Pular para o conteúdo principal

O menino que não tinha TV em casa


Samuel não é meu amigo de longa data, mas eu gostaria que fosse. Nós nos conhecemos no feriado prolongado de novembro de 2018, no Rio de Janeiro. De início, talvez ele tenha se esforçado mais do que eu para que nossa amizade sobrevivesse ao calor carioca (não consigo fazer nada direito no calor, inclusive amizades); e eu lhe agradeço por isso. Se não fosse por ele, eu jamais teria vivido os bons momentos que sua presença me proporcionou até aqui, tais quais o nosso passeio em Bonito (MS) e as incontáveis sociais em nossas casas.

Engana-se quem o vê pela primeira vez e pensa que ele é quieto. De uma hora para outra, quando eu menos espero, ele desanda a falar; geralmente, algo interessante. Mas, distraído que sou, por vezes eu me perco em suas palavras. Daí que sou devidamente repreendido. "Repita o que eu estava te dizendo agora...". Entro em desespero, e tento repetir a história com as palavras soltas que ouvi. "Não é nada disso", finaliza ele, decepcionado. Porém, ainda recebo mensagens amistosas suas no dia seguinte. Não sei de onde ele tira tanta paciência. 

Bastante comedido nos gestos e no tom de voz, Samuel consegue ainda assim expressar-se de maneira clara, imprimindo de modo correto as entonações de acordo com o que ele fala. Sei disso porque consigo ver que as suas emoções são sinceras durante as palavras emitidas. Desenvolve o papo juntinho ao interlocutor o tempo todo (preciso aprender com ele). E, mesmo tímido, ele adora quando percebe que as pessoas estão totalmente imersas em suas histórias, pois, talvez sem notar, ele começa a dar mais e mais detalhes conforme decifra nos olhos de cada um o fato de que eles querem saber mais sobre o assunto.

Ele deve ter visto a minha atenção (muitas vezes desligada) iluminar-se quando me disse, como quem não queria nada, que havia sido criado sem TV em casa. Isso foi logo após algum comentário que fiz sobre algo da cultura pop dos anos 90 ou 00, que ele, privado de televisor, desconhecia. Quando viu que eu estava totalmente curioso acerca de sua revelação, sorriu como quem diz "senta aí, vai". E, dessa vez, eu prestei atenção em cada detalhe da nossa longa conversa, sentado em sua mesa de jantar após eu ter provado alguma coisa vegana que ele me convenceu de que era gostosa (sempre consegue).

Samuel é filho de pai militar e, portanto, morou em alguns lugares pelo Brasil ao longo de sua infância e adolescência. Nasceu no Rio de Janeiro, mudando-se para as regiões Centro-Oeste e Norte, voltando ao Sudeste e terminando em Campo Grande (MS), ainda ao lado de sua família. Samuel é filho do Brasil e o seu sotaque é uma mistura de tudo que resulta em nada. (O branco é composto por todas as cores.) É o idioma brasileiro em seu estado quase puro; sem vícios, sem chiados ou gírias regionais. Mas é "quase" porque eu ainda consigo ouvir uma puxadinha no R, de alguma coisa lá do Centro-Oeste. Ele acha graça quando comento.

Todas as casas pelas quais Samuel passou tinham algo em comum: a ausência de TV. Seus pais são evangélicos, de uma denominação muito rígida, que prega que o televisor é a manifestação do próprio capiroto, em que a antena nada mais é do que o chifre da besta. Através do metal exposto aos ares mundanos, captam-se sinais arruinadores infestados de prostituição, traição, homossexualidade, Xuxa etc., que são projetados dentro de casa diante da família cristã tradicional. Curioso é que, enquanto isso, outras denominações evangélicas se aproveitam da mídia televisiva para vender toalhas santas e óleos ungidos, ao mesmo tempo em que disseminam a Palavra.

