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Gonorreia

Face de mulher na sombra em preto e branco

Ontem fizeram uma socialzinha aqui em casa, coisa de Marcia, sua amiga e seu namorado. Mamãe detestava esse entra-e-sai de gente na sala dela, bastou morrer para que minha irmã transformasse isso aqui num boteco de esquina. Não, não. Pensando bem, se mamãe ainda desse o ar de sua desgraça nesse mundo, talvez ela não se importasse com essa gente de Marcia pisando em seu tapete, afinal, diferente de mim, minha irmã sempre pôde fazer tudo nessa casa.

A primeira a chegar foi Claudete, a amiga. Soube que era ela assim que eu desci as escadas, por causa do cheiro de cigarro misturado com aquele perfume horroroso de flores que ela usa, essas flores típicas de coroas fúnebres para homenagear os mortos. Rosas brancas, crisântemos, lírios. Veio me cumprimentar por obrigação como sempre faz, com o seu sorriso amarelado de nicotina e aquelas mãos geladas. Praticamente uma defunta, uma defunta defumada.

Claudete não gosta de mim. Certa vez negou-me um cigarro por pura implicância e mesquinharia, já que o que não falta em sua bolsa são dúzias de maços para sustentar o seu vício de caipora. Já está com a cara escurecida de tanto que fuma. Um enfisema ali é questão de tempo, ou um ataque cardíaco. Não vou me assustar no dia em que Marcia receber uma ligação avisando que Claudete enfartou. E aí lá vamos nós duas, minha irmã e eu, nos despedirmos da infeliz.

Pobre Claudete, enquanto Marcia chorará todas as lágrimas por você, eu acenderei um cigarro ao admirar o teu corpo imóvel no caixão. Observarei as flores à tua volta, enfeitando-te pela primeira vez, você que nunca foi bonita. Talvez o cheiro delas e a tua pele fria me confundam, e eu me lembre do teu perfuminho ruim e dos teus apertos de mãos gelados, e por isso eu possa até pensar que você está viva, Claudete! Talvez eu fique tão empolgada com o possível equívoco de tua morte que eu até lhe ofereça um cigarro, ali mesmo, no teu velório, pois sou generosa e não guardo rancor. Mas não sei Claudete, você toda quietinha deitada no caixão, não sei se você aceitaria.

Meus pensamentos sobre Claudete logo foram interrompidos assim que Fernando chegou, o namorado de Marcia. Veio carregando os trejeitos de sempre, achando que engana todo mundo. Não posso negar que eu gostei dele quando o conheci. Tentei de todas as formas seduzi-lo, até mesmo simular uma toalha de banho caindo corpo abaixo eu fiz. Tudo em vão. No fim das contas foi com a minha irmã que Fernando ficou. Mas tudo bem, pois sei que no fundo ele gosta mesmo é de macho. É bem assim: do nada, uma mãozinha mais esvoaçante do que se poderia esperar de um sujeito, ou então um tom de voz agudo que nasce da espontaneidade de uma empolgação. Na época em que ainda era solteiro, Fernando costumava virar discretamente o celular para baixo toda vez que percebia que a tela se iluminava, tudo para que os amigos não percebessem que um rapaz havia entrado em contato com ele. Cansei de alertar Marcia, tenho certeza que ele nunca largou os homens por ela, mas ela nunca me ouviu. Idiota apaixonada.

Se Marcia fosse esperta, teria ficado desencantada também por causa daquele cão. Fernando tinha um pinscher, dizia-se "pai de dog". Eu ria toda por dentro pois nunca tinha visto um bicho tão mal cuidado. Quando nós duas íamos visitar Fernando, o cachorro em vez de correr para nós, corria para o pote de ração vazio, feito um refém sinalizando pedido de socorro. Não latia, não tentava nos atacar. Única vez que vi um pinscher sem energia. Somente os homens devem ser bem servidos ali, naquele apartamentinho, poucos metros quadrados, mas suficientes para caber um cão faminto pelos cantos e os machos do "pai de dog" na cama. Ainda bem que eu me livrei.

Eu costumo ficar assim, calada e pensativa, pois não suporto essas sociais aqui em casa. Sempre me consomem muito. Tudo muito monótono, desinteressante. A coisa só melhorou ontem por aqui quando Marcia e Claudete subiram as escadas enquanto Fernando ficou preparando os petiscos. Achei aquilo estranho, esperei alguns minutos, disfarcei com Fernando e subi atrás delas, apesar do nojo que me dá o rastro de fumaça e flor deixado por Claudete. Caminhei cuidadosamente, aproximei-me do quarto de minha irmã e encostei a orelha na porta. Demorei um pouco para conseguir entender sobre o que elas conversavam. Eram quase cochichos, mas pude compreender o assunto!

Gonorreia! Marcia confidenciou a Claudete que está com gonorreia e que Fernando jamais poderia saber! Não pude acreditar! Como assim, Marcia? Logo você, tão certinha, toda cheia de pode-e-não-pode nessa vida. Só namorou depois de estudar, fez faculdade, primeiro lugar geral, treina cinco vezes por semana, usa máscara e álcool em gel o tempo todo. Tão cuidadosa e precavida essa Marcia, e agora com corrimento, hein? Que babado, minha irmã! Literalmente, aliás. Eu só não entendo por que você conta essas coisas para a Claudete e não conta para mim, que compartilho o teu sangue. O que ela pode fazer? No máximo vai te dar um cigarro para você relaxar. Mas eu saberia aconselhar melhor, que sou sua irmã mais velha, apesar de que, olha!, por essa eu jamais poderia esperar. Estou imaginando mamãe viva e sabendo disso, a filha perfeitinha dela tendo que tomar remédio porque sentou num pau podre por aí. Quem te viu quem te vê, Marcia! Imagina se Fernando descobre essa traição, com aquelas mãos esvoaçantes e nervosas dele. Você sabe como é homem né?, mesmo que ele não seja tão homem assim. Imagina só se ele fica sabendo disso, pensei.

