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Chuva em São Paulo

Mulher com guarda-chuva em São Paulo à noite

Chove em São Paulo, e sei que não há novidade nisso. Nem na chuva, nem em tudo o que ela traz. É apenas o mesmo céu vestindo o mesmo cinza, como se quisesse imitar o concreto do qual essa selva é feita. São as mesmas poças d'água, que se espalham feito minas pelo chão, onde os mais desatentos pisam na ilusão da caminhada segura; até que eles explodem, molhados e cheios de raiva.

É a conhecida garoa em sua terra natal, dizendo baixinho para mim que não vai me molhar—e me engana. É tão somente a brisa de agosto, que sopra gelada a pouco mais de setecentos metros acima do nível do mar, e se transforma em vento; às vezes vendaval. Este, por sua vez, cospe chuva através de janelas entreabertas, de onde brotam filetes que escorrem paredes abaixo desbotando tudo. É como se as janelas vertessem lágrimas. E talvez elas chorem mesmo. É possível que tudo chore: os prédios, as casas, a tinta e o asfalto. São Paulo não é das cidades mais fáceis. Quando chove, até aquilo que é inanimado sofre.

Que dirá o cidadão. Essa gente com quem cruzo pelas ruas; pessoas tão frias quanto o ar de hoje, encasacadas até as orelhas, preocupadas com sei lá o quê. Com a própria chuva, provavelmente, ou com os seus prazos inadiáveis ao longo da Faria Lima. Um vai-e-vem, uma correria incessante. De longe, cada alma triste e apressada é, na realidade, um pontinho de sonhos abafados, irreveláveis, julgados como ridículos (mas não são). E tudo piora sob esse temporal que mata a fé, a poesia e que encharca os olhos de quem já está acostumado a chorar escondido por entre os becos da cidade.

No entanto, existe algo diferente nos dias chuvosos que é difícil de explicar. Não sei se é todo esse cinza pintado nas nuvens e que, mesmo fosco, parece emitir um espectro de cores ocultas que só eu enxergo. Pode ser que exista alguma coisa na brisa gelada e na garoa sussurrante que me aguçam sensações curiosamente reconfortantes. Talvez sejam os filetes d'água que, ao escorrerem aleatórios e destemidos por paredes e janelas, me servem de exemplo ao me mostrarem novos caminhos. Pode ser até mesmo as poças, que espelham o céu e me fazem crer que elas trouxeram o paraíso de lá—e que eu posso visitá-lo numa só pisada.

O fato é que eu me mantenho blindado à chuva e às baixas temperaturas. E eu sei que você também. Diferente de muitas pessoas, você se encontra numa constante alegria tropical debaixo desse céu que desaba sobre nós. E me lança o teu melódico bom-dia enquanto eu esfrego meus sapatos enlameados no tapete e fecho o guarda-chuva, desajeitado. Por um segundo, um segundinho, você até se esquece do protocolo vigente e me oferece a mão macia para o cumprimento, ainda que ultimamente eu não deva tocá-la (mas eu a tocaria se ninguém estivesse olhando). Tua máscara tenta esconder, em vão, esse sorriso que escapa pelas ruguinhas dos teus olhos apertados.

Talvez você nem se dê conta, mas você abriga dentro de si uma ilha de veraneio, onde o sol reina absoluto e descansa sobre um mar de água morna e cristalina. Gosto de acreditar que a tua simpatia seja o portal que me leva até lá. Pois a verdade é que a minha pele é impermeável e vence a chuva e o frio de tal maneira que, aqui dentro, tudo permanece ardendo. E eu, meu bem, mal posso esperar pelas férias.

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