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Sangue, lágrima e suor

Pintura de um coração humano exposta em local público


Ao contrário da lágrima e do suor, o sangue não foi feito para sair de nós. Enquanto a lágrima lubrifica os olhos dos emocionados e o suor refrigera o corpo de quem luta, o sangue não possui função externa à pele.

O sangue geralmente escorre de um acidente. Um tiro, uma fratura, um corte. E foi exatamente um caso de laceração profunda que interrompeu, uma vez, a minha consulta num hospital. Uma ambulância barulhenta parou em frente ao saguão, e uma enfermeira veio gritando “Emergência!”. O médico que me atendia pediu desculpas e foi acudir o socorrido.

Enquanto o sujeito era levado aos prantos para a sala de emergência, o rastro de seu sangue pingado era deixado no chão dos corredores. Quando o ambiente voltou a ficar em silêncio, uma senhora apareceu com um esfregão e um balde, e começou a limpar as manchas sangue. Eu estava próximo dela. “Coitado! Ele entrou chorando tanto!”, comentei para puxar assunto. A faxineira rebateu: “É, mas todo mundo chora, meu filho. Hoje mesmo eu já chorei”.

E então eu olhei bem para aquela mulher. Cabisbaixa, ela trazia na testa o brilho do suor de quem já tinha limpado o mundo inteiro naquele dia. E assim ela se foi, andando e limpando, entristecida por seus motivos, até desaparecer na esquina de corredores.

Pensando bem, assim como o sangue, também não deveriam sair das pessoas nem a lágrima e nem o suor. Pelo menos não tanto; não o tempo todo.

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