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O menino que me pediu ajuda em matemática

livros empilhados com lápis e canetas sobre eles

Pode me ajudar com matemática, Renan?, foi assim que Cauê (nome fictício) veio até mim naquela manhã em sala de aula logo após descobrir que havia ficado em recuperação na disciplina. Cauê e eu não éramos próximos, mal havíamos nos falado durante os primeiros meses do sétimo ano, embora estudássemos na mesma turma. Tal fato, somado a uma abordagem tão educada, me fez entender que ele realmente estava interessado em melhorar a nota e, mais do que isso, ele acreditava que eu pudesse mesmo ajudá-lo. Era impossível dizer não.

Passamos alguns dias juntos, lado a lado, eu explicando a matéria para Cauê nos intervalos das aulas e até mesmo um pouco depois do horário. Naturalmente fomos nos aproximando ao longo desse tempo. Entre funções lineares e figuras geométricas, Cauê e eu também conversávamos coisas de adolescente e, a bem da verdade, às vezes era mais isso do que matemática. E foi assim que o peso da obrigação moral de ajudá-lo cedeu lugar ao gosto de ter sua companhia, e creio que fosse recíproco. Bastava um tempo vago e lá vinha o meu mais novo amigo sentar ao meu lado para que eu lhe ajudasse com os números e para conversarmos—não necessariamente nessa ordem. Se antes Cauê me parecia mais um entre quarenta colegas de turma, não demorou muito para que eu começasse a notar nele algumas coisas que eu não possuía, qualidades que eu ainda nem sabia que admirava, mas admirava.

Cauê era um questionador nato, dotado de uma percepção fora da caixa sobre as coisas. Certa vez, durante a explicação, notei que ele estava um pouco disperso, olhando ao redor da sala. Perguntei se estava tudo bem e o menino me disse que não entendia por que uma sala de aula tinha que ser daquela maneira. Quem havia inventado aquilo assim: carteiras alinhadas, individuais e viradas para um quadro gigante? Eu nunca tinha me perguntado isso; para mim era desse jeito porque era, e isso bastava para que eu aceitasse que fosse. Mas Cauê queria entender o que acontecia ao redor dele (e o motivo), fosse com pessoas ou o mundo, coisas concretas ou abstratas, consideradas importantes ou não.

Talvez como consequência desse seu jeito, Cauê tivesse uma empatia que me saltava aos olhos. Isso ficou claro no dia em que uma menina da turma estava com a cabeça arriada sobre a carteira, perto de nós, parecia triste. Eu já havia percebido que ela não estava bem, mas eu tinha essa mania de acreditar que era melhor deixar as coisas como estão, pois não há o que fazer e eu poderia constranger uma pessoa muito mais do que ajudá-la. Cauê, porém, se compadeceu o suficiente ao ponto de me interromper, ir até ela, agachar ao seu lado e perguntar o que estava acontecendo, se ela queria que chamasse a professora, se queria um copo d’água, que fosse. Lembro que a menina enxugou algumas lágrimas, disse para ele não se preocupar e aos poucos foi melhorando; parecia ser algum problema pessoal. Um gesto de gentileza pode não resolver os fardos de alguém, mas ela é sempre bem-vinda.

Numa outra vez, quando a professora de história explicava sobre o fim da escravidão no Brasil, Cauê levantou a mão para perguntar, Os negros conseguiram arrumar emprego após a abolição? Gerou discussão. Nunca me esqueci dessa pergunta. Eu jamais a teria feito ali, por achar que estivesse fora do escopo de ensino. Mas hoje eu entendo o quanto ela é fundamental para entendermos o Brasil. Cauê questionou a integração dos negros na sociedade pós-escravista sem que a professora ainda tivesse tocado nessa questão, o que foi curioso e ao mesmo tempo brilhante para um garoto branco de uns doze anos de idade. É claro que não bastou que a Princesa Isabel assinasse a Lei Áurea para que ficasse tudo bem com a população negra desse país, que permaneceu marginalizada e sem acessos, com desdobramentos que ainda podemos observar nitidamente nos dias atuais.

É possível que hoje eu me lembre mais de Cauê do que ele de mim, afinal foi ele quem me ensinou muito mais. Várias vezes eu deixei de lado a empatia e os questionamentos sobre o estado das coisas, muito por causa da minha timidez, mas também por achar que nada pudesse ser feito. Eu estudei história e geografia no colégio como eu estudava as ciências exatas: apegado aos nomes, às datas, aos fatos concretos, com pouquíssima imaginação, como se os acontecimentos da humanidade fossem fórmulas matemáticas, leis físicas, restritos a um conjunto de resultados possíveis. Isso me garantiu boas notas, pois eu era estudioso, mas não me formou adequadamente como pessoa. Já Cauê parecia entender desde aquela época que as coisas não são como são porque sim e pronto. Elas apenas estão! E se é um estado, elas podem ser mudadas (e muitas vezes deveriam). É um outro nível de entendimento e que somente muitos anos depois eu comecei a assimilar, e até hoje eu aprendo.

Eu espero que Cauê não tenha sido subestimado ao longo do restante de sua vida acadêmica, sob uma dinâmica que exigia dos jovens (pelo menos naquele tempo) boas notas nas provas, mas que pouco valorizava o trato pessoal, os "pequenos" questionamentos e o pensamento coletivo. Eu ficaria muito feliz em saber que a incrível inteligência interpessoal e intuitiva do meu velho amigo foi muito bem aproveitada, em vez de sufocada por demandas lógicas e frias dos estudos e da vida em geral.

Cauê conseguiu passar em matemática após as nossas aulas e, no fim daquele ano, ele mudou de colégio e nunca mais nos vimos. Há um tempo me deparei com o seu perfil na rede social. Pensei em adicioná-lo, mas por ser uma conta fechada e com pouquíssimos seguidores, assumi que ele reserva essa forma de contato somente para pessoas próximas e, assim, desisti da solicitação. Na foto de perfil, Cauê está ao lado de um menino que provavelmente é o seu filho. Ambos estão sorrindo para a câmera, abraçados, e parecem ser muito amigos. Cauê deve ser um ótimo pai. Certamente ele é.

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