Pular para o conteúdo principal

Beijo no semáforo

semaforo vermelho com desenho de coração

Já passava da meia-noite quando eu estava em meu carro voltando para casa após um encontro com amigos. Próximo ao cruzamento com uma avenida, o carro na minha frente foi reduzindo a velocidade assim que o semáforo ficou amarelo. Acredito que ninguém se sinta confortável em parar tarde da noite nos semáforos de cidades grandes, mas aquele era um cruzamento com uma avenida importante, onde o fluxo de carros se mantinha razoável mesmo durante a madrugada. Não tinha como avançar.

Através do vidro traseiro do carro da frente, eu pude notar que dentro dele havia um casal, e que o homem era o motorista. Aquele semáforo já era um velho conhecido meu; eu sabia que ele demoraria no vermelho. E parecia que o casal também sabia disso, pois assim que pararam o carro, observei que o homem puxou o freio de mão. Em seguida, ambos se olharam. A penumbra causada pela luz dos postes era suficiente para que eu conseguisse enxergar o contorno iluminado daqueles dois rostos, que para mim pareciam duas pinturas egípcias, desenhadas de perfil, pescoços torcidos. 

A mulher tocou delicadamente a face do motorista com a mão esquerda, e foi retribuída por ele com uma carícia que começava na testa e ia deslizando pelos seus cabelos até chegar aos ombros. Não demorou muito para que eles se enroscassem num beijo profundo, apaixonado; um beijo daqueles de encontro em estação de trem, de quem amargava na saudade e esperou por aquilo durante dias, semanas, meses, quiçá anos.

O mais interessante daquele beijo foi o fato de que me pareceu ter sido a mulher que puxou o homem para si. Talvez ela estivesse cansada de esperar a iniciativa do rapaz ou talvez já tivesse entendido que no Séc. XXI ela podia ser dona de suas próprias vontades, sem precisar esperar nem um segundo por nada. Não tive como saber se aquele era o primeiro beijo entre eles; só posso dizer que ele ardia como se fosse, e demorava como se fosse.

Todo mundo deveria experimentar um beijo diante do semáforo; esse desejo incapaz de aguardar o momento mais adequado e ao qual nos entregamos pouco a pouco ao longo das migalhas que o tempo oferece. Nenhum minuto vago pode ser desperdiçado e qualquer sinal fechado se torna oportuno—freio de mão, pisca-alerta! Uma paixão que às vezes exagera e testa os amortecedores e embaça os vidros de um carro movido a gasolina e luxúria, onde o impulso esbarra no pudor de guardas e pedestres desavisados.

Os amantes daquele carro contrastavam com a frieza das ruas, d'onde surgem o tempo todo pessoas descoloridas, formais e que, por terem suas almas já devastadas pela rotina, não conseguem mais compreender que nas pupilas de outros nadam mil desejos. Elas dão valor excessivo a esse comedimento que não permite aproveitar o vermelho de um semáforo, e que ainda assim atrapalha o trânsito de uma cidade que grita por verde através das rachaduras do concreto.

Pessoas essas que escrevem poesias mornas, e poesias essas que nunca podem soar nem tristes e nem felizes demais. O medo da pieguice por parte de quem já sofreu as pancadas da vida faz com que algumas palavras boas assustem: tesão, víscera, furor, êxtase.

Mas eu não posso me retrair por causa de meia dúzia de desilusões vividas, e deixar assim de vislumbrar as pequenas oportunidades de prazer que os sinais fechados no caminho me oferecem. Eu me preocupo mais em ter a minha imagem desbotada do que tê-la manchada, pois o meu maior medo é passar despercebido pela vida, ofuscado por regras estúpidas e convenções questionáveis. Ou pior: aprisionado nas coisas que eu mesmo inventei para mim.

Aquele sinal finalmente havia ficado verde, mas o casal continuava entrelaçado. Esperei alguns segundos antes de buzinar—por aviso e não por impaciência. No susto, o rapaz se afastou da moça e olhou para o meu carro através do retrovisor interno. Pude perceber o quão atrapalhado ele ficou: descoordenou-se nos movimentos e ameaçou sair com o carro antes de baixar o freio de mão.

Decidi então ultrapassá-los e, ao ficar ao lado do motorista, vi que ele me sorria constrangido. Acredito eu ter esboçado um sorriso de cumplicidade de volta. Enquanto eu ia me afastando, já à frente, eu olhava o carro deles pelo espelho até que finalmente saíssem do lugar e virassem na avenida acelerados, feito dois gatos no cio escorraçados por um balde d'água.  

Bobagem. Os gatos no cio não deveriam temer. Pelos postes da rua que criam a penumbra perfeita, pelo sinal fechado que favorece o beijo e pelos vidros que se embaçam com os corpos suados e contorcidos em miados baixinhos, eu queria poder dizer mais claramente àquele casal que estava tudo bem.

Belchior que me desculpe, pois se fosse vivo ainda, talvez ficasse insatisfeito com a adaptação um pouco mais libidinosa de sua letra; tudo para dizer que vivemos hoje numa época em que vencemos, e que o sinal agora está aberto para nós, jovens ou velhos. Sinal verde esse que atravesso, no qual eu me jogo. Pois de vermelho em minha vida, só se for o fogo.

