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Mostrando postagens de Junho, 2021

Bluetooth

Hoje eu me lembrei daquelas noites no carro, quando eu ia te buscar e ficávamos durante algum tempo estacionados ouvindo nossas músicas. Elas se tornavam “nossas” músicas a partir do momento que tocavam ali, em meio ao nosso cenário de carinho e entrega. Celulares emparelhados, o meu ou o teu, deixávamos tocar o que viesse. E assim, sem querer, montávamos a playlist de uma história. Você deitava no meu ombro e me contava sobre o seu dia e também sobre o seu passado; coisas bobas quaisquer que a minha mente inquieta se esforçava para assimilar, palavra por palavra (eu, que não sou de perguntar muito, ficava todo curioso), tudo para que eu pudesse saber o máximo sobre você. Vez ou outra você se lembrava de alguma música e insistia para que a ouvíssemos juntos. Quando era o meu celular que estava conectado, você pedia gentilmente para mudar para o teu. Mas não ficávamos numa só das tuas canções. L

Encontros

Não existe amor à primeira vista. O que existe é conexão no primeiro encontro: são olhares e sorrisos em sincronia, beijos avassaladores, encaixe perfeito de corpos e boas ideias que batem. Em outras palavras, um pequeno pedaço do paraíso que desce angelicalmente sobre você. Mas não se iluda, isso não é amor. É entretenimento a dois, distração e fantasia compartilhada. Não que essas coisas não sejam sinceras; elas também são. Um simples encontro também é cheio de verdades, mesmo que ele seja casual. Aliás, é difícil pensar em algo mais genuíno do que os nossos desejos; todos eles, dos mais nobres aos mais carnais. Além disso, acredito que poucas pessoas sejam tão teatrais ao ponto de conseguirem simular com desenvoltura um entrosamento que não existe com alguém.  Logo, aquilo que foi bom numa noite calorosa também é  legítimo, ainda que tudo tenha se dissolvido à luz do sol na manhã seguinte.  Como no célebre soneto de Vinicius de Moraes, no “que seja infinito enquanto dure", p

Jacaré

José Carlos Pereira tomou a vacina e virou jacaré—foi o que disseram a esposa e os filhos, moradores de um pequeno vilarejo nos arredores de Corumbá, no pantanal sul-mato-grossense. O relato dava conta de que, um dia após ter recebido a dose, Zé Carlos desapareceu e um jacaré foi encontrado no quintal da família, exatamente no canto onde o homem gostava de ficar sentado enquanto fumava. O caso atraiu a imprensa local e todo o tipo de gente curiosa. Benedita Tuiuiú, uma velha mística da região, foi visitar a esposa aflita. “Isso é feitiço!”, alegou. A curandeira tentou, então, desfazer o mal a todo o custo através de seus rituais. Sem sucesso. Padre Jorge também acompanhou o caso. “Eu não via algo parecido desde a imagem de Nossa Senhora desenhada na infiltração da parede da casa do Silveira, há mais de vinte anos!”, disse, impressionado. "Mas lá foi milagre, né", emendou ele, para o desespero