Pular para o conteúdo principal

Garotinha do papai

 

Branca de neve segurando uma maçã envenenada 
- Alô!
- Alô, pai?
- Oi, minha princesa! Diga.
- Chegou bem no trabalho?
- Sim, já estou no escritório.
- Que horas você volta hoje?
- Por volta das sete, por quê?
- Preciso de um favor seu…
- Fale, meu amor.
- Poderia passar na farmácia e comprar um pacote de camisinhas pra mim?
- Oi?
- Passar na farmácia e comprar camisinhas pra mim…
- Como assim, Luana?
- É que hoje eu vou transar com o meu namorado pela primeira vez. Ele é meio distraído, não sei se vai se lembrar de levar...
- Luana, você está doida? Como é que você me pede uma coisa dessas?
- Ué, algum problema?
- Luana, você tem apenas dezesseis anos!
- Eu sei. E todas as minhas amigas já transaram, só eu é que…
- Luana, isso não é justificativa! Eu não estou acreditando que você está me pedindo isso!
- Pai, você não vive me dizendo que eu posso contar com o senhor pra qualquer coisa?
- Mas não pra isso! Onde já se viu?
- Mas eu pensei que…
- Pensou errado! Cale essa sua boca! Não quero mais saber disso! Aliás, desde quando você tem namorado?
- Desde início do mês passado.
- E por que eu não estou sabendo? 
- Porque eu ainda não sei se vai dar certo. Tô vendo qual vai ser.
- Ah tá!, a senhorita está VENDO-qual-vai-SER?
- Sim.
- E mesmo assim quer transar?
- Faz parte da análise, pai.
- Chame a sua mãe pra mim agora!
- Tá na casa da vovó. Só volta mais tarde.
- Então eu vou te dizer uma coisa, garota! Se prepare que você vai se ver comigo quando eu chegar em casa!
- Mas pai…
- Mas pai é o cacete! E engole esse choro!
- …
- Luana, eu quero você longe desse moleque, está me ouvindo sua sonsa?
- Estou.
- Eu não quero você transando por aí!
- Mas ele é legal e…
- Eu não quero saber, Luana!
- A família dele já me conhece…
- Não me interessa, Luana!
- O pai dele gosta de mim, quer até que eu faça parte do comício…
- Comício?
- Sim.
- Que história é essa de comício?
- Ah, é coisa do trabalho dele.
- Comício é coisa de político.
- Isso. O Seu Cardoso participa direto.
- Seu Cardoso?
- Sim.
- E quem é esse? Eu só conheço um Cardoso que é político.
- É o senador.
- O Senador da República? Cardoso Moreira? 
- Esse mesmo.
- Luana, você está namorando o filho do senador Cardoso Moreira?
- Isso.
- …
- Pai?
- Vem cá... e ele gosta de você?
- Ele e a mulher dele, Dona Jussara. Me recebem muito bem, tá?! Dona Jussara torce para que dê certo, porque ela acha que eu seria uma nora perfeita...
- Meu Deus!
- ... fico à vontade lá naquela casa linda e enorme, naquela piscina maravilhosa. Sou tratada como mereço, sou até mimada por lá...
- Sei.
- E aqui eu nem posso contar com você!
- Sei.
- ...
- É que esse tipo de coisa assusta qualquer um, minha filha.
- ...
- Mas olhe, não se preocupe, pare de chorar. Faz parte da vida né. Você é a minha garotinha, mas não pode estar presa sob minhas asas pra sempre. Precisa voar... paciência!
- Então está de acordo?
- Sim, mas com uma condição.
- Qual?
- Você vai precisar de roupas novas, inclusive íntimas, mais bonitas e mais adequadas para o momento. Rapazes gostam disso, você vai entender… 
- Oba!
- Papai aqui vai comprar algumas peças pra você quando terminar o expediente. Tá bem, meu amor?
- Oba! Mas e as camisinhas?
- Ah, não se importe com isso. Não vai precisar.

Olá! Meu nome é Renan. Se você gostou deste texto, comente e compartilhe nas opções lá embaixo. É o meu combustível para continuar escrevendo. Leia também os outros textos 😊
- instagram: @renan.mar
- facebook: nuances.r

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Claustrofobia

Aconteceu comigo na volta de uma viagem de férias em 2017. Eu nunca havia tido problemas dentro de um avião até aquele dia, naquele voo noturno. A primeira metade da viagem correu tão bem que eu dormi durante boa parte dela. Eu estava sentado na janela, em paz, cochilando entre uma leitura e outra para passar o tempo. Porém, minha tranquilidade terminou no momento em que eu acordei e logo embarquei numa sequência de sensações negativas. Começou quando eu olhei para o lado e tive a impressão de que o casal que ocupava os assentos do meio e do corredor pareciam estar ainda mais próximos fisicamente de mim, como se eles invadissem o meu espaço. Em seguida, olhei para o assento da frente e entendi como um incômodo insuportável o fato de eu não poder esticar bem as pernas por causa dele. A janela arredondada do avião, de repente, me pareceu menor do que é; a grossa camada de vidro entre o interior da aeronave e o céu me fizeram entender

Deixa eu dizer que te amo...