O menino cresceu ouvindo histórias sinistras, quase mitológicas, sobre os televisores. Dedicada a manter o filho longe da tentação, a mãe dizia que o hábito de ver TV o levaria a ter sonhos atormentadores durante a madrugada. Se ele insistisse na questão, a mãe argumentava que um braço diabólico poderia sair da tela escura e capturá-lo. Certa vez, num culto, Samuel escutou o testemunho de um fiel, que revelou que cobras saíam de sua TV à noite, enquanto ele dormia, e devoravam as sobras de comida deixadas nas panelas, sobre o fogão. Depois de satisfeitas, voltavam para dentro da tela, e o homem amanhecia com as panelas vazias. Já esclarecido do mal, desfez-se do maldito aparelho, para honra e glória de Deus!  ̶  gritou o homem. A assembleia aplaudiu de pé, em coros de aleluia.

A maioria de nós tem uma relação quase de indiferença com a TV; e isso talvez seja ainda mais verdade atualmente, pois outras mídias passaram a disputar a nossa atenção. Porém, para Samuel, a TV é a materialização de uma lembrança de privações, envolta por uma aura de medo, pecado e mistério. O menino tinha pavor de permanecer sozinho no mesmo ambiente que uma TV nas vezes em que estava fora de sua casa; principalmente no escuro. Esse temor persistiu por muito tempo. Felizmente, Deus sabe o que faz e Samuel não conheceu a terrível Samara de "O Chamado" (já que ele não assistia a muitos filmes). Nenhum menino que já tremesse naturalmente diante de uma TV aguentaria saber da existência de uma personagem que saía engatinhando descabelada do televisor após sete dias para assassinar aqueles que não repassavam a sua fita cassete.

Entretanto, conforme ele crescia, o medo cada vez mais era confrontado pela curiosidade em consumir um produto que todas as crianças e adolescentes de sua idade consumiam. Na escola, sentia-se envergonhado e não contava para os colegas que não tinha TV em sua casa. Normalmente, encontrava-se deslocado de qualquer grupo quando o assunto envolvia algum programa que passava na TV (o que é corriqueiro!). Enquanto as crianças comentavam sobre os Power Rangers, Samuel não fazia ideia de quem eram. Não aprendeu o verbo "morfar" da forma como aprendi, não experimentou encanto por personagens e não possui a esmagadora parte das referências marcantes da cultura pop televisiva que possuo.

A TV foi se tornando uma carência a ser suprida para Samuel. O menino ia acumulando abstinência até o momento de estar diante de uma TV (em algum outro lugar) e poder encher a cara de doses seguidas do pecado. Adorava quando viajava para a casa dos avós no Natal; os filmes temáticos de fim de ano que passavam na TV de seus velhos o arrebatavam de alegria de tal maneira que ele passou a cogitar a ideia de que o capeta que fazia aquele aparelho funcionar talvez não fosse tão mau. Assim, passava o dia inteiro imerso nas programações televisivas, enquanto sua avó comentava, impaciente, que ele não saía da frente da TV; não havia sossego, coitado. Em hotéis, quando passeava com os pais, era a mesma coisa: faziam check-in e Samuel logo reparava que havia ali no quarto um cão de poucas polegadas de tela preta na parede, e dava um jeitinho de ligá-lo, sedento.

Hoje, assim como eu, Samuel mora em São Paulo. Já era financeiramente independente havia anos em Campo Grande, mas se mudou para cá após ter sido aprovado em outro concurso. Como uma daquelas surpresas boas da vida, o amigo que conheci quase que num tropeço no Rio de Janeiro passou a morar na mesma cidade que eu! (Talvez nem tanta surpresa, já que Sampa é a cidade mais óbvia para trabalho desse país.) Sua necessidade natural de emancipação dos pais também flertava com algum grau saudável de distanciamento deles; morar em outra casa (e talvez em outra cidade) lhe pareceu mais conveniente. Desvencilhou-se de vez das últimas amarras, fez as malas, e veio.

Eu passei a incentivá-lo a comprar uma TV após saber da história. (Talvez agora seja eu a personificação de Belzebu em sua vida.) Contudo, para Samuel, possuir uma TV ainda hoje não é algo tão banal. Ele considera o fato de ter o aparelho uma afronta à família. O meu amigo se incomoda com a ideia de os pais o visitarem e verem que ele rendeu-se a Satanás, colorido e com chifres metálicos, mesmo tendo sido alertado durante anos. Samuel sabe que possivelmente eles ficarão quietos a respeito disso; poucos pais continuam se intrometendo na vida de filhos independentes e com trinta anos. Mas prevê que ficarão tristes.

