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A travesti da padaria

moça segurando uma cesta de pães

Era madrugada de sábado para domingo, quase amanhecendo, e eu estava tomando café numa dessas imensas padarias paulistanas, após curtir a noite, numa época em que a pandemia ainda era algo impensável para nós. Qualquer carioca suburbano (feito eu) que nunca tenha passado tempo suficiente em São Paulo talvez não seja capaz de compreender que frequentar as padarias da maior cidade do Brasil vai muito além de simplesmente esperar numa fila para comprar pão, leite e manteiga.

As padarias de São Paulo são palcos de confraternizações e do surgimento de grandes amizades e amores sob a garoa. Enquanto idosos comem brioches num canto, jovens eufóricos se reúnem noutro para aumentar os níveis de glicose após uma noite de bebedeira (ou para beberem ainda mais).

Essas padarias possuem catracas nas entradas, mesas confortáveis, garçons, balcões de atendimento rápido, pratos exclusivos da casa (muitos deles até se tornam famosos na cidade toda) e estão quase sempre cheias durante as 24h por dia em que funcionam.

Paulistanos e residentes costumam marcar encontros na padaria—ir à padaria é um rolê por aqui! E é por isso que, entre pães e cafés sofisticados, nós podemos encontrar pessoas de todos os tipos. A qualquer momento.

Foi nesse universo movimentado antes das seis da manhã que uma moça apareceu e logo se sentou ao meu lado no balcão central, que também funciona como bar. De início, eu não reparei nela, apesar de que parecia ter 1,90 de altura. Com um movimento brusco, tirou a bolsa a tiracolo do corpo, fazendo-a estalar alto sobre um assento desocupado. Pediu uma dose de cachaça ao atendente, e só então eu tive curiosidade de olhar para ela.

A travesti usava uma jaqueta jeans com brilhos espalhados por todo o tecido, tinha as unhas pintadas de branco, cabelo escuro pouco abaixo do ombro, a boca vermelhona de batom e, no rosto, uma mistura de tons quentes da maquiagem. Ela, então, olhou para mim e me analisou com seus olhos de cílios postiços enormes, de baixo para cima, terminando por mirar bem no fundo dos meus.

'Me chamo Fabiana, prazer', cumprimentou-me oferecendo a mão tal qual uma donzela da década de 20. 'Sou Renan', respondi a abordagem com a voz meio lenta de cansaço, porém agradável e beijando sua mão. Apesar de ter se dirigido a mim primeiro, Fabiana não parecia interessada em conversar. Talvez só quisesse saber se alguém a responderia; um teste de existência numa metrópole que às vezes mal nota a gente.

Não demorou muito para que o copo de cachaça fosse posto a sua frente. Fabiana logo o levou à boca e fez descer tudo de uma vez só, como deve ser. Depois, bateu o copo no balcão concentrada e decidida, como se descesse um cajado numa decisão importante. Ainda com a mão esticada segurando o copo vazio, virou o rosto e olhou novamente para mim. Apertou os lábios, respirou fundo, finalmente largou o copo e, com o dedo em riste, disse 'Menino, nunca entregue o seu coração a ninguém, tá me ouvindo? Ninguém! A gente não merece!'. Em seguida, pegou a bolsa e saiu em direção ao caixa sem dizer mais nada.

Eu não lembro o que eu comia naquela ocasião, mas sei que eu fiquei com a comida na boca por alguns segundos, sem mastigar, processando as palavras de Fabiana.

Olhei para o celular e vi a mensagem da pessoa com quem eu estava saindo e que havia ido à festa comigo naquela noite. 'Cada vez mais adorando nós dois, beijos!', dizia mais ou menos assim o recado. Creio que Fabiana ficaria decepcionada comigo, pois já era tarde demais. O meu coração já estava entregue. Aquela mensagem me fez abrir um sorriso de empurrar as orelhas.

Retornei àquela padaria não muito tempo depois, mas dessa vez eu a encontrei fechada. Fiquei surpreso, pois era uma padaria 24h e aquele era um dia em que ela costumava encher mais. Eu só queria comer alguma coisa doce, um sonho talvez; algo que amenizasse o fato de eu estar, naquele dia, um tanto despedaçado por dentro. Meu lance não havia dado certo.

Caso uma incrível coincidência fizesse com que Fabiana estivesse ali e me encontrasse novamente, ela poderia me dizer 'Eu te avisei, garoto! Eu te avisei!', com o mesmo dedo em riste.

Mas tudo bem, minha cara amiga travesti... essas coisas acontecem mesmo. Eu já frustrei corações por aí também. Eu sei que, assim como eu, você de vez em quando dá de cara nessas padarias sedutoras e cheias de vida na madrugada, que, de uma hora para outra (e sem que a gente entenda), fecham as portas para nós.

Mas nada que um sonho de outra padaria não resolva, Fabiana. Afinal, São Paulo é cheia delas.

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