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Claustrofobia

homem em pânico dentro de elevador parado

Aconteceu comigo na volta de uma viagem de férias em 2017. Eu nunca havia tido problemas dentro de um avião até aquele dia, naquele voo noturno. A primeira metade da viagem correu tão bem que eu dormi durante boa parte dela. Eu estava sentado na janela, em paz, cochilando entre uma leitura e outra para passar o tempo. Porém, minha tranquilidade terminou no momento em que eu acordei e logo embarquei numa sequência de sensações negativas.

Começou quando eu olhei para o lado e tive a impressão de que o casal que ocupava os assentos do meio e do corredor pareciam estar ainda mais próximos fisicamente de mim, como se eles invadissem o meu espaço. Em seguida, olhei para o assento da frente e entendi como um incômodo insuportável o fato de eu não poder esticar bem as pernas por causa dele. A janela arredondada do avião, de repente, me pareceu menor do que é; a grossa camada de vidro entre o interior da aeronave e o céu me fizeram entender aquilo como uma clausura, uma privação de liberdade. Eu estava preso! E essa percepção disparou em mim uma terrível agonia. Senti, então, meus batimentos cardíacos acelerarem e precisei pedir licença ao casal para que eu pudesse me levantar, com o pretexto de ir ao banheiro.

Quando me levantei e vi que todas as fileiras do avião estavam lotadas, meus sintomas pioraram. O desencadeamento da fobia se deu por eu ter entregue a minha mente a fatos que, ainda que fossem reais, não justificariam tanto pavor. Primeiro, o forte apego aos detalhes ao meu redor que fizeram com que eu me sentisse ameaçado em meu lugar; depois, já em pé, julguei que o interior da aeronave era um espaço inaceitável para comportar tanta gente. Por último, e pior, foi a sensação de total falta de controle que eu tinha sobre aquela situação. Eu não poderia sair do avião quando eu quisesse; eu havia me colocado numa situação de extrema vulnerabilidade—pelo menos foi assim que eu passei a entender aquilo.

Eu tinha certeza de que estar ali não era normal, que eu estava em perigo e que, portanto, eu deveria definitivamente escapar. Comecei a andar ofegante pelo corredor em direção à traseira do avião e, enquanto eu me movia, parecia que tudo ia se afunilando em minha frente; que a fuselagem vinha em minha direção, estreitando ainda mais o espaço interno. Pensei em pedir socorro aos comissários de bordo, mas confesso que eu estava envergonhado. Fiquei, então, parado próximo à porta do banheiro: o lugar mais espaçoso que encontrei. Entendi que eu deveria tentar me concentrar em algo; ocupar-me de outra coisa que não fosse a minha própria ansiedade. Fechei os olhos e comecei a pensar nas músicas das quais eu gostava e a cantá-las baixinho para mim. E assim, aos poucos, eu fui me acalmando.

Continuei ainda de pé, no mesmo lugar, por mais de uma hora, até que eu estivesse tranquilo o suficiente para retornar ao meu assento e poder continuar a ler o livro que eu havia levado na viagem. Naquela época, eu estava lendo "Sapiens, Uma Breve História da Humanidade", que descreve a jornada do homo sapiens desde os primeiros seres da espécie até o indivíduo atual que compra IPhone. O historiador israelense Yuval Harari, autor deste best-seller, talvez concorde com a teoria evolutiva sobre a claustrofobia, onde o pavor de ambientes fechados seria um instinto herdado de situações de perigos reais que os primitivos caçadores-coletores enfrentavam, tais como cavernas que desmoronavam, animais selvagens que os encurralavam ou qualquer outro tipo de confinamento verdadeiramente fora de qualquer controle humano.

A psicanálise entende a claustrofobia como uma resposta aprendida pelo indivíduo ao encarar determinadas situações, e que essa resposta pode ser desaprendida através de terapias (em conjunto com medicações) que visam ao desenvolvimento da confiança e da capacidade de enfrentar a ansiedade, ajustando o padrão de pensamentos e comportamentos dos pacientes. Entende-se, também, que existe um tipo de personalidade propícia a tornar uma pessoa claustrofóbica.

À luz do Espiritismo, as fobias podem ser explicadas por traumas de vidas passadas. Quando contei sobre minha crise para um colega espírita, ele me disse que pode ser que eu tenha sofrido muito por confinamento espacial numa vida anterior, e quem sabe até morrido por conta disso; talvez soterrado ou coisa parecida. Vai saber.

De fato, hoje eu entendo que esse medo exagerado de estar enclausurado talvez me acompanhasse adormecido desde a infância. Lembro-me de uma surra que levei do meu pai quando eu tinha cinco anos de idade. O motivo era bobo: eu relutava quando minha mãe tentava vestir a camisa do uniforme do colégio em mim, pois eu achava que ela demorava demais para passar a gola na minha cabeça. Isso fazia com que eu ficasse preso por alguns segundos, com o rosto espremido pelo tecido. A ideia de ficar sufocado me apavorava, e portanto a birra era recorrente. Até que uma vez, meu pai, que certamente já estava de saco cheio daquilo, desceu o chinelo em mim. Não o culpo, apesar de eu saber que eu também não mereci.

Depois desse voo conturbado, finalmente cheguei ao aeroporto do Galeão. Até hoje eu não entendi porque eu tive uma crise tão repentina e sem precedentes naquela viagem. Mesmo assim, eu jamais deixaria de voar por isso; eu não me limitaria de viajar por conta de um problema para o qual existe tratamento, mesmo que, após esse dia, eu tenha experimentado outras crises menores em outras situações, especificamente dentro de metrô e elevador. A lembrança de crises anteriores alimenta novas crises. No caso do metrô, eu consigo evitá-lo. Já com relação aos elevadores, eu só aprendi a confiar no do meu prédio; em outros, eu fico apreensivo, mas nada que me impeça de entrar em um. Ainda não passei pela situação de ficar preso dentro de um elevador. (Mal consigo imaginar.)

Chegando à casa dos meus pais, no intuito de passar uns dias por lá vindo direto da viagem, minha mãe correu para dar um abraço, cheia de saudade, como sempre faz quando eu a visito. Foi um abraço mais apertado do que de costume, talvez por eu ter estado tão longe nos dias anteriores. Mesmo ela sendo menor e mais frágil do que eu, creio que eu não conseguiria me esquivar facilmente daquele carinho. Mas não sei; não tentei sair dali. Um abraço demorado e sincero é o único confinamento de que eu gosto.

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