Pular para o conteúdo principal

Quarentena



Da janela no nono andar, vejo as luzes da cidade brilhando cada vez mais. Anoitece em São Paulo e o frio de maio já começa a dar as caras. Disseram que a moléstia veio lá do Oriente; não se sabe se por meio de avião, navio ou vacilo. Pedem que eu não saia de casa, pois a tosse é traiçoeira e o agravamento tem como um dos pilares uma roleta russa medonha. Além do mais, eu não me perdoaria se ajudasse a enterrar idosos e crônicos. Evito.

Sugerem que é a oportunidade de nos conhecermos melhor, isolados. Não deveria ser necessária uma pandemia para isso. Mas como o ser humano não é o ser mais trivial da Terra, as ocasiões vivem colocando em xeque a noção que temos de nós mesmos. Vale a sugestão. Estou me conhecendo sim, e, confesso, me reconhecendo insuportável às vezes. Olho-me através espelho e dou broncas sérias no reflexo. Dedo em riste (às vezes o médio). Faço as pazes comigo para depois me aborrecer novamente. Sou daqueles casais que muito brigam e nunca se separam. Mas não poderia mesmo pedir o divórcio de mim; só me resta evoluir.

Tenho feito coisas diferentes. Decidi encarar mais vezes a panela de pressão. Pois é, tenho medo dela; sempre tive. Faz muito barulho, e eu interpreto o chiado como um aviso de que "meu lindo, eu vou explodir aqui a qualquer momento". Minhas habilidades na cozinha não são nulas; são negativas. Já transformei ingredientes em anticomida, no sentido de que era melhor ter consumido tudo separado e cru do que ter cozinhado Chernobyl. Mas o feijão preto, ah o feijão preto... esse tem ficado cada vez melhor. É de esfregar na cara da sociedade paulista, que prefere o feijão marrom. Amo os paulistas, de verdade, e não me importo que falem bolacha no lugar de biscoito, mas o feijão marrom é algo difícil de engolir, literalmente.

Não tenho cão ou gato em casa. Minha sensatez não permite; morreriam de solidão. Daí que cismei com plantas. Minhas plantas representam um paradoxo de minha maturidade. Ao mesmo tempo que percebo que já envelheci o suficiente a ponto de valorizar as samambaias que minha mãe pendura em sua varanda, sei que me apeguei às mudas justamente por serem quietas (e fáceis). Apesar de que, ultimamente, elas têm falado mais do que deveriam. Uma delas suplica, baixinho, por luz solar direta. Abro a janela e admiro enquanto ela se banha. Tenho inveja da fotossíntese delas; tal capacidade me pouparia de encarar a panela de pressão. Pedem água também, desesperadas. Ofereço-lhes de dias em dias, coitadas; sou um algoz. Mas acho que elas gostam de mim e às vezes só querem conversar. Talvez eu tenha aprendido a escutá-las; ou talvez eu esteja infectado e isso seja um sintoma pouco compreendido do vírus, não sei.

Tenho uma pilha de livros para ler. Sinto um prazer imenso ao possuir vários livros empilhados no "cantinho dos livros a serem lidos" desde que eu esteja, no presente momento, lendo um deles a todo vapor. Pois isso se volta facilmente contra mim quando deixo a leitura de lado por alguns dias. Daí a pilha de páginas e mais páginas pendentes começa logo a gritar "meu lindo, por que você nos comprou então?". E como gritam alto! Aquilo vira um tormento, e os livros debocham da minha possível incapacidade de terminar algo que eu comecei.  E assim, acabo sendo feito de refém, e preciso lê-los para que não me matem.

Também virei refém de um aplicativo de celular para realização de exercícios físicos diários, em casa. Ele apita sempre às dezenove horas, me intimando a pegar o colchonete e proceder com a sequência da vez. Francamente, eu só me coloco em furada! A voz eletrônica que me "motiva" é a mesma da moça-padrão dos aplicativos para motoristas. "Fle-xão de bra-ços em lo-san-go". Irritante. E depois de várias repetições, ela emenda um "Se estiver muito difícil, apoie os joelhos no chão". Olho para o celular, rindo de constrangimento, porque a maldita deduz corretamente que eu estou exausto. Mas não apoio, orgulhoso que sou. E ai de mim se eu deixar de me exercitar algum dia. Fica ali na tela, um buraquinho no dia pulado, faltando o selo de "cumprido". E sem os selos, eu não consigo alcançar o troféu dourado que o aplicativo me promete ao final dos dias de desafio. Um horror.

