao pedreiro que fora realizar reparos em nossa casa, para que ele pudesse levá-lo como almoço. Meu pai sugeriu que levasse também o meu. Mas eu supliquei por sua alma, e o ex-roxinho ficou.

Após a partida de seu irmão, o meu galo ganhou maior destaque na família ao tornar-se, de fato, um novo bicho de estimação, em vez de um mero passatempo infantil que logo sucumbiria à sua fragilidade. Não escolhi um nome para ele, mas a minha mãe passou a chamá-lo de Nêgo, embora fosse branco. E assim permaneceu. Contudo, mesmo tendo conquistado um status mais elevado perante a nossa família, os infortúnios do galo Nêgo não cessaram. Nêgo era um galo vivendo num quintal de uma casa urbana, sem galinheiro e sem galinhas que pudesse comandar. Jamais fecundaria fêmeas, e não tinha mais ao lado o irmão verde com o qual pudesse compartilhar a angústia de uma vida sem propósitos. 

A preocupação do galo vinha do fato de que, após entender-se como uma espécie inadequada àquele ambiente, alguém pudesse tentar, mais uma vez, colocá-lo numa panela fervida. Se ao menos fosse galinha e pusesse ovos frescos que servissem de alimento à família, talvez Nêgo experimentasse maior tranquilidade sob sua crista. Mas, dentro do contexto no qual se encontrava, o galo assumiu que sua vida dependia de aprender a fazer muito bem a única coisa que sua espécie poderia oferecer aos humanos aos quais pertencia: cantar para despertar a família. Nêgo, portanto, praticou o seu som redentor todos os dias, até que o tímido cacarejo se transformasse num cocorocó alto, rouco e bem sustentado.

Meu pai talvez tivesse uma relação de amor e ódio com o galo. Amor, pois admiraria qualquer ser que acordasse cedo; ódio porque considerava-o rival. E o galo sentia que aquele homem era, para ele, a sua maior ameaça. Posso apostar que meu pai disputava com o galo quem primeiro iria despertar. E consigo vislumbrar a cena de uma madrugada qualquer daquela época, em que Nêgo tentou, em vão, ser bem sucedido.

O galo acordou sobre o seu pequeno poleiro fedido e improvisado debaixo de uma caixa d'água desativada e, através de seu instinto de galináceo, percebeu que já estava na hora de cantar. Correu rapidamente para o meio do quintal, onde o silêncio e a brisa agradável da madrugada carioca acariciavam suas penas. Assim, respirou fundo, levantou a cabeça, esticou o pescoço, bateu as asas para que elas lhe ajudassem na emissão sonora, e abriu o bico o máximo que conseguia, a fim de mostrar para todos nós que era o melhor despertador que poderíamos imaginar ao cumprir o seu papel de forma extraordinária. 

Entretanto, na iminência de cantar, Nêgo deu de cara com o meu pai na varanda, em pé, olhando para ele, já livre da remela nos olhos e fumando um cigarro que se encontrava quase na bituca. No susto, o galo engoliu a energia para o canto de tal maneira que não me admiraria se ela descesse pelas tripas e saísse de sua cloaca num ovo galado por frustração, ainda que fosse macho. Conseguiu emitir apenas um có-có envergonhado, e ciscou, procurando disfarçar o constrangimento.

Acredito que muitos desses embates entre meu pai e o galo devem ter ocorrido ao longo de várias madrugadas que eu, obviamente, não vivenciei. O tempo passou, e eu não soube se o galo havia morrido da doença que vinha apresentando ou de desgosto por ter tido um concorrente tão desleal dividindo o mesmo espaço. A única coisa que soube é que, ao chegar em casa num fim de tarde, o galo não estava mais lá. Minha mãe disse que ele havia sido encontrado estirado no quintal, morto, e que os filhotes da cadela já mordiscavam suas penas, em brincadeira. Chorei naquela noite e desejei, bonitinho, que o meu galo cacarejasse feliz nas estrelas.

No dia seguinte, saí do quarto após dormir tudo o que eu quis; era um dia de fim de semana. A luminosidade intensa que adentrava através do basculante da cozinha indicavam sol a pino. Logo, vi meu pai sentado à mesa almoçando, com a voracidade quem já havia vivido dois dias inteiros dentro daquela manhã que não conheci. Notou a minha presença e me lançou mais um olhar de reprovação; o relógio da parede marcava pouco mais de meio dia. Levou à boca uma coxa de frango fresca, macia e dourada. Abocanhou logo a parte com mais carne, e mastigou, sem tirar os olhos de mim. Alguns ossinhos chupados já se aglomeravam no canto de seu prato.

Aquilo não teria me incomodado se eu não pudesse notar que a expressão de censura de meu pai cedia lugar a um sorriso triunfante em meio às mastigadas. Eu não sei se era efeito da minha visão ainda turva de sono, mas acredito ter notado uma crista crescendo na cabeça do velho. E, pela primeira vez, experimentei um amargo arrependimento por ter acordado tão tarde. Dois galos jamais dividem o mesmo galinheiro.

Olá! Meu nome é Renan. Se você gostou deste texto, comente e compartilhe nas opções lá embaixo! É o meu combustível para continuar escrevendo 😊
- instagram: @renan.mar 
- facebook: nuances.r

Comentários

  1. Que texto tocante! Coincidentemente meu filho me perguntou ontem se tive animais na infância. Falei de vários, mas esqueci do galo!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado! É muito bom lembrar de nossos bichos. Volte sempre! :)

      Excluir

Postar um comentário

Deixe seu rastro por aqui!