Não obstante, ele acatou a minha ideia de um jeito que eu sei que ele não sossegaria enquanto não pusesse um demônio desses em seu apartamento de solteiro desatado. Medi junto com ele o tamanho máximo para o rack em sua sala. Ao longo de vários dias, Samuel me enviou muitos links de sites de vendas para saber o que eu achava, até que comprou uma TV pela internet; cinquenta maravilhosas polegadas. LG, LED, Ultra HD, 4K, Smart, Malandra, Tinhosa, Persuasiva feito o diabo. A carência de trinta anos concentrou-se na ansiedade durante os sete dias em que ele esperou pelo produto (uma agonia maior do que a que se experimenta após ouvir o seven days da Samara  ̶̶̶  pelo menos, nesse caso, era uma agonia positiva). Até que a TV chegou, e fui visitá-lo.

Fiz festa com o produto. Obviamente, já estava ligada quando cheguei num volume talvez sindicalmente reprovável. Samuel me mostrou algumas funcionalidades e eu pude observar que o meu amigo estava satisfeito. Gosto de vê-lo feliz. Depois, comecei a falar sobre alguns acontecimentos da minha semana. Mas então eu notei que estava falando sozinho. Com o controle remoto nas mãos, Samuel olhava para a tela compenetrado como se quisesse devorá-la em intimidades, deixando que sua cabeça caísse para a esquerda. Não que ele fosse um bobo deslumbrado; não era a primeira vez que via um televisor ligado. Mas aquelas eram as primeiras vezes que ele assistia a um tabu desfeito que ele próprio havia comprado para uma casa onde ele agora morava só.

E foi a minha vez de repreendê-lo, vingativo. "Repita o que eu falei!". Sem sucesso. Samuel estava assistindo a um clipe musical, e a explosão de cores high definition incendiava tudo no reflexo aquoso de suas pupilas fixas. Talvez passasse pela minha cabeça que aquilo fosse mesmo obra do Coiso (e que ele tivesse absorvido o meu amigo), mas eu percebi certa serenidade consciente moldando o seu semblante inerte. Samuel não estava envolvido pelas forças do mal; muito pelo contrário. Tudo naquele apartamento é doce, leve e legítimo. Especialmente a TV, que naquele instante parecia abençoá-lo, como se lhe oferecesse um merecido sacramento após a sua árdua caminhada de anos rumo a tornar-se uma pessoa esclarecida.

Ao livrar-se da santa hipnose, Samuel olhou para o lado, para mim, sem graça, e não conseguiu mesmo repetir o que eu estava dizendo, nadinha... Que orgulho do garoto!

[Olá! Meu nome é Renan. Se você gostou desse texto, por favor, curta/comente/compartilhe. É o meu combustível para continuar escrevendo 😊]
instagram: @renan.mar | facebook: nuances.r

Comentários

Postar um comentário

Deixe seu rastro por aqui!

Postagens mais visitadas deste blog

Bluetooth

Hoje eu me lembrei daquelas noites no carro, quando eu ia te buscar e ficávamos durante algum tempo estacionados ouvindo nossas músicas. Elas se tornavam “nossas” músicas a partir do momento que tocavam ali, em meio ao nosso cenário de carinho e entrega. Celulares emparelhados, o meu ou o teu, deixávamos tocar o que viesse. E assim, sem querer, montávamos a playlist de uma história. Você deitava no meu ombro e me contava sobre o seu dia e também sobre o seu passado; coisas bobas quaisquer que a minha mente inquieta se esforçava para assimilar, palavra por palavra (eu, que não sou de perguntar muito, ficava todo curioso), tudo para que eu pudesse saber o máximo sobre você. Vez ou outra você se lembrava de alguma música e insistia para que a ouvíssemos juntos. Quando era o meu celular que estava conectado, você pedia gentilmente para mudar para o teu. Mas não ficávamos numa só das tuas canções. L

Deixa eu dizer que te amo...

