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Amor e palavrão

Balão com caracteres que simbolizam palavras de baixo calão

Malvina era uma mulher que todos os dias passava na minha calçada, quando eu era pequeno. De meia idade, sempre embriagada e vestindo um shortinho jeans curto com o botão da frente aberto, Malvina gostava de mandar beijos desbocados para os conhecidos que encontrava pelo caminho: “Te amo, porra!”, dizia para um; “Amo você, caralho!” gritava para outro, com sua voz arranhada de cigarro e cachaça, logo após estalar o beijo na palma da mão e dar tchauzinho de longe.

Perdi as contas de quantas vezes Malvina se declarou para mim. Tímido, eu morria de medo daquela mulher, mesmo sabendo que ela jamais pudesse me fazer mal. Tempos depois, correram boatos no bairro de que Malvina havia morrido por ingestão de veneno de rato. De fato, ela nunca mais foi vista. Eu nunca soube se o ocorrido foi acidente, cilada ou vontade própria. Em todo o caso, deu pena.

Embora pensasse que as declarações de amor de Malvina fossem muito mais orientadas por insanidade do que por sentimento, eu nunca entendi, de maneira geral, como alguém podia dizer “eu te amo” de um jeito tão grosseiro. Amor não me parecia combinar com gritaria. Na minha concepção de menino, eu entendia o amor como um sussurro, um afago, uma ciranda de borboletas; e borboletas definitivamente não falam alto, tampouco xingam.

Até que, aos vinte e um anos, eu me vi com o amor e o palavrão juntos na boca pela primeira vez. Era um namoro que não andava bem das pernas. Aliás, mal era possível chamar de namoro; estava mais para uma amizade colorida permeada de medos e dúvidas, embora houvesse amor, sim—e muito. Decidimos, eu e ele, certa vez, pôr fim a tudo; aquela brincadeira entre meninos já estava indo muito longe. Caminhei, afastando-me dele, tentando não olhar para trás, convencendo-me de que não ficaríamos juntos outra vez. Mas não resisti. A verdade é que eu não queria que ele saísse da minha vida, nunca mais. Dei meia volta e fui novamente ao seu encontro, em passos apertados. Ele me esperava, ainda me desejava também. Abraçamo-nos com força. “Eu te amo! Porra, eu te amo tanto!”, disse-lhe, em voz alta. “Eu também te amo demais!”, respondeu ele, de olhos fechados e a cabeça pousada em meu ombro—mas sem o palavrão, pois ele era polido até nas emoções.

Palavrões são assim mesmo, feitos para o clímax, dotados de imensa força literária, tanto quanto a palavra “desejo” e a própria palavra “amor”. Os palavrões contêm energia única, expressando da forma mais fiel e direta possível um sentimento, uma indignação, uma alegria; difícil de serem substituídos com mesma precisão emotiva por palavras mais suaves. Ao meu ver, palavrões soam mal apenas se colocados como ofensas ou se não forem nascidos de rompantes, de uma euforia enfática, mas distribuídos nas frases como se fossem vírgulas. Ditos à toa, eles acabam esvaziados de seu potencial.

No entanto, mesmo quando usados de forma exagerada—e desde que não surjam para agredir—os palavrões ainda permanecem tão benignos quanto o amor. Talvez, por isso mesmo, durante minha infância, Malvina vivesse pelas ruas, declarando-se por aí, gritando cirandas de borboletas chulas para todos os conhecidos de quem ela gostava, a torto e a direito. Pois, entre todas as coisas que fizeram parte de sua vida—junto à bebida, ao cigarro e, por fim, ao veneno de rato—Malvina talvez soubesse que o amor e o palavrão eram os únicos excessos que jamais poderiam matá-la.

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