Quando eu ainda era menina e mamãe me obrigava a ir à igreja, eu ouvia o padre dizer que toda doença que temos é consequência de nossos pecados. É uma das poucas coisas que eu me lembro daquelas missas intermináveis. Não entendo o porquê de eu ter guardado essa besteira na memória. Não imagino que crianças estejam internadas em hospitais do câncer mundo afora para que paguem por seus pecados. Agora, porém, acho graça na frase. Tudo o que me diverte tem utilidade. E Marcia sendo pecadora definitivamente é algo que me faz rir.

Desci as escadas antes que eu fosse flagrada por Marcia e Claudete e logo dei de cara com Fernando, que veio me oferecer um petisco. Aceitei, risonha. Ouvi o toque do seu celular, algum homem mandando mensagem, só podia ser. Está vendo só?, pensei. Você deveria ter ficado comigo naquela época, mas resolveu escolher a minha irmã. Agora, além de chifre, provavelmente ganhou uma gonorreia de brinde. E olha que eu até poderia aceitar os teus machos e quem sabe transar com eles junto contigo, só entre a gente, fetiche nosso, e ainda manteríamos o teu armário fechado. Seria um belo negócio.

Mas não, eu não falei nada disso para Fernando, pois o meu sentimento por ele é passado e eu sou discreta. A única coisa que eu disse foi que ele poderia ficar tranquilo, pois o que Marcia tem é uma doença banal, facilmente tratável hoje em dia. Um comprimidinho e pronto, fica limpa de novo. Fernando me olhou feito o seu falecido pinscher, choroso, como se pedisse comida, como se pedisse socorro, esperando que eu lhe explicasse melhor a situação. Mas por eu ter permanecido quieta saboreando o quitute, que estava divino, ele rapidamente se afastou e correu escadas acima.

Não demorou muito para que Claudete reaparecesse, tendo deixado o casal lá em cima a sós para uma conversa tão difícil. Claudete me olhou como se me fuzilasse, um olhar tão gelado quanto a sua pele de rã. Cara feia nunca me assustou, ela que me olhasse como quisesse, desde que fosse logo embora com sua nuvem de tabaco e seu perfume de jardim de cemitério. E felizmente foi, sem dizer uma só palavra de despedida. Te vejo no velório, Claudete. No teu. Porque pronta para isso você já está.

Talvez Marcia tenha admitido a traição e a doença para Fernando, não sei, porque depois eu fui para o meu quarto e não saí mais de lá. E até agora Marcia não falou comigo. Talvez eles tenham terminado e, quem sabe, Fernando até resolva ficar comigo para fazermos ménage por aí com outros rapazes. Talvez adotemos um cãozinho juntos para que ele possa se redimir pelo pinscher. Coitado daquele cachorro.

Mas para ser sincera, não sei se mereço algum tipo de refresco na vida. Afinal, eu sempre fui tratada nesta casa como se eu fosse uma infecção, escorrendo fedida pelos cantos, uma qualquer coisa inconveniente. Durante todos os anos em que mamãe e o traste do meu padrasto eram vivos, eu sempre fui ofuscada, a feia, a filha preterida. Tudo culpa daquele homem nojento com quem mamãe decidiu se casar depois de largar o meu querido pai. Aquele segundo marido dela que me tocava mais do que um homem decente poderia, mais do que qualquer figura de pai deveria. Enquanto Marcia brilhava em leveza e inocência nas apresentações de balé, eu tinha no meio das coxas as mãos do meu padrasto. Mamãe talvez fingisse que não via. Minha irmã foi a criança escolhida a dedo para a dignidade, enquanto para mim foi reservado o chorume desta família, a válvula de escape, usada como objeto para a podridão de um homem asqueroso e entregue à indiferença de minha própria mãe. Eu que sempre a amei mais do que tudo nessa vida.

Marcia nunca soube de nada, é evidente. Ela era pequena demais naquela época e eu nunca quis contar. Não por querer poupá-la, mas por vergonha e por saber que ela jamais acreditaria que seu pai biológico abusava de sua irmã mais velha. Nunca tive credibilidade perante Marcia ou qualquer outra pessoa. Se eu não dependesse de seu emprego-que-paga-bem, eu já teria sumido daqui há muito tempo. Ninguém me procuraria, certamente. Aliás, ninguém nunca soube direito o meu nome. Sou sempre "a irmã da Marcia", sempre tida como uma sombra que anda junto dela, que precisa ser convidada pelos amigos junto com ela, pois a bem-quista e solidária Marcia nunca quis deixar a irmã sem amigos sozinha.

Assim fui e assim sempre serei: um estorvo, uma ardência, uma coceira incômoda na vida de minha irmã. O que me resta é aceitar essa vida de parasita e daqui para frente me apresentar como sou. Da próxima vez então que ousarem perguntar o meu nome, farei uma reverência de balé, bem bonitinha, e levantarei uma de minhas mãos suavemente para que a beijem. Mostrarei, pois, o sorriso forçado que aprendi ao longo dos anos e, por fim, direi o único nome que me cabe. Feio como deve ser e inspirado em Marcia. Prazer, eu me chamo Gonorreia.

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