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Entre o último afeto e o sumiço

 

sombra de dois homens em preto e branco de mãos dadas

Dia desses, meu amigo Jonas (nome fictício) me contou que conheceu um rapaz numa festa. Encantou-se por Lucas imediatamente, conquistou o moço e os dois ficaram juntos pelo resto da noite; “casaram-se na balada”, como se diz por aí. Marcaram de sair para jantar no dia seguinte. Meu amigo, sempre muito elegante ao vestir-se e portar-se, adorou o jeito largado daquele rapaz, meio bobo, um pouco atrapalhado e que “usava um óculos nada a ver, mas que nele ficavam bem”, palavras do próprio Jonas. “O conjunto todo, a beleza do boy, ele sendo desajeitado, aquilo foi tudo pra mim”, completou o meu amigo.

Durante o jantar, Jonas ouviu de Lucas vários detalhes sobre sua vida; coisas de família, histórias íntimas até. A conexão e o desejo entre os dois começaram a manifestar-se ali através de carinhos nas mãos, sobre a mesa, como se já fossem dois namorados comemorando bodas. Um motivo de força maior impediu que eles atendessem às suas vontades sexuais naquela noite, mas, pelo menos, o beijo aconteceu. Foi logo após o jantar, quando ambos estavam na calçada em frente ao restaurante, já na hora da despedida. “Um beijo bom, no tempo certo, perfeito”, disse Jonas.

Mesmo no fim, aquele encontro ainda guardava o seu momento mais hollywoodiano: Jonas e Lucas ficaram de mãos dadas após o beijo, e foi apenas quando Jonas entrou em seu carro, que Lucas largou a mão do meu amigo, como se paparicasse uma celebridade até o último instante possível. Depois, Lucas pegou o seu veículo, emparelhou-o ao lado do de Jonas, mais à frente, e, abrindo o vidro, disse-lhe: “você é lindo e eu não consigo parar de te olhar e ir embora”. Tudo corria bem, como nos filmes mais românticos.

No dia seguinte, entretanto, as coisas mudaram. Jonas manteve a empolgação da (incrível) noite anterior ao enviar uma mensagem de bom dia para Lucas. Mas, já pela manhã, percebeu que o rapaz estava frio. A confirmação daquela estranheza veio na resposta de Lucas ao ser perguntado se estava tudo bem: “estou bem, é que eu não sou bom com essas coisas de online rs”. Péssima desculpa. A partir daí, Lucas não respondeu mais às mensagens de Jonas, que ainda tentou ao longo do dia puxar qualquer tipo de assunto ameno. Lucas continuou ignorando o meu amigo até a sua última tentativa de contato, um dia depois.

A história me causou indignação, justamente por eu já ter passado por isso algumas vezes. Fica o questionamento: o que houve entre o último afeto e o sumiço? Se não aconteceu nada grave com sujeito (ou com alguém próximo a ele) ou se ele não sofre de Transtorno Bipolar do tipo I (o mais clássico e severo, com alternâncias abruptas entre os estados de mania e depressão), eu não consigo elencar outros motivos que poderiam isentá-lo da culpa por, repentinamente, parar de falar com alguém com quem demonstrou intensa conexão horas atrás. Nada de estranho havia acontecido entre eles no dia anterior; muito pelo contrário.

Tenho lido e ouvido muitas coisas a respeito de controlar nossas expectativas, quase como se fosse proibido criá-las no século 21. Como posso não ter a esperança de continuar falando com alguém com quem tenho experimentado trocas gostosas de afeto? “Ela parou de falar comigo do nada, mas está tudo bem”, ouvi isso de outro amigo sobre uma menina, há algum tempo. Não, não está tudo bem. A gente não deve normalizar esse tipo de comportamento do outro e fingir o mesmo desapego, quando não é isso o que sentimos.

Não é incomum acordarmos no dia seguinte e percebermos que a intensidade que tivemos com alguém no dia anterior não era para tanto; isso acontece. O que não é justo é a forma covarde com que isso é sinalizado para a outra pessoa: ignorando-a em vez de explicar-lhe a situação. Um simples “pensei bem e acho que deveríamos ir com calma” já seria o suficiente, por mais que depois ficasse decidido que não haveria um novo encontro.

A história de Jonas e Lucas é muito recente. Talvez Lucas ainda entre em contato com Jonas, talvez eles conversem e Jonas o perdoe, convencido dos motivos do rapaz para o sumiço. Se isso acontecer, pelo menos Jonas já sabe o mar que estará à sua frente; caberá a ele decidir navegar ou não por ali. Mas o histórico afetivo do meu amigo, de apenas trinta e dois anos e recém-saído de um relacionamento de quatorze anos, não combina com a instabilidade das águas. Certamente ele teve que queimar muitas pontes para tornar-se hoje quem ele é; coisas que só ele sabe e fizeram dele um navio de grande porte. Jonas merece terra firme, quando (e se) assim novamente ele quiser, após aventurar-se em águas mundo afora. Lucas é só um mar revolto, mas Jonas desliza leve por cima.

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