Pular para o conteúdo principal

Balões

Não teremos festas juninas esse ano devido à pandemia. Começo esse texto logo com essa constatação desagradável; ao menos para mim, pois desde criança as festas juninas são as minhas preferidas entre as festividades anuais. Por vários motivos. O frio (mesmo que sutil) que o sudeste brasileiro permite nessa época do ano e que a gente tenta aliviar com uma fogueira aconchegante. As comidas típicas, que para mim são melhores até mesmo do que os quitutes natalinos. A fantasia caipira, a quadrilha e as músicas. Como é gostoso ouvir, cantar e deixar-se envolver por “Pagode Russo” de Luiz Gonzaga, entre tantas outras canções tão representativas.

Existe algo nas festas juninas que as diferem de todas as outras tradicionais. Ao mesmo tempo que é um evento para todas as idades, ela traz consigo um certo clima de sensualidade. Diferente do Natal, que é estritamente familiar, santificado e que portanto não promove (ou não deveria promover) condições para que você e sua prima se agarrem depois da ceia enquanto o tio da piada do pavê já está pra lá de bêbado, as festas juninas abrem espaço para o flerte. Está frio, um xote maroto toca, a quadrilha está para começar; escolham seus pares! Ao sermos envolvidos pelo caracol da quadrilha, ao teatralizarmos o casamento na roça embriagados de quentão, a gente se diverte.

Algumas brincadeiras típicas eu quase nunca vi nas festas que frequentei. “Pau de sebo” é uma delas. Mas eu até compreendo a ausência dessa, visto ser uma brincadeira difícil de preparar, estando mais restrita às festas maiores e patrocinadas (afinal, é preciso fincar na terra um pau bastante comprido besuntado de algo escorregadio!). Barracas do beijo, infelizmente, eu só as vi nos gibis do Chico Bento. Nem nos arraiás da universidade eu encontrei barracas do beijo. Uma pena, pois acho a brincadeira muito válida. A gente tem mais é que beijar mesmo. É aquela coisa: se organizar direitinho, todo mundo beija.

Mas o que verdadeiramente me faz falta nas festas juninas são os balões. Meu pai e meus tios costumavam soltar o balão-caixote, aquele pequeno em formato de, ora, caixote. Daí eles instalavam a bucha, acendiam, e o balão lentamente iluminava-se e ganhava força. Eu, ali do lado, sentia o meu rosto aquecer e minha empolgação inflar tal qual o balão. Aquilo me fazia feliz; eu sorria conforme a chama aumentava. A bucha pingava, o ar quente se tornava suficiente para o voo, e eles largavam o balão, que subia muitas vezes cambaleando devido ao vento, para o meu deleite infantil. E então eu ficava parado, acompanhando por infinitos minutos o objeto subindo, perdendo sua forma, e depois confundindo-se com as estrelas, até sumir de vista. Aquilo me fascinava.

Um balão é como uma memória. Seguro-o fervido no presente, sinto sua chama viva, atual, sua superfície brilhante sob o meu controle. É o ato e o fato; é o agora. Mas depois o solto (é preciso) para que torne memória. De começo, uma memória detalhada. E então o balão sobe, e vou lembrando, e continuo a lembrar, e ele subindo, e revisito o balão. Mas conforme o tempo passa, eu lembro cada vez menos, o balão vai perdendo o seu formato à medida que sobe, até que a lembrança se torna um pontinho de luz, sem forma, sem detalhes, apenas uma turva lembrança daquilo que um dia foi. Até que some. Some? Existem balões que jamais somem na intimidade do céu de cada um, dizem. Ainda estou para comprovar.

Hoje, entretanto, é preciso um olhar mais endurecido ao aceitar (e entender) que soltar balão tornou-se crime. Balões causam danos ambientais, podem incendiar matas, lares e prejudicam até mesmo a aviação. Não são poucos os exemplos que podemos encontrar por aí. É curioso que, na maioria das vezes, nós enxergamos as coisas somente até onde elas nos parecem belas, ignorando suas consequências. Como pode uma coisa tão bonita, tradicional e de natureza quase pueril ser considerado um crime? Ora, é somente uma boa ideia que surge da nobre humildade humana em apenas querer iluminar um pouco o céu junto com as estrelas numa noite fria. Que mal pode haver nisso?