Postagens mais visitadas deste blog

Bluetooth

Hoje eu me lembrei daquelas noites no carro, quando eu ia te buscar e ficávamos durante algum tempo estacionados ouvindo nossas músicas. Elas se tornavam “nossas” músicas a partir do momento que tocavam ali, em meio ao nosso cenário de carinho e entrega. Celulares emparelhados, o meu ou o teu, deixávamos tocar o que viesse. E assim, sem querer, montávamos a playlist de uma história. Você deitava no meu ombro e me contava sobre o seu dia e também sobre o seu passado; coisas bobas quaisquer que a minha mente inquieta se esforçava para assimilar, palavra por palavra (eu, que não sou de perguntar muito, ficava todo curioso), tudo para que eu pudesse saber o máximo sobre você. Vez ou outra você se lembrava de alguma música e insistia para que a ouvíssemos juntos. Quando era o meu celular que estava conectado, você pedia gentilmente para mudar para o teu. Mas não ficávamos numa só das tuas canções. L

Deixa eu dizer que te amo...

A vida oferece, a todo instante, momentos sutilmente encantadores para que possamos apreciar. Mas, às vezes, por falta de sensibilidade, pressa ou mesmo pura distração, nós não percebemos. Por sorte, quiseram as estrelas que no último dia dez de maio eu estivesse aguçado o suficiente para que não deixasse de reparar numa pequena graça em forma de coincidência. Foi o domingo de Dia das Mães, uma das poucas vezes em que estive longe da minha mãe nessa data. Era noite, e eu já havia conversado com ela pelo telefone e renovado as declarações do amor mais sincero que possuo. Ficou feliz com as flores que eu enviei para a sua casa. Quando eu vim para São Paulo, uma das minhas maiores angústias vinha da ideia de ficar longe da minha família. Porém, hoje eu até me sinto privilegiado por morar razoavelmente próximo de todos. O Rio de Janeiro é logo ali. Se não fossem tempos de pandemia, eu teria passado esse dia, mais uma vez, ao lado de dona Rose. Entretanto, eu me encontrava em minha casa naq

A travesti da padaria

Era madrugada de sábado para domingo, quase amanhecendo, e eu estava tomando café numa dessas imensas padarias paulistanas, após curtir a noite, numa época em que a pandemia ainda era algo impensável para nós. Qualquer carioca suburbano (feito eu) que nunca tenha passado tempo suficiente em São Paulo talvez não seja capaz de compreender que frequentar as padarias da maior cidade do Brasil vai muito além de simplesmente esperar numa fila para comprar pão, leite e manteiga. As padarias de São Paulo são palcos de confraternizações e do surgimento de grandes amizades e amores sob a garoa. Enquanto idosos comem brioches num canto, jovens eufóricos se reúnem noutro para aumentar os níveis de glicose após uma noite de bebedeira (ou para beberem ainda mais). Essas padarias possuem catracas nas entradas, mesas confortáveis, garçons, balcões de atendimento rápido, pratos exclusivos da casa (muitos deles até se tornam famosos na cidade toda) e estão quase sempre cheias

Quarentena

Da janela no nono andar, vejo as luzes da cidade brilhando cada vez mais. Anoitece em São Paulo e o frio de maio já começa a dar as caras. Disseram que a moléstia veio lá do Oriente; não se sabe se por meio de avião, navio ou vacilo. Pedem que eu não saia de casa, pois a tosse é traiçoeira e o agravamento tem como um dos pilares uma roleta russa medonha. Além do mais, eu não me perdoaria se ajudasse a enterrar idosos e crônicos. Evito. Sugerem que é a oportunidade de nos conhecermos melhor, isolados. Não deveria ser necessária uma pandemia para isso. Mas como o ser humano não é o ser mais trivial da Terra, as ocasiões vivem colocando em xeque a noção que temos de nós mesmos. Vale a sugestão. Estou me conhecendo sim, e, confesso, me reconhecendo insuportável às vezes. Olho-me através espelho e dou broncas sérias no reflexo. Dedo em riste (às vezes o médio). Faço as pazes comigo para depois me aborrecer novamente. Sou daqueles casais que muito brigam e nunca se separam. Mas

Encontros

Não existe amor à primeira vista. O que existe é conexão no primeiro encontro: são olhares e sorrisos em sincronia, beijos avassaladores, encaixe perfeito de corpos e boas ideias que batem. Em outras palavras, um pequeno pedaço do paraíso que desce angelicalmente sobre você. Mas não se iluda, isso não é amor. É entretenimento a dois, distração e fantasia compartilhada. Não que essas coisas não sejam sinceras; elas também são. Um simples encontro também é cheio de verdades, mesmo que ele seja casual. Aliás, é difícil pensar em algo mais genuíno do que os nossos desejos; todos eles, dos mais nobres aos mais carnais. Além disso, acredito que poucas pessoas sejam tão teatrais ao ponto de conseguirem simular com desenvoltura um entrosamento que não existe com alguém.  Logo, aquilo que foi bom numa noite calorosa também é  legítimo, ainda que tudo tenha se dissolvido à luz do sol na manhã seguinte.  Como no célebre soneto de Vinicius de Moraes, no “que seja infinito enquanto dure", p