Pular para o conteúdo principal

Piracema

Quando fui a Bonito (MS) com o meu amigo Samuel, eu não imaginava que, dentre as atividades que faríamos, a de que eu mais fosse gostar seria a experiência de flutuar no Rio Sucuri. Talvez eu apostasse no roteiro de trilhas ou na famosa visita à Gruta do Lago Azul, cartão postal do Mato Grosso do Sul. São todos passeios incríveis, pois Bonito oferece uma natureza tão espetacular e exótica que chega a parecer irreal para cidadãos residentes em cidade grande. É como se tudo aquilo fosse de mentira; uma realidade virtual. Mas foi no Rio Sucuri que eu me vi mais cercado de poesia.

(Evitei de perguntar o porquê do nome do rio, temendo a resposta. É provável que o guia turístico tenha explicado e eu não tenha prestado atenção. Algumas vezes a gente apenas respira fundo e entrega a Deus.)

Bonito não decepciona. Tampouco o Rio Sucuri. Suas águas cristalinas são as águas de rio mais lindas que vi até hoje. Elas deixam que o fundo do rio exponha toda a sua beleza para o visitante que, sempre admirado, observa os tons de verde e azul que explodem na superfície. A densa vegetação ribeirinha e o canto das araras livres gritam para os nossos sentidos que estamos em meio a um lugar selvagem, quase intocado pelo homem. E, munidos de máscara e snorkel, é possível ver peixes coloridos aos montes e a vegetação fluvial por debaixo daquelas águas místicas—o que talvez, para muitos, seja o ponto alto de estar ali.

Entretanto, o que mais me fascinou durante todo o passeio foi a flutuação em si; estar à mercê da suave correnteza do rio—deixar-me ir. Permitir que as águas me levassem enquanto eu ficava imóvel na superfície foi um doce acalento. Entende-se que naquele momento nada mais importa; aceita-se o destino, que é certo e que é bom. Foi uma das experiências mais relaxantes que já tive. Não há espaço para a pressa, não existem cobranças; nada precisa ser feito. Tudo já foi traçado pelas águas. E você somente vai, à deriva na mudez da superfície, deitado olhando para o céu, sendo acompanhado pelas nuvens. Eu diria que é terapêutico.

Dizem os poetas que a vida é como um rio, em seu percurso irremediável rumo ao oceano. Que a gente brota da terra e simplesmente escorre ladeira abaixo até se deparar com a imensidão da morte. Mas eu não creio que seja bem assim; os poetas terão que me desculpar! A vida é um rio, sim, mas que seguimos no sentido da subida, contra a correnteza. Deixar-se ir na vida real é um perigo. Quem exclusivamente se deixa ir está fadado aos mandos e desmandos alheios, e aos vícios—além do risco de ser devorado por crocodilos à espreita.

As águas que descem o rio são de uma serenidade óbvia que é incompatível com a vida de quem luta. Além da correnteza que ajuda, não existem bifurcações rio abaixo terminando em lugares diferentes, não existem escolhas a serem feitas; basta esperar. Mas da vida a gente nada pode esperar. É subindo o rio que nos deparamos com as oportunidades e com as escolhas. Elas são os afluentes que encontramos desembocando caminho acima e que nos fazem perguntar a nós mesmos se continuaremos no rio principal ou se entraremos em algum deles. E uma vez feita a escolha, não há volta.

É claro que nem todo mundo enfrenta a mesma subida. Infelizmente os rios de alguns são mais caudalosos do que os de outros. Mas todos sobem; todos precisam, ao menos, tentar subir. Pois viver é subir o rio, encarando diferentes níveis de dificuldade ao longo do percurso. É cascatinha na fuça o tempo todo. Se você parar, o rio te arrasta de volta, e eventualmente te afoga. Se vacilar, volta-se ao ponto de partida, perde-se tempo, desmorona-se tudo o que foi construído, muito mais rápido do que o tempo que você levou para chegar até ali.

A vida é a piracema, em que os peixes precisam pular degraus, enfrentar a força das águas, até que encontrem lugar seguro para depositarem seus ovos—geralmente em locais mais rasos. O rio leva embora os ovos que foram mal depositados; eles não vingam. A gente desperdiça tanto os nossos esforços... Mas faz parte; os peixes aprendem e a gente também. (Ou não.) Na verdade, é um privilégio poder aprender. Infelizmente alguns peixes nem isso conseguem, pois são capturados e devorados por aves e ursos num salto desatento. E fim. O prosseguir, por si só, talvez já seja uma dádiva.

No final, encontra-se a nascente. Veja só que ironia: o fim de tudo é se deparar com a origem, ali onde talvez se compreenda a essência do rio escalado. Molham-se os pés numa poça modesta, formada por um corpo d'água que brota misterioso; porque no fim de tudo ainda há mistério. Reduz-se tudo a um filete, apenas um filete, que cabe na palma da mão e que escorre entre os dedos; é a (falsa) sensação de entendimento das verdades e das certezas sobre tudo.

E então morre-se ali, na pequena nascente, onde a água é bem mais limpa e tranquila, adequada à alma cansada que agora vai repousar.

Olá! Meu nome é Renan. Se você gostou deste texto, comente e compartilhe nas opções após a foto. É o meu combustível para continuar escrevendo 😊
instagram: @renan.mar | facebook: nuances.r

Peixe colorido de água doce.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Deixa eu dizer que te amo...