O balão me lembra aquelas boas intenções que no fim das contas podem acabar muito mal. Quantos balões soltamos por aí na intenção de propagar o bem, de enaltecer supostos bons valores, vislumbrando apenas iluminar o céu e alegrar a todos, mas que na verdade geram destruição e sofrimento? O balão do moralismo, o balão do patriarcalismo, o balão do que o senso comum considera ser justiça (esse é perigosíssimo!), o balão que diz que mulher deve ficar em casa cuidando dos filhos e servindo ao marido, o balão que enaltece a família tradicional em detrimento de outras configurações familiares, o balão de quem acha mais conveniente um branco assumir uma posição social de destaque do que um preto. Vários balões que carregam preconceitos disfarçados e que muitos não admitem que soltam, mas soltam.

São balões inflados pelas ideias ultrapassadas de cidadãos de bem que só querem se divertir, iluminando o céu noturno com aquilo que aprenderam que é bonito, que é certo, sem levar em consideração que sob esse mesmo céu surgem todos os dias novas situações com as quais precisamos aprender a lidar. É chato crescer e tomar conhecimento do perigo que um balão representa quando cai lá do outro lado, no terreno alheio. É chato, mas é necessário. Não é fácil entender que coisas tão tradicionais e que pareciam funcionar tão bem aos nossos olhos são, na verdade, bastante nocivas, não só para outras pessoas, mas para a sociedade como um todo.

Consideramos nossos conceitos e atitudes como balões que sobem, belos e iluminados, convenientes e justos, pairando sobre o conforto de nossa festa junina ao lado de nossa família e amigos. Mas não fazemos ideia (ou não paramos para pensar) sobre os danos que eles podem causar. É preciso tempo para finalmente entender que algumas coisas não são exatamente boas. Talvez fosse mais fácil não ter consciência de que balões causam estragos  ̶̶  como era antigamente  ̶̶  mas isso não seria o melhor. Todo conhecimento é necessário em prol de uma sociedade mais justa, por mais que ele quebre inocências e promova rupturas dolorosas com nossos velhos ideais.

Entretanto, eu entendo você. Eu também gostaria muito de preservar a idoneidade de minhas doces memórias. E sendo assim, eu gostaria mesmo era de viver num mundo onde os balões jamais caíssem. Que os balões não machucassem ninguém. Que o meu céu junino iluminado fosse o céu de todos. Que os balões apenas ascendessem em verdadeira virtude e luz, até que desaparecessem de vista, absorvidos como oferta pelo bondoso Deus que, lá do céu, aí sim, veria com bons olhos todo esse arraiá.

[Texto reciclado de uma postagem que fiz no Facebook há algum tempo, mas que não cheguei a publicar nesta página]

[Olá! Meu nome é Renan. Se você gostou desse texto, por favor, curta/comente/compartilhe. É o meu combustível para continuar escrevendo 😊]
instagram: @renan.mar | facebook: nuances.r

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Caixa de papelão

Ontem à noite eu me vi diante de uma caixa de papelão, dessas que guardam o passado e se amontoam no cantinho das memórias. De trás dela saiu uma borboleta azul, que veio pousar em meu dedo. Revelou-se tão rapidamente que me pareceu enfurecida a princípio. Entretanto, frágil e inocente, a borboleta tinha numa das asas o desenho de um sorriso. Em seguida, abri a caixa e logo ouvi a melodia de um hit de verão que vinha lá do fundo. Todas as caixas de memórias são também caixas de músicas, e das boas.
O volume da canção aumentava à medida que se intensificava no ar a maresia carioca: quente, úmida, descompromissada e irremediavelmente passional. Foi quando um filete d'água espirrou da caixa, direto em meu olho. Ao tentar bloqueá-lo com a palma da mão, o filete se tornou mais espesso, transformou-se num jato forte e não demorou muito para que uma onda quebrasse sobre minha cabeça. Cambalhotas mil, encontrei-me estirado nas areias de Copacabana, e você  em cima de mim. Estáva…

