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Pipoca

balde de pipoca transbordando

Eu me lembro de uma menina da minha cidade com quem eu estava saindo quando eu tinha uns vinte anos. Vou chamá-la de Kelly. Certa vez, convidei Kelly para ir ao cinema. Aquela já era a terceira ou quarta vez que saíamos juntos e, embora mostrássemos disposição para nos vermos, os nossos encontros não estavam sendo empolgantes; acredito que tanto para mim quanto para ela. A gente tinha em mente que o outro valia a pena, no sentido de que éramos duas pessoas disponíveis e bem intencionadas, mas isso foi se mostrando como o único (e insuficiente) elemento motivador.

Chegando ao cinema, compramos os ingressos e pedimos pipoca. O atendente pediu para esperarmos ele estourar mais. Enquanto o milho cozinhava, Kelly me dizia que adorava o barulho da pipoca estourando; que provocava nela uma sensação de pureza e alegria. Sorri e concordei. E ainda completei dizendo que o cheiro também contribuía para a atmosfera informal e íntima que a pipoca traz.

Realmente, pipoca combina com tudo o que é bom na vida: filme, jogos, aniversário, amigos. Pipoca deixa tudo mais leve, até mesmo a tristeza. E apesar de ser algo tão simples, fazer pipoca é sempre uma experiência agradável.

Nossa pipoca ficou pronta, um balde grande e cheio. Colocamos nossas mãos ao mesmo tempo no balde. Kelly e eu nos olhamos; estava sem sal. Continuamos nos encarando como se buscássemos no olhar do outro a confirmação de que algo estava estranho ali. De fato, não havia sal em nada. Nem na pipoca e tampouco em nós dois como um casal. A menina pegou um sachê no balcão e despejou sobre o balde. Havia melhorado um pouco (a pipoca apenas).

Peguei na mão de Kelly e caminhamos até a sala do filme. Ela comentou que a minha mão estava fria. Sorri. Minha mão sempre foi fria, sempre me falaram isso. Naquela época, aliás, não era apenas a minha mão: tudo em mim era de uma frieza incompatível com a minha idade. Só fui conhecer o calor da vida algum tempo depois.

Kelly e eu sentamos em nossos lugares, na última fileira. O braço entre os assentos não suspendia, o que era mais um elemento dificultador para algo que já não estava sendo muito fácil. Lembro-me de todo o filme, e só depois percebi que isso também não era um bom sinal.

Depois que a sessão terminou, ainda havia pipoca no balde. Kelly e eu voltamos pela rua conversando qualquer coisa sem importância. Ainda comíamos, mas não mais pelo prazer da pipoca, e sim para disfarçarmos nossa vontade de fugir dali. Na falta do que fazer, ou melhor, na ausência da vontade de fazer algo com as mãos e a boca, a pipoca funcionou como uma válvula de escape para o nosso constrangimento.

Acompanhei a moça até a porta de sua casa. Fiquei remoendo em silêncio o nosso histórico até ali, até que, decidido a pôr um fim naquele gelo entre nós, abracei Kelly pela cintura, que logo correspondeu ao se enroscar em meu pescoço. E então nos beijamos. Devo dizer que foi o beijo de sal mais sem sal que já dei na minha vida. E tenho certeza de que ela sentiu algo parecido. Mas não atribuímos culpas, e nem cabia fazermos isso ali. Apenas nos despedimos.

Retornei para casa ainda segurando a pipoca, finalmente terminando as últimas. Olhei para o balde e pude ver no fundo dele aqueles milhos parcialmente queimados que não estouram. Sempre tem uns assim. Recebi uma mensagem da menina; um emoji. Respondi agradecendo pela companhia, desejei boa noite e enviei um emoji de volta. Depois desse dia, nunca mais nos falamos, nunca mais nos vimos. Desfiz-me do balde; havia acabado. Alguns milhos simplesmente não viram pipoca.

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