A vida oferece, a todo instante, momentos sutilmente encantadores para que possamos apreciar. Mas, às vezes, por falta de sensibilidade, pressa ou mesmo pura distração, nós não percebemos. Por sorte, quiseram as estrelas que no último dia dez de maio eu estivesse aguçado o suficiente para que não deixasse de reparar numa pequena graça em forma de coincidência. Foi o domingo de Dia das Mães, uma das poucas vezes em que estive longe da minha mãe nessa data. Era noite, e eu já havia conversado com ela pelo telefone e renovado as declarações do amor mais sincero que possuo. Ficou feliz com as flores que eu enviei para a sua casa. Quando eu vim para São Paulo, uma das minhas maiores angústias vinha da ideia de ficar longe da minha família. Porém, hoje eu até me sinto privilegiado por morar razoavelmente próximo de todos. O Rio de Janeiro é logo ali. Se não fossem tempos de pandemia, eu teria passado esse dia, mais uma vez, ao lado de dona Rose. Entretanto, eu me encontrava em minha casa naq

Quarentena

Da janela no nono andar, vejo as luzes da cidade brilhando cada vez mais. Anoitece em São Paulo e o frio de maio já começa a dar as caras. Disseram que a moléstia veio lá do Oriente; não se sabe se por meio de avião, navio ou vacilo. Pedem que eu não saia de casa, pois a tosse é traiçoeira e o agravamento tem como um dos pilares uma roleta russa medonha. Além do mais, eu não me perdoaria se ajudasse a enterrar idosos e crônicos. Evito. Sugerem que é a oportunidade de nos conhecermos melhor, isolados. Não deveria ser necessária uma pandemia para isso. Mas como o ser humano não é o ser mais trivial da Terra, as ocasiões vivem colocando em xeque a noção que temos de nós mesmos. Vale a sugestão. Estou me conhecendo sim, e, confesso, me reconhecendo insuportável às vezes. Olho-me através espelho e dou broncas sérias no reflexo. Dedo em riste (às vezes o médio). Faço as pazes comigo para depois me aborrecer novamente. Sou daqueles casais que muito brigam e nunca se separam. Mas

Amor e palavrão

Malvina era uma mulher que todos os dias passava na minha calçada, quando eu era pequeno. De meia idade, sempre embriagada e vestindo um shortinho jeans curto com o botão da frente aberto, Malvina gostava de mandar beijos desbocados para os conhecidos que encontrava pelo caminho: “Te amo, porra!”, dizia para um; “Amo você, caralho!” gritava para outro, com sua voz arranhada de cigarro e cachaça, logo após estalar o beijo na palma da mão e dar tchauzinho de longe. Perdi as contas de quantas vezes Malvina se declarou para mim. Tímido, eu morria de medo daquela mulher, mesmo sabendo que ela jamais pudesse me fazer mal. Tempos depois, correram boatos no bairro de que Malvina havia morrido por ingestão de veneno de rato. De fato, ela nunca mais foi vista. Eu nunca soube se o ocorrido foi acidente, cilada ou vontade própria. Em todo o caso, deu pena. Embora pensasse que as declarações de amor de Malvina fossem muito mais orientadas por insanidade do que por sentiment

O canto do galo

Levantar cedo nunca foi uma de minhas virtudes, embora seja uma obrigação que cumpro. Tenho apego ao travesseiro assim como um bebê perante a sua chupeta. Quase choro todas as manhãs por deixá-lo sozinho, longe do meu calor, esfriando ao longo do dia. O que me salva são os afazeres diários, impostos por uma sociedade que preza pelos primeiros raios de sol. Não me entendam mal: eu adoro as manhãs, e contemplá-las me deixa inspirado. Mas eu realmente sinto uma dificuldade crônica em aproveitá-las nos dias em que eu posso dormir até mais tarde. Em outras palavras, uma preguiça colossal. Não importa o quão cedo eu durma no dia anterior; levantar da cama na manhã seguinte é sempre tarefa difícil para mim. Todas as noites eu ativo o alarme do celular para me despertar quarenta e cinco minutos antes do horário real. E são esses quarenta e cinco minutos que me fazem ir aceitando, aos poucos, o fato de que preciso sair da cama e encarar a vida. Mesmo assim, e

O menino que não tinha TV em casa

Samuel não é meu amigo de longa data, mas eu gostaria que fosse. Nós nos conhecemos no feriado prolongado de novembro de 2018, no Rio de Janeiro. De início, talvez ele tenha se esforçado mais do que eu para que nossa amizade sobrevivesse ao calor carioca (não consigo fazer nada direito no calor, inclusive amizades); e eu lhe agradeço por isso. Se não fosse por ele, eu jamais teria vivido os bons momentos que sua presença me proporcionou até aqui, tais quais o nosso passeio em Bonito (MS) e as incontáveis sociais em nossas casas. Engana-se quem o vê pela primeira vez e pensa que ele é quieto. De uma hora para outra, quando eu menos espero, ele desanda a falar; geralmente, algo interessante. Mas, distraído que sou, por vezes eu me perco em suas palavras. Daí que sou devidamente repreendido. "Repita o que eu estava te dizendo agora...". Entro em desespero, e tento repetir a história com as palavras soltas que ouvi. "Não é nada disso", finaliza ele, decepcionado. Porém,