Olá! Meu nome é Renan. Se você gostou deste texto, comente e compartilhe nas opções lá embaixo. É o meu combustível para continuar escrevendo. Leia também os outros textos 😊
- instagram: @renan.mar
- facebook: nuances.r

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Gonorreia

Ontem fizeram uma socialzinha aqui em casa, coisa de Marcia, sua amiga e seu namorado. Mamãe detestava esse entra-e-sai de gente na sala dela, bastou morrer para que minha irmã transformasse isso aqui num boteco de esquina. Não, não. Pensando bem, se mamãe ainda desse o ar de sua desgraça nesse mundo, talvez ela não se importasse com essa gente de Marcia pisando em seu tapete, afinal, diferente de mim, minha irmã sempre pôde fazer tudo nessa casa. A primeira a chegar foi Claudete, a amiga. Soube que era ela assim que eu desci as escadas, por causa do cheiro de cigarro misturado com aquele perfume horroroso de flores que ela usa, essas flores típicas de coroas fúnebres para homenagear os mortos. Rosas brancas, crisântemos, lírios. Veio me cumprimentar por obrigação como sempre faz, com o seu sorriso amarelado de nicotina e aquelas mãos geladas. Praticamente uma defunta, uma defunta defumada. Claudete não gosta de mim. Certa vez negou-me um cigarro por pura implic

Deixa eu dizer que te amo...

A vida oferece, a todo instante, momentos sutilmente encantadores para que possamos apreciar. Mas, às vezes, por falta de sensibilidade, pressa ou mesmo pura distração, nós não percebemos. Por sorte, quiseram as estrelas que no último dia dez de maio eu estivesse aguçado o suficiente para que não deixasse de reparar numa pequena graça em forma de coincidência. Foi o domingo de Dia das Mães, uma das poucas vezes em que estive longe da minha mãe nessa data. Era noite, e eu já havia conversado com ela pelo telefone e renovado as declarações do amor mais sincero que possuo. Ficou feliz com as flores que eu enviei para a sua casa. Quando eu vim para São Paulo, uma das minhas maiores angústias vinha da ideia de ficar longe da minha família. Porém, hoje eu até me sinto privilegiado por morar razoavelmente próximo de todos. O Rio de Janeiro é logo ali. Se não fossem tempos de pandemia, eu teria passado esse dia, mais uma vez, ao lado de dona Rose. Entretanto, eu me encontrava em minha casa naq

Quarentena

Da janela no nono andar, vejo as luzes da cidade brilhando cada vez mais. Anoitece em São Paulo e o frio de maio já começa a dar as caras. Disseram que a moléstia veio lá do Oriente; não se sabe se por meio de avião, navio ou vacilo. Pedem que eu não saia de casa, pois a tosse é traiçoeira e o agravamento tem como um dos pilares uma roleta russa medonha. Além do mais, eu não me perdoaria se ajudasse a enterrar idosos e crônicos. Evito. Sugerem que é a oportunidade de nos conhecermos melhor, isolados. Não deveria ser necessária uma pandemia para isso. Mas como o ser humano não é o ser mais trivial da Terra, as ocasiões vivem colocando em xeque a noção que temos de nós mesmos. Vale a sugestão. Estou me conhecendo sim, e, confesso, me reconhecendo insuportável às vezes. Olho-me através espelho e dou broncas sérias no reflexo. Dedo em riste (às vezes o médio). Faço as pazes comigo para depois me aborrecer novamente. Sou daqueles casais que muito brigam e nunca se separam. Mas

O menino que me pediu ajuda em matemática

Pode me ajudar com matemática, Renan?, foi assim que Cauê (nome fictício) veio até mim naquela manhã em sala de aula logo após descobrir que havia ficado em recuperação na disciplina. Cauê e eu não éramos próximos, mal havíamos nos falado durante os primeiros meses do sétimo ano, embora estudássemos na mesma turma. Tal fato, somado a uma abordagem tão educada, me fez entender que ele realmente estava interessado em melhorar a nota e, mais do que isso, ele acreditava que eu pudesse mesmo ajudá-lo. Era impossível dizer não. Passamos alguns dias juntos, lado a lado, eu explicando a matéria para Cauê nos intervalos das aulas e até mesmo um pouco depois do horário. Naturalmente fomos nos aproximando ao longo desse tempo. Entre funções lineares e figuras geométricas, Cauê e eu também conversávamos coisas de adolescente e, a bem da verdade, às vezes era mais isso do que matemática. E foi assim que o peso da obrigação moral de ajudá-lo cedeu lugar ao gosto d

O canto do galo

Levantar cedo nunca foi uma de minhas virtudes, embora seja uma obrigação que cumpro. Tenho apego ao travesseiro assim como um bebê perante a sua chupeta. Quase choro todas as manhãs por deixá-lo sozinho, longe do meu calor, esfriando ao longo do dia. O que me salva são os afazeres diários, impostos por uma sociedade que preza pelos primeiros raios de sol. Não me entendam mal: eu adoro as manhãs, e contemplá-las me deixa inspirado. Mas eu realmente sinto uma dificuldade crônica em aproveitá-las nos dias em que eu posso dormir até mais tarde. Em outras palavras, uma preguiça colossal. Não importa o quão cedo eu durma no dia anterior; levantar da cama na manhã seguinte é sempre tarefa difícil para mim. Todas as noites eu ativo o alarme do celular para me despertar quarenta e cinco minutos antes do horário real. E são esses quarenta e cinco minutos que me fazem ir aceitando, aos poucos, o fato de que preciso sair da cama e encarar a vida. Mesmo assim, e