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Mostrando postagens de Agosto, 2020

O porquinho

A velha Teresa somava oitenta anos de idade nas costas e ainda possuía carinho de sobra para preparar o café com leite de seu esposo. A tranquilidade dava o tom daquela manhã, que se descortinava sem pressa, como manda a boa cartilha dos domingos. Um pequeno beija-flor desconfiado se aproximava do basculante da cozinha, onde um bebedouro encoberto por coloridas pétalas de plástico chamava a sua atenção. No canto da pia, um radinho de pilha engordurado resistia ao tempo, valente, permitindo que Roberto Carlos cantasse. Nosso amor é demais E quando o amor se faz Tudo é bem mais bonito Nele a gente se dá Muito mais do que está E o que não está escrito   Enquanto o café ia perfumando a casa ao coar num pano encardido do pó de outras manhãs, Teresa se atentava no beija-flor. O pássaro bicou duas vezes a água misturada com açúcar antes de ser tomado por uma ousadia que fez com que ele entrasse pelo basculante e batesse as asas, imóvel, diante da idosa. Nesse i

Chuva em São Paulo

Chove em São Paulo, e sei que não há novidade nisso. Nem na chuva, nem em tudo o que ela traz. É apenas o mesmo céu vestindo o mesmo cinza, como se quisesse imitar o concreto do qual essa selva é feita. São as mesmas poças d'água, que se espalham feito minas pelo chão, onde os mais desatentos pisam na ilusão da caminhada segura; até que eles explodem, molhados e cheios de raiva. É a conhecida garoa em sua terra natal, dizendo baixinho para mim que não vai me molhar—e me engana. É tão somente a brisa de agosto, que sopra gelada a pouco mais de setecentos metros acima do nível do mar, e se transforma em vento; às vezes vendaval. Este, por sua vez, cospe chuva através de janelas entreabertas, de onde brotam filetes que escorrem paredes abaixo desbotando tudo. É como se as janelas vertessem lágrimas. E talvez elas chorem mesmo. É possível que tudo chore: os prédios, as casas, a tinta e o asfalto. São Paulo não é das cidades mais fáceis. Quando chove,