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Mostrando postagens de Fevereiro, 2021

Gaveta de bilhetes

Se há pouco mais de um ano alguém tivesse me pedido para pensar em uma situação caótica capaz de cancelar o Carnaval, eu talvez pudesse mencionar uma guerra imprevista contra alguma nação implicante ou talvez citasse algum desastre natural de grande magnitude. Ou, quem sabe ainda, eu imaginasse uma mudança sócio-política-cultural drástica causada por uma revolução evangélica, onde o Estado se tornaria oficialmente cristão e a população se dobraria aos preceitos bíblicos mais autoritários (assim como aconteceu no Irã com a Revolução Islâmica). Todas essas distopias eu poderia considerar como grandes motivos para acabar com o Carnaval em nosso país. No entanto, dentro de minha visão limitada de possíveis tragédias, eu jamais incluiria o surgimento de um vírus com potencial pandêmico. Meu amigo Samuel me convidou em cima da hora para passar o feriado com ele no Rio de Janeiro. Ficamos hospedados em Copacabana e o que vimos foi uma cidade que, de

Um tempero diferente

Minha mãe não gosta de coentro, assim como muitas pessoas. Não foram poucas as vezes que eu a ouvi dizer que esse polêmico condimento estraga a comida. Embora seja uma mulher doce e compreensiva, dona Rose costuma ser assertiva quando acha algo ruim. E para a comida temperada com coentro, não há salvação. O banquete pode ter sido preparado pelas mãos mais experientes, pelos chefs mais renomados da alta gastronomia, avaliado em cinco estrelas por todas as revistas de culinária francesa, mas se minha mãe percebe o coentro por ali, verdinho, picado e aparentemente inofensivo tentando se esconder, ela não valoriza o prato. Sente logo o cheiro; desiste antes de pôr na boca. “Tem coentro aqui!”, reclama fazendo cara feia, nariz torcido; empurra! Entra em saia justa e tenta ser discreta para a desfeita não ficar muito na cara.  Coentro é mau gosto do cozinheiro, diria ela. Desse jeito, sem meio-termo.  Para a minha mãe, o coentro é como um

Ninja na farmácia

Eu estava na farmácia quando avistei Sônia (nome fictício). Imediatamente me escondi atrás de uma pilastra para que ela não me visse também. Sônia é uma senhora de uns sessenta anos; alguém que eu não conheço o bastante para ter assunto, mas que ao mesmo tempo eu conheço o suficiente para me sentir na obrigação de ter que falar mais do que um “oi”—situação essa que eu detesto. Sônia veio em minha direção, sem me notar. Virei de costas para ela. Não é antipatia, juro. É apenas timidez; um terrível desconforto. A simpatia (ou a falta dela) é uma característica que nos é dada, depende de interação com alguém. Eu não posso ser antipático com uma pessoa se ela não teve sequer a oportunidade de me ver e, portanto, de me considerar como tal. Logo, decidi me esquivar de qualquer interação com Sônia sem culpa. Fui para outro corredor enquanto Sônia escolhia sabonetes. Mesmo que eu já tivesse pego tudo o que queria, supus que ir para a fila do caixa naquele mo