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Caixa de papelão


Ontem à noite eu me vi diante de uma caixa de papelão, dessas que guardam o passado e se amontoam no cantinho das memórias. De trás dela saiu uma borboleta azul, que veio pousar em meu dedo. Revelou-se tão rapidamente que me pareceu enfurecida a princípio. Entretanto, frágil e inocente, a borboleta tinha numa das asas o desenho de um sorriso. Em seguida, abri a caixa e logo ouvi a melodia de um hit de verão que vinha lá do fundo. Todas as caixas de memórias são também caixas de músicas, e das boas.

O volume da canção aumentava à medida que se intensificava no ar a maresia carioca: quente, úmida, descompromissada e irremediavelmente passional. Foi quando um filete d'água espirrou da caixa, direto em meu olho. Ao tentar bloqueá-lo com a palma da mão, o filete se tornou mais espesso, transformou-se num jato forte e não demorou muito para que uma onda quebrasse sobre minha cabeça. Cambalhotas mil, encontrei-me estirado nas areias de Copacabana, e você  em cima de mim. Estávamos nus; era como gostávamos de estar. (Foi como você me ensinou a estar diante de ti.) Um grupo de sambistas vindos de quiosque em quiosque nos rodearam em coro de pandeiros, e batucaram o amor, a troco de algumas moedas. A praia inteira refletida em seus olhos; especialmente eu, que tanto dancei livre e absorto em suas pupilas.

Vasculhei mais a caixa enquanto o sono não vinha. Distração sobre o travesseiro, posso assim dizer. Um trilho de montanha-russa saiu aos poucos lá de dentro, e fez sobes-e-desces no ar, bem diante de mim. Um trem em alta velocidade veio barulhento da escuridão da caixa, e você sorrindo no primeiro vagão me puxou para nos divertimos lado a lado. Encaramos o frio na barriga de mãos dadas, gritos de euforia, lábios trêmulos. Num embalo para cima, após uma descida, o trilho acabou. Fomos então lançados ao céu e, embora desprotegidos do mundo, tínhamos no abraço um do outro o calor ideal para que florissem nossas sementes tímidas. Entregues ao vento, logo atravessamos feito almas—penadas e apaixonadas—a  fuselagem de um avião que havia decolado há pouco rumo à Fortaleza. E poderia ser Salvador, ou Istambul, no meio do deserto, qualquer lugar. Nunca importou onde, eu ia mesmo assim. E não havia outro lugar no mundo que eu gostasse de estar que não fosse com você.

Existem ainda muito, muito mais coisas dentro da caixa. Cartas à mão e presentes cheios de significados, ingressos de cinema e teatros, açaí e pipoca, gasolina e asfalto, beijos nos estacionamentos. Get a room!, diz a expressão em inglês. Essas coisas que foram nos construindo, eu você, d'um acaso e coincidência que nos pegaram desprevenidos. Aliás, é como surgem realmente as melhores coisas: quando menos se espera, conforme reza o bom e velho clichê. O excesso de controle é a receita para uma vida insossa, o acaso é o melhor tempero, e tolo é aquele que ainda não entende (e não fica em paz com) isso.

Depois saíram também dois pássaros vigorosos de dentro da caixa. Um era todo vermelho e tinha o bico no formato de um coração. O outro era cinzento e tinha a cara dos demônios que nos amedrontavam. Eles brigavam no ar, sem trégua. Até que o vermelho, valente porém exausto, sucumbiu ao outro. Sua coloração era de sangue vivo, pulsante, da paixão avassaladora que um dia pairou sobre nós, mas que se tornou sangue de ferida, escorrido por entre suas penas. Por fim, o pássaro caiu desbotado. Nesse momento, olhei para você e demos um último e necessário adeus. E assim você voltou para a caixa, onde mora hoje e onde sempre irá morar.

Essas caixas de papelão são assim mesmo. Ficam por aí, ficam por aqui, guardando coisas. Encontros, viagens, declarações. No início, era uma caixa grande, pesada e tinha o cheiro forte de um monte de coisas confusas que me causavam ânsia; ocupava tanto espaço que era mais confortável que eu estivesse dentro dela, boiando em sentimentos frescos, ácidos, que me corroíam até os ossos, embora tudo ali já não me pertencesse mais. Hoje é só uma caixinha modesta, posta num canto e guardada por uma borboleta azul que sorri pela asa. É a borboleta do carinho, é a etiqueta da caixa. Tudo que vi, vivi e senti com você (e por você) ficou resumido numa borboleta suave, bonita; azul tal qual são as coisas serenas. Tão leve que quando eu sopro, ela treme toda e ameaça tombar. Mas voa. E voa firme, imbuída por força mágica, carregando a caixa de papelão sob suas patinhas quase invisíveis para algum outro canto aqui dentro.

Eu não posso me desfazer da caixa, e nem há motivo para isso. Ela é parte importante do que eu fui e principalmente do que hoje sou. Daí que vez ou outra—enquanto escovo os dentes e observo através do espelho os meus olhos inchados de sono, em meio à poeira suspensa revelada pelos primeiros raios de sol—daí que vez ou outra eu passo diante da caixa de papelão, vagando perdido em meus labirintos. E então eu paro e me pego reparando na borboleta que a guarda, e ela pousa em mim; assim, como quem não quer nada, quase sem querer. E com a borboleta eu sorrio o sorriso de sua asa, só por alguns segundos. Apenas lembranças, boas e bobas, que vem e vão. Rio de Janeiro, praia, cinema, montanha-russa. Nós dois contidos no largo abraço do Cristo Redentor, extasiados pela maresia e embalados por hits e pandeiros. A gente não esquece.

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