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Jacaré

Desenho de um jacaré verde

José Carlos Pereira tomou a vacina e virou jacaré—foi o que disseram a esposa e os filhos, moradores de um pequeno vilarejo nos arredores de Corumbá, no pantanal sul-mato-grossense. O relato dava conta de que, um dia após ter recebido a dose, Zé Carlos desapareceu e um jacaré foi encontrado no quintal da família, exatamente no canto onde o homem gostava de ficar sentado enquanto fumava.

O caso atraiu a imprensa local e todo o tipo de gente curiosa. Benedita Tuiuiú, uma velha mística da região, foi visitar a esposa aflita. “Isso é feitiço!”, alegou. A curandeira tentou, então, desfazer o mal a todo o custo através de seus rituais. Sem sucesso.

Padre Jorge também acompanhou o caso. “Eu não via algo parecido desde a imagem de Nossa Senhora desenhada na infiltração da parede da casa do Silveira, há mais de vinte anos!”, disse, impressionado. "Mas lá foi milagre, né", emendou ele, para o desespero da família.

D. Maria, a “viúva”, manteve o jacaré no quintal e passou a cuidar dele, na esperança de que o marido logo voltasse ao normal. “Pode ser um efeito colateral temporário! Vão embora daqui!”, gritava a dona-de-casa com as pessoas que, dia e noite, aglomeravam-se sem máscara em sua porta.

Os dias foram passando e a família, ainda otimista, cavou um pequeno açude nos fundos da casa, a fim de tentar criar um habitat para o bicho. Zezinho, o filho mais novo, logo se afeiçoou ao réptil; chamava-o de “papai” e tentava se aproximar. Mas o menino era devidamente coibido pelos demais irmãos, afinal não se sabia o que vacina poderia ter feito também com a personalidade do chefe daquela família.

O mal-entendido foi revelado somente quase dois meses depois, quando uma amiga de D. Maria viu Zé Carlos saindo bêbado de um cabaré, de braços dados com duas prostitutas.

Segundo a Polícia Civil, o jacaré provavelmente havia fugido da caça ilegal na região pantaneira e foi se esconder no quintal aberto da casa do Zé Carlos. O homem teve que se explicar. “Eu estava fumando, me deparei com o bicho e, devido a essa coisa toda de vacina que espalham por aí, eu tive a ideia de deixar o jacaré em meu lugar e sair para me divertir”, disse ele, no auge de sua cara-de-pau, ao jornal da cidade. “Mais de um ano preso em casa por causa dessa maldita pandemia! A mulher não me deixava sair pra nada! Estou vacinado!”, completou.

D. Maria pediu o divórcio. Ficaria com a casa e com as crianças. Também ficaria com o jacaré, se não fosse impedida pelos fiscais da prefeitura e do IBAMA, que garantiram que o bicho seria devolvido e estaria em segurança após ter sido decretada a prisão de um grupo de caçadores que atuava na região.

O município decidiu que a família se despediria do jacaré assim que fosse a vez de D. Maria tomar a vacina. Os eventos se dariam no mesmo dia, na casa da mulher, por mera questão didática: tudo seria televisionado junto—família, casa, fiscais, vacinação e jacaré—para que o intrigante caso pudesse ser esclarecido para toda a população.

Diante das câmeras, D. Maria se desculpou pela ignorância que gerou toda a confusão, valorizou a ciência e agradeceu aos profissionais de saúde que foram até ela. Também aproveitou para xingar o marido—uma saia justa fora do roteiro. O homem, aliás, acabou morrendo pouco tempo depois, de tanto beber.

Enquanto D. Maria era filmada recebendo a dose do imunizante, Zezinho percebeu que o jacaré, já pronto para partir, parecia olhar para ela. “Olha lá mamãe!, acho que ele está esperando a senhora se transformar em jacaré pra se casar com ele, e vocês irem embora juntos!”, disse o menino em tom de piada. A mãe e o restante das pessoas ali presentes caíram na risada. O jacaré foi embora solteiro.

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