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Mostrando postagens de Abril, 2021

Planta à beira-mar

Gosto muito dessa foto; desse pequeno caule de sei lá que planta, solitário, levemente inclinado para o mar—e olhando para ele. Como se esperasse por algo que vem da linha do horizonte: um vento, um raio de sol poente, sua planta-gêmea, alguém que possa arrancá-la pela raiz. Talvez ela se pergunte o porquê de estar ali, de ter germinado ali, de ser tão diferente ao mato rasteiro em volta. Ou talvez ela já tenha entendido que sua razão de ser é simplesmente estar à beira do mar mesmo. Um pouco inclinada para ele mesmo. Mais alta do que as outras mesmo. E destacando-se, portanto, sem querer. Sem esperar por nada. O propósito dessa plantinha é estar ali, e ponto. Ela não fica ansiosa com todo esse horizonte aberto a sua frente. Isso é coisa minha. Olá! Meu nome é Renan. Se você gostou deste texto, comente e compartilhe nas opções lá embaixo. É o meu combustível para continuar escrevendo. Leia também os outros textos 😊

Terra plana

A Terra é plana. Sim, eu descobri que é. É plana porque eu tropecei na esquina do mundo e caí para fora dele. Antes disso, eu corria de braços abertos a favor do vento, gargalhava os privilégios de todas as aventuras que podia, cantava de olhos fechados ao som dos violões mais afinados... até que de repente eu caí. Caí do nada, e no nada. E cá estou, flutuando logo abaixo da grande crosta. Daqui, posso ver as raízes de todas as florestas, as relíquias enterradas de todas as culturas, as veias de todos os rios saltadas para mim. Consigo ver fósseis de seres que já não existem, tumbas de deuses e reis que um dia mandaram e desmandaram lá em cima, além de todo o lixo que pinga chorume em meu rosto e escorre boca adentro. Não consigo respirar, engasgo, sinto um nojo colossal do líquido fedido que sai das coisas que antes me faziam sorrir. Olho para os lados e vejo vários pontinhos longe de mim e afastados uns dos outros; é gente que também caiu do mundo

Sangue, lágrima e suor

Ao contrário da lágrima e do suor, o sangue não foi feito para sair de nós. Enquanto a lágrima lubrifica os olhos dos emocionados e o suor refrigera o corpo de quem luta, o sangue não possui função externa à pele. O sangue geralmente escorre de um acidente. Um tiro, uma fratura, um corte. E foi exatamente um caso de laceração profunda que interrompeu, uma vez, a minha consulta num hospital. Uma ambulância barulhenta parou em frente ao saguão, e uma enfermeira veio gritando “Emergência!”. O médico que me atendia pediu desculpas e foi acudir o socorrido. Enquanto o sujeito era levado aos prantos para a sala de emergência, o rastro de seu sangue pingado era deixado no chão dos corredores. Quando o ambiente voltou a ficar em silêncio, uma senhora apareceu com um esfregão e um balde, e começou a limpar as manchas sangue. Eu estava próximo dela. “Coitado! Ele entrou chorando tanto!”, comentei para puxar assunto. A faxineira rebateu: “É, mas todo mundo chor