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Sobre o Nuances


De longe, aquele mar de prédios parecidos, cada qual com suas almas apressadas. Ninguém nota se uma luz se apaga, se uma cor desbota. Se pudéssemos olhar mais de perto, veríamos que, na verdade, cada pessoa é um mundo composto por várias outras cores e luzes. E que as coisas, por mais simples que sejam, podem ter um enorme significado...

Olá! Meu nome é Renan Mariano, tenho 33 anos, natural do Rio de Janeiro e atualmente moro em São Paulo. Sou engenheiro e gosto de escrever. Este é o meu blog literário, onde escrevo crônicas, contos e demais histórias que tentam realçar a pluralidade das coisas, das pessoas, da vida. A leveza e o bom humor nos textos estão (quase) sempre presentes!

Contato:
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 renaneng@poli.ufrj.br
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Terra plana

A Terra é plana. Sim, eu descobri que é. É plana porque eu tropecei na esquina do mundo e caí para fora dele. Antes disso, eu corria de braços abertos a favor do vento, gargalhava os privilégios de todas as aventuras que podia, cantava de olhos fechados ao som dos violões mais afinados... até que de repente eu caí. Caí do nada, e no nada. E cá estou, flutuando logo abaixo da grande crosta. Daqui, posso ver as raízes de todas as florestas, as relíquias enterradas de todas as culturas, as veias de todos os rios saltadas para mim. Consigo ver fósseis de seres que já não existem, tumbas de deuses e reis que um dia mandaram e desmandaram lá em cima, além de todo o lixo que pinga chorume em meu rosto e escorre boca adentro. Não consigo respirar, engasgo, sinto um nojo colossal do líquido fedido que sai das coisas que antes me faziam sorrir. Olho para os lados e vejo vários pontinhos longe de mim e afastados uns dos outros; é gente que também caiu do mundo

As estrelas não se importam

Mais uma vez eu estava sentado na cadeira do escritório, cabelo penteado, todo adultinho, na segunda metade dos anos 1990. Durante as férias escolares, meu pai adorava me levar para o trabalho com ele, na Cinelândia; e eu adorava ir. Ele sempre me colocava numa mesa em L só para mim, com computador, canetas, papéis para rascunho, grampeadores, tudo, que provavelmente pertenciam a algum funcionário recém-demitido. A Mesbla havia decretado falência e, cada vez que eu voltava lá com o meu pai, havia menos gente e mais computadores órfãos espalhados pelo departamento administrativo. Eu até podia escolher onde queria ficar. Eu ainda não tinha computador em casa naquela época e, portanto, ter um só para mim durante todo o expediente do meu pai era maravilhoso. Assim que chegávamos, meu pai me apresentava à sociedade daquela firma: uns caras maneirinhos que faziam cafuné em mim no estilo  "E aí garotão, beleza, você é o famoso Renan então? Teu pai fala muito de você, bom aluno mas não jo

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Samuel não é meu amigo de longa data, mas eu gostaria que fosse. Nós nos conhecemos no feriado prolongado de novembro de 2018, no Rio de Janeiro. De início, talvez ele tenha se esforçado mais do que eu para que nossa amizade sobrevivesse ao calor carioca (não consigo fazer nada direito no calor, inclusive amizades); e eu lhe agradeço por isso. Se não fosse por ele, eu jamais teria vivido os bons momentos que sua presença me proporcionou até aqui, tais quais o nosso passeio em Bonito (MS) e as incontáveis sociais em nossas casas. Engana-se quem o vê pela primeira vez e pensa que ele é quieto. De uma hora para outra, quando eu menos espero, ele desanda a falar; geralmente, algo interessante. Mas, distraído que sou, por vezes eu me perco em suas palavras. Daí que sou devidamente repreendido. "Repita o que eu estava te dizendo agora...". Entro em desespero, e tento repetir a história com as palavras soltas que ouvi. "Não é nada disso", finaliza ele, decepcionado. Porém,

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Levantar cedo nunca foi uma de minhas virtudes, embora seja uma obrigação que cumpro. Tenho apego ao travesseiro assim como um bebê perante a sua chupeta. Quase choro todas as manhãs por deixá-lo sozinho, longe do meu calor, esfriando ao longo do dia. O que me salva são os afazeres diários, impostos por uma sociedade que preza pelos primeiros raios de sol. Não me entendam mal: eu adoro as manhãs, e contemplá-las me deixa inspirado. Mas eu realmente sinto uma dificuldade crônica em aproveitá-las nos dias em que eu posso dormir até mais tarde. Em outras palavras, uma preguiça colossal. Não importa o quão cedo eu durma no dia anterior; levantar da cama na manhã seguinte é sempre tarefa difícil para mim. Todas as noites eu ativo o alarme do celular para me despertar quarenta e cinco minutos antes do horário real. E são esses quarenta e cinco minutos que me fazem ir aceitando, aos poucos, o fato de que preciso sair da cama e encarar a vida. Mesmo assim, e

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Da janela no nono andar, vejo as luzes da cidade brilhando cada vez mais. Anoitece em São Paulo e o frio de maio já começa a dar as caras. Disseram que a moléstia veio lá do Oriente; não se sabe se por meio de avião, navio ou vacilo. Pedem que eu não saia de casa, pois a tosse é traiçoeira e o agravamento tem como um dos pilares uma roleta russa medonha. Além do mais, eu não me perdoaria se ajudasse a enterrar idosos e crônicos. Evito. Sugerem que é a oportunidade de nos conhecermos melhor, isolados. Não deveria ser necessária uma pandemia para isso. Mas como o ser humano não é o ser mais trivial da Terra, as ocasiões vivem colocando em xeque a noção que temos de nós mesmos. Vale a sugestão. Estou me conhecendo sim, e, confesso, me reconhecendo insuportável às vezes. Olho-me através espelho e dou broncas sérias no reflexo. Dedo em riste (às vezes o médio). Faço as pazes comigo para depois me aborrecer novamente. Sou daqueles casais que muito brigam e nunca se separam. Mas