Como alívio, eu poderia supor que os filmes e séries seriam os meus melhores amigos nesse período. Mas não. Na maioria das vezes, deixo a TV ligada apenas para ouvir vozes humanas (senão eu escuto as plantas). Na verdade, eu não sei se possuo grandes aliados tecnológicos por aqui, pois desconfio de que não sejam tão amigos; todos têm um lado sombrio. Mas tenho, sim, um grande inimigo inegável: eu mesmo. Descobri que deixar de fazer algumas coisas de que eu gostaria ou que deveria fazer tem menos a ver com falta de tempo e mais com falta de vergonha na cara. Assim mesmo, com essa grosseria. E é desagradável perceber isso. Mas há o lado bom, é claro; sempre há. Fica evidente que muitas coisas estão em minhas mãos, e sempre estiveram.

Não vou mais procrastinar. Mas antes, deixa o vírus passar.

[Olá! Meu nome é Renan e o meu hobby é escrever. Se você gostou desse texto, por favor, curta/comente/compartilhe. É o meu combustível para continuar escrevendo 😊]
instagram: @renan.mar | facebook: nuances.r

Comentários

Postar um comentário

Deixe seu rastro por aqui!

Postagens mais visitadas deste blog

Bluetooth

Hoje eu me lembrei daquelas noites no carro, quando eu ia te buscar e ficávamos durante algum tempo estacionados ouvindo nossas músicas. Elas se tornavam “nossas” músicas a partir do momento que tocavam ali, em meio ao nosso cenário de carinho e entrega. Celulares emparelhados, o meu ou o teu, deixávamos tocar o que viesse. E assim, sem querer, montávamos a playlist de uma história. Você deitava no meu ombro e me contava sobre o seu dia e também sobre o seu passado; coisas bobas quaisquer que a minha mente inquieta se esforçava para assimilar, palavra por palavra (eu, que não sou de perguntar muito, ficava todo curioso), tudo para que eu pudesse saber o máximo sobre você. Vez ou outra você se lembrava de alguma música e insistia para que a ouvíssemos juntos. Quando era o meu celular que estava conectado, você pedia gentilmente para mudar para o teu. Mas não ficávamos numa só das tuas canções. L

Deixa eu dizer que te amo...

A vida oferece, a todo instante, momentos sutilmente encantadores para que possamos apreciar. Mas, às vezes, por falta de sensibilidade, pressa ou mesmo pura distração, nós não percebemos. Por sorte, quiseram as estrelas que no último dia dez de maio eu estivesse aguçado o suficiente para que não deixasse de reparar numa pequena graça em forma de coincidência. Foi o domingo de Dia das Mães, uma das poucas vezes em que estive longe da minha mãe nessa data. Era noite, e eu já havia conversado com ela pelo telefone e renovado as declarações do amor mais sincero que possuo. Ficou feliz com as flores que eu enviei para a sua casa. Quando eu vim para São Paulo, uma das minhas maiores angústias vinha da ideia de ficar longe da minha família. Porém, hoje eu até me sinto privilegiado por morar razoavelmente próximo de todos. O Rio de Janeiro é logo ali. Se não fossem tempos de pandemia, eu teria passado esse dia, mais uma vez, ao lado de dona Rose. Entretanto, eu me encontrava em minha casa naq

A travesti da padaria

Era madrugada de sábado para domingo, quase amanhecendo, e eu estava tomando café numa dessas imensas padarias paulistanas, após curtir a noite, numa época em que a pandemia ainda era algo impensável para nós. Qualquer carioca suburbano (feito eu) que nunca tenha passado tempo suficiente em São Paulo talvez não seja capaz de compreender que frequentar as padarias da maior cidade do Brasil vai muito além de simplesmente esperar numa fila para comprar pão, leite e manteiga. As padarias de São Paulo são palcos de confraternizações e do surgimento de grandes amizades e amores sob a garoa. Enquanto idosos comem brioches num canto, jovens eufóricos se reúnem noutro para aumentar os níveis de glicose após uma noite de bebedeira (ou para beberem ainda mais). Essas padarias possuem catracas nas entradas, mesas confortáveis, garçons, balcões de atendimento rápido, pratos exclusivos da casa (muitos deles até se tornam famosos na cidade toda) e estão quase sempre cheias

Encontros

Não existe amor à primeira vista. O que existe é conexão no primeiro encontro: são olhares e sorrisos em sincronia, beijos avassaladores, encaixe perfeito de corpos e boas ideias que batem. Em outras palavras, um pequeno pedaço do paraíso que desce angelicalmente sobre você. Mas não se iluda, isso não é amor. É entretenimento a dois, distração e fantasia compartilhada. Não que essas coisas não sejam sinceras; elas também são. Um simples encontro também é cheio de verdades, mesmo que ele seja casual. Aliás, é difícil pensar em algo mais genuíno do que os nossos desejos; todos eles, dos mais nobres aos mais carnais. Além disso, acredito que poucas pessoas sejam tão teatrais ao ponto de conseguirem simular com desenvoltura um entrosamento que não existe com alguém.  Logo, aquilo que foi bom numa noite calorosa também é  legítimo, ainda que tudo tenha se dissolvido à luz do sol na manhã seguinte.  Como no célebre soneto de Vinicius de Moraes, no “que seja infinito enquanto dure", p