A vida oferece, a todo instante, momentos sutilmente encantadores para que possamos apreciar. Mas, às vezes, por falta de sensibilidade, pressa ou mesmo pura distração, nós não percebemos. Por sorte, quiseram as estrelas que no último dia dez de maio eu estivesse aguçado o suficiente para que não deixasse de reparar numa pequena graça em forma de coincidência. Foi o domingo de Dia das Mães, uma das poucas vezes em que estive longe da minha mãe nessa data. Era noite, e eu já havia conversado com ela pelo telefone e renovado as declarações do amor mais sincero que possuo. Ficou feliz com as flores que eu enviei para a sua casa. Quando eu vim para São Paulo, uma das minhas maiores angústias vinha da ideia de ficar longe da minha família. Porém, hoje eu até me sinto privilegiado por morar razoavelmente próximo de todos. O Rio de Janeiro é logo ali. Se não fossem tempos de pandemia, eu teria passado esse dia, mais uma vez, ao lado de dona Rose. Entretanto, eu me encontrava em minha casa naq

Jacaré

José Carlos Pereira tomou a vacina e virou jacaré—foi o que disseram a esposa e os filhos, moradores de um pequeno vilarejo nos arredores de Corumbá, no pantanal sul-mato-grossense. O relato dava conta de que, um dia após ter recebido a dose, Zé Carlos desapareceu e um jacaré foi encontrado no quintal da família, exatamente no canto onde o homem gostava de ficar sentado enquanto fumava. O caso atraiu a imprensa local e todo o tipo de gente curiosa. Benedita Tuiuiú, uma velha mística da região, foi visitar a esposa aflita. “Isso é feitiço!”, alegou. A curandeira tentou, então, desfazer o mal a todo o custo através de seus rituais. Sem sucesso. Padre Jorge também acompanhou o caso. “Eu não via algo parecido desde a imagem de Nossa Senhora desenhada na infiltração da parede da casa do Silveira, há mais de vinte anos!”, disse, impressionado. "Mas lá foi milagre, né", emendou ele, para o desespero

Quarentena

Da janela no nono andar, vejo as luzes da cidade brilhando cada vez mais. Anoitece em São Paulo e o frio de maio já começa a dar as caras. Disseram que a moléstia veio lá do Oriente; não se sabe se por meio de avião, navio ou vacilo. Pedem que eu não saia de casa, pois a tosse é traiçoeira e o agravamento tem como um dos pilares uma roleta russa medonha. Além do mais, eu não me perdoaria se ajudasse a enterrar idosos e crônicos. Evito. Sugerem que é a oportunidade de nos conhecermos melhor, isolados. Não deveria ser necessária uma pandemia para isso. Mas como o ser humano não é o ser mais trivial da Terra, as ocasiões vivem colocando em xeque a noção que temos de nós mesmos. Vale a sugestão. Estou me conhecendo sim, e, confesso, me reconhecendo insuportável às vezes. Olho-me através espelho e dou broncas sérias no reflexo. Dedo em riste (às vezes o médio). Faço as pazes comigo para depois me aborrecer novamente. Sou daqueles casais que muito brigam e nunca se separam. Mas

As estrelas não se importam

Mais uma vez eu estava sentado na cadeira do escritório, cabelo penteado, todo adultinho, na segunda metade dos anos 1990. Durante as férias escolares, meu pai adorava me levar para o trabalho com ele, na Cinelândia; e eu adorava ir. Ele sempre me colocava numa mesa em L só para mim, com computador, canetas, papéis para rascunho, grampeadores, tudo, que provavelmente pertenciam a algum funcionário recém-demitido. A Mesbla havia decretado falência e, cada vez que eu voltava lá com o meu pai, havia menos gente e mais computadores órfãos espalhados pelo departamento administrativo. Eu até podia escolher onde queria ficar. Eu ainda não tinha computador em casa naquela época e, portanto, ter um só para mim durante todo o expediente do meu pai era maravilhoso. Assim que chegávamos, meu pai me apresentava à sociedade daquela firma: uns caras maneirinhos que faziam cafuné em mim no estilo  "E aí garotão, beleza, você é o famoso Renan então? Teu pai fala muito de você, bom aluno mas não jo