As estrelas não se importam

Mais uma vez eu estava sentado na cadeira do escritório, cabelo penteado, todo adultinho, na segunda metade dos anos 1990. Durante as férias escolares, meu pai adorava me levar para o trabalho com ele, na Cinelândia; e eu adorava ir. Ele sempre me colocava numa mesa em L só para mim, com computador, canetas, papéis para rascunho, grampeadores, tudo, que provavelmente pertenciam a algum funcionário recém-demitido. A Mesbla havia decretado falência e, cada vez que eu voltava lá com o meu pai, havia menos gente e mais computadores órfãos espalhados pelo departamento administrativo. Eu até podia escolher onde queria ficar.
Eu ainda não tinha computador em casa naquela época e, portanto, ter um só para mim durante todo o expediente do meu pai era maravilhoso. Assim que chegávamos, meu pai me apresentava à sociedade daquela firma: uns caras maneirinhos que faziam cafuné em mim no estilo "E aí garotão, beleza, você é o famoso Renan então? Teu pai fala muito de você, bom aluno mas não jog…

O porquinho

A velha Teresa somava oitenta anos de idade nas costas e ainda possuía carinho de sobra para preparar o café com leite de seu esposo. A tranquilidade dava o tom daquela manhã, que se descortinava sem pressa, como manda a boa cartilha dos domingos. Um pequeno beija-flor desconfiado se aproximava do basculante da cozinha, onde um bebedouro encoberto por coloridas pétalas de plástico chamava a sua atenção. No canto da pia, um radinho de pilha engordurado resistia ao tempo, valente, permitindo que Roberto Carlos cantasse.
Nosso amor é demais E quando o amor se faz Tudo é bem mais bonito Nele a gente se dá Muito mais do que está E o que não está escrito Enquanto o café ia perfumando a casa ao coar num pano encardido do pó de outras manhãs, Teresa se atentava no beija-flor. O pássaro bicou duas vezes a água misturada com açúcar antes de ser tomado por uma ousadia que fez com que ele entrasse pelo basculante e batesse as asas, imóvel, diante da idosa. Nesse instante, um riso impo…

Deixa eu dizer que te amo...

A vida oferece, a todo instante, momentos sutilmente encantadores para que possamos apreciar. Mas, às vezes, por falta de sensibilidade, pressa ou mesmo pura distração, nós não percebemos. Por sorte, quiseram as estrelas que no último dia dez de maio eu estivesse aguçado o suficiente para que não deixasse de reparar numa pequena graça em forma de coincidência.
Foi o domingo de Dia das Mães, uma das poucas vezes em que estive longe da minha mãe nessa data. Era noite, e eu já havia conversado com ela pelo telefone e renovado as declarações do amor mais sincero que possuo. Ficou feliz com as flores que eu enviei para a sua casa. Quando eu vim para São Paulo, uma das minhas maiores angústias vinha da ideia de ficar longe da minha família. Porém, hoje eu até me sinto privilegiado por morar razoavelmente próximo de todos. O Rio de Janeiro é logo ali. Se não fossem tempos de pandemia, eu teria passado esse dia, mais uma vez, ao lado de dona Rose.
Entretanto, eu me encontrava em minha casa naqu…

O espirro nos tempos do corona

Fila do supermercado. Minha cesta de compras continha biscoitos, chocolates e refrigerantes  ̶̶  pouco adequada a um adulto que já cruzou os trinta, mas que me fez feliz. As pessoas aguardavam, cada uma, sobre uma fita adesiva que marcava o lugar no chão e que, juntas, garantiam a distância de pelo menos 1 metro e meio entre elas. Eu era o segundo da fila, sem considerar a cliente que já estava terminando de passar as compras no caixa.
Na minha frente, em primeiro, estava uma senhorinha magra, curvada, de cabelos curtos e totalmente brancos, integrante de longa data do grupo de risco da covid-19. (Não entendi por que ela não estava na fila preferencial.) Todos de máscara, sem exceção: do pessoal da limpeza aos operadores de caixa, da criança ao idoso. Não percebi São Paulo adormecendo tanto assim durante esses meses de quarentena, mas a máscara todo mundo aprendeu a usar. Por decreto.
Todos menos eu, admito. Todas as minhas máscaras vão caindo enquanto eu …