A vida oferece, a todo instante, momentos sutilmente encantadores para que possamos apreciar. Mas, às vezes, por falta de sensibilidade, pressa ou mesmo pura distração, nós não percebemos. Por sorte, quiseram as estrelas que no último dia dez de maio eu estivesse aguçado o suficiente para que não deixasse de reparar numa pequena graça em forma de coincidência. Foi o domingo de Dia das Mães, uma das poucas vezes em que estive longe da minha mãe nessa data. Era noite, e eu já havia conversado com ela pelo telefone e renovado as declarações do amor mais sincero que possuo. Ficou feliz com as flores que eu enviei para a sua casa. Quando eu vim para São Paulo, uma das minhas maiores angústias vinha da ideia de ficar longe da minha família. Porém, hoje eu até me sinto privilegiado por morar razoavelmente próximo de todos. O Rio de Janeiro é logo ali. Se não fossem tempos de pandemia, eu teria passado esse dia, mais uma vez, ao lado de dona Rose. Entretanto, eu me encontrava em minha casa naq

A travesti da padaria

Era madrugada de sábado para domingo, quase amanhecendo, e eu estava tomando café numa dessas imensas padarias paulistanas, após curtir a noite, numa época em que a pandemia ainda era algo impensável para nós. Qualquer carioca suburbano (feito eu) que nunca tenha passado tempo suficiente em São Paulo talvez não seja capaz de compreender que frequentar as padarias da maior cidade do Brasil vai muito além de simplesmente esperar numa fila para comprar pão, leite e manteiga. As padarias de São Paulo são palcos de confraternizações e do surgimento de grandes amizades e amores sob a garoa. Enquanto idosos comem brioches num canto, jovens eufóricos se reúnem noutro para aumentar os níveis de glicose após uma noite de bebedeira (ou para beberem ainda mais). Essas padarias possuem catracas nas entradas, mesas confortáveis, garçons, balcões de atendimento rápido, pratos exclusivos da casa (muitos deles até se tornam famosos na cidade toda) e estão quase sempre cheias

Quarentena

Da janela no nono andar, vejo as luzes da cidade brilhando cada vez mais. Anoitece em São Paulo e o frio de maio já começa a dar as caras. Disseram que a moléstia veio lá do Oriente; não se sabe se por meio de avião, navio ou vacilo. Pedem que eu não saia de casa, pois a tosse é traiçoeira e o agravamento tem como um dos pilares uma roleta russa medonha. Além do mais, eu não me perdoaria se ajudasse a enterrar idosos e crônicos. Evito. Sugerem que é a oportunidade de nos conhecermos melhor, isolados. Não deveria ser necessária uma pandemia para isso. Mas como o ser humano não é o ser mais trivial da Terra, as ocasiões vivem colocando em xeque a noção que temos de nós mesmos. Vale a sugestão. Estou me conhecendo sim, e, confesso, me reconhecendo insuportável às vezes. Olho-me através espelho e dou broncas sérias no reflexo. Dedo em riste (às vezes o médio). Faço as pazes comigo para depois me aborrecer novamente. Sou daqueles casais que muito brigam e nunca se separam. Mas

Encontros

Não existe amor à primeira vista. O que existe é conexão no primeiro encontro: são olhares e sorrisos em sincronia, beijos avassaladores, encaixe perfeito de corpos e boas ideias que batem. Em outras palavras, um pequeno pedaço do paraíso que desce angelicalmente sobre você. Mas não se iluda, isso não é amor. É entretenimento a dois, distração e fantasia compartilhada. Não que essas coisas não sejam sinceras; elas também são. Um simples encontro também é cheio de verdades, mesmo que ele seja casual. Aliás, é difícil pensar em algo mais genuíno do que os nossos desejos; todos eles, dos mais nobres aos mais carnais. Além disso, acredito que poucas pessoas sejam tão teatrais ao ponto de conseguirem simular com desenvoltura um entrosamento que não existe com alguém.  Logo, aquilo que foi bom numa noite calorosa também é  legítimo, ainda que tudo tenha se dissolvido à luz do sol na manhã seguinte.  Como no célebre soneto de Vinicius de Moraes, no “que seja infinito enquanto dure", p