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Bluetooth

Homem concentrado dirigindo carro

Hoje eu me lembrei daquelas noites no carro, quando eu ia te buscar e ficávamos durante algum tempo estacionados ouvindo nossas músicas. Elas se tornavam “nossas” músicas a partir do momento que tocavam ali, em meio ao nosso cenário de carinho e entrega. Celulares emparelhados, o meu ou o teu, deixávamos tocar o que viesse. E assim, sem querer, montávamos a playlist de uma história.

Você deitava no meu ombro e me contava sobre o seu dia e também sobre o seu passado; coisas bobas quaisquer que a minha mente inquieta se esforçava para assimilar, palavra por palavra (eu, que não sou de perguntar muito, ficava todo curioso), tudo para que eu pudesse saber o máximo sobre você.

Vez ou outra você se lembrava de alguma música e insistia para que a ouvíssemos juntos. Quando era o meu celular que estava conectado, você pedia gentilmente para mudar para o teu. Mas não ficávamos numa só das tuas canções. Logo você me mostrava várias, diferentes das que eu estava acostumado; muitas delas eu nem conhecia, de outras eu já havia me esquecido. Conhecer a playlist de alguém é uma das formas mais práticas de entender que cada pessoa é um universo. E eu, de verdade, adorava o teu.

Também aprendi a apreciar o nosso silêncio. Saber conversar é ótimo, mas saber compartilhar o silêncio é uma dádiva. Quietude sem espaço para constrangimento; ficar totalmente à vontade com alguém quando o único som vem da música. Olhares divagantes, mãos dadas, apenas melodias.

Daí que, após recostar-se no banco do carona, você fechava os olhos ao sentir os meus dedos apertando delicadamente a sua orelha. Então eu me aproximava do teu rosto e você facilitava as coisas para mim, aceitando de bom grado o meu nariz roçando no teu—e eu sempre espiava o teu sorriso abrindo e fechando nesse momento. Tudo isso sem que disséssemos uma palavra sequer.

Invariavelmente nos beijávamos, e o tempo parava, a respiração, tudo. Menos a música. Essa continuava a fazer o seu papel de guardar aquele instante numa caixa de presente bonita, ornada com um laço grande, o qual podíamos puxar ao mesmo tempo, um em cada lado, para que juntos então desfrutássemos uma nova memória afetiva—pequenos agrados que a vida oferece.

Pois eram assim os nossos momentos no carro: nós dois, música, carinho, conversas e também silêncio. Ainda que fôssemos dois atarefados, corríamos contra as horas para ficarmos um pouco juntos. Um pouco cheio de tanto. E mesmo nas noites em que uma chuvinha fina paulistana caía lá fora, o tempo continuava bom aqui dentro. Eu ensolarava ao teu lado.

Nunca tive dificuldade em perceber que gosto de alguém, nem quando eu ainda engatinhava nos sentimentos. Eu logo vejo refletido a minha frente o brilho dos meus próprios olhos. Você não foi a minha primeira paixão, tampouco será a última. Mas seria mentira se eu dissesse que não foi especial.

Hoje eu me lembrei de tudo isso porque, mais cedo, ao me sentar diante do volante e escolher uma música, reparei que o nome do teu celular ainda está na lista do bluetooth do carro, logo abaixo do meu—resquício de uma conexão que já não existe mais entre a gente. Deu saudade. Talvez por isso (e por certa dose de masoquismo) eu tenha apertado no teu nome, ao que, imediatamente, o painel respondeu com insucesso. É óbvio, não poderia ser diferente, afinal você não está mais por perto.

Erro de conexão!, era bem assim que estava escrito na tela. Mas onde foi o erro?, às vezes eu ainda me